"Amor"

Pedra

09:13



Isso é sobre mim. Sobre minha inconstância frequente e inerente que me deixa feliz de manhã e angustiada de noite. É sobre minha vontade incontrolável de querer sair da sua vida sem dar tchau porque dar tchau é dolorido demais pra mim. É sobre tudo o que eu tive que jogar fora para conseguir reconstruir o que você destruiu, mas que eu até gostei disso. Gostei de entender minhas paredes, reorganizar os quadros e até pintar alguns novos. E tudo é sobre como eu não faço ideia do que fazer.

Eu virei uma pedra. Uma das piores. Daquelas que não servem nem para construir casa, ou esfoliar os pés na areia. Eu sou, literalmente, uma pedra imóvel e estática com a única função de não sentir nada.  Eu até tento mudar e ser uma pessoa diferente. Até tento escrever com palavras e estruturas novas, como se eu fosse muito mais inteligente do que eu, de fato, pareço ser. Mas quando eu penso que, ah, pronto, me tornei uma pessoa forte o bastante para enfrentar a vida, alguma coisa coloca em prova toda minha força. E adivinha? Eu falho.

Não sei lidar com você. Com sua voz, com suas lágrimas, com suas promessas de que a gente vai se reencontrar na paulista e que tudo vai ser diferente. Você, com sua blusa verde militar. Eu, com minha camisa preta listrada - tudo bem, essa parte fui eu que inventei. Eu quero tanto que isso acabe, por Deus, como eu quero ir embora. Mas ao mesmo tempo, sua cama ainda tem meu cheiro, nossas fotos ainda estão na sua escrivaninha e cada carta ainda está guardada na gaveta. Como eu posso ir embora assim? Como eu posso me deixar ser esse fantasma que ficou preso no seu banheiro e que aparece sempre que você fala "eu te amo incondicionalmente" três vezes na frente do espelho?

Muitas vezes eu pensei em apagar cada vestígio seu na minha vida. Seu número. Suas fotos. Suas roupas. Seus textos. Muitas dessas coisas viraram uma contribuição para o buraco da camada de ozônio e aquecimento global. Mas eu não me importo em te queimar. Não me importo em colocar todo nosso passado na fogueira porque fazer isso é muito menos dolorido do que tentar ser madura o bastante pra encarar que o que aconteceu faz parte da minha vida e não é uma coisa que eu consigo destruir. Ao invés disso, eu virei pedra. Deixei as lágrimas secarem e tudo o que restou foi: pedra.



Você, querendo ou não, sempre vai estar ali. Na mensagem do telefone. Nas músicas. Nos quadros, na arte que eu faço o tempo inteiro. E no fundo eu sei que não quero me despedir de você porque, se eu fizer isso, vai ser como se eu estivesse me despedindo de um pedaço de mim. E eu, que nunca te entendi muito bem, te entendo completamente quando você diz que não foi embora por falta de amor. Eu te amo tão profundamente. Cada palavra que eu disse é a verdade mais pura que eu guardo dentro de mim e sempre vou ter o prazer de lembrar dela quando falarem de você. Mas até isso acontecer, eu vou ter que achar um meio termo entre te odiar completamente e não te deixar ir embora.

Talvez eu só precise de um tempo. A gente sabe o quanto esse ano vai ser difícil e que a gente já não se encaixa mais na vida um do outro. Por mais que a gente tente. Por mais que derrame cada vez mais sangue para dar continuidade pra algo que passou da hora de acabar. O problema é encarar isso como realidade. Enquanto a gente está em estado de choque, fazemos de tudo pra fingir que nada aconteceu. Mas aconteceu. E o que a gente faz agora?

Agora, eu vou fazer o que eu já venho fazendo há muito tempo. Deixo o tempo passar, vivo um dia após o outro e me aproveito do benefício da dúvida. Querendo ou não, pra mim, essa é a saída mais saudável, já que meu ascendente em libra esqueceu a certeza no churrasco. E talvez seja a incerteza que me mantenha respirando. É assim que eu tenho sobrevivido e não tem nada de errado em estar errada. Ou em, simplesmente, não estar. Não estar de fato, não estar nada. Não ser. Ou, quem sabe, ser pedra.

Eu não quero resolver nada. Não quero dizer adeus, não quero que você fique, mas também não estou te pedindo para tomar qualquer providência. Desculpe se isso tudo te pareça apenas mais do mesmo, mas pra mim, ser pedra é tão dolorido quanto ser arte. Ou rio. Ou qualquer coisa figurativa que você consiga pensar agora. E, assim como você disse, eu tenho, de fato, um plano de me instalar em cada lugar que eu passo. Deixo um pedaço de mim em cada matéria prima que eu toco. Deve ser por isso que você ainda tem essa cor dourada quando sai ao Sol. E brilha, e reluz e permeia uma energia que, convenhamos, é linda do mesmo jeito.

Eu poderia ficar aqui, durante horas a fio, te escrevendo sobre isso de escolher não ter certeza, mas acho que a tese principal você já entendeu. E se não entendeu, eu deixo aberto para a interpretação que lhe convier, independente do fato de que você é gelo, e eu sou fogo. Oh não, espere. Eu sou pedra. E sendo pedra eu vou terminar esse ano da maneira mais digna possível e, apenas quando eu colocar o meu último ponto final naquela ilegítima folha de papel, eu vou poder desabar no alívio de, que merda, sentir a sua falta.

Leia ouvindo: Too Late To Say Goodbye - Cage The Elephant

Amor

Clarice

14:02


Não consegui dormir essa noite, fiquei pensando em você. Sempre que seu nome passava pela minha mente eu sorria, inevitavelmente, e fechava os olhos, rezando para que aquela sensação nunca fosse embora. Eu decorei o formato dos seus olhos, não a cor, mas o exato diâmetro das suas córneas. Decorei os rabiscos da sua boca que completam os desenhos mau feitos dos meus lábios. Decorei cada cacho do seu cabelo que cai, gentilmente, pelos seus ombros sempre que você sorri - isso quando você não coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha e olha pra baixo fingindo que está tímida. 

Durante a noite eu fiquei passeando pelos seus detalhes, tipo aquela vez que nos encontramos em sonho e o seu corpo pareceu pertencer ao meu. Quando nosso coração começou a bater no ritmo da música que dominava o quarto. Quando eu fiquei passando a ponta dos meus dedos sobre seu corpo nu enquanto você lia aquele livro que eu nunca entendi muito bem sobre o que é. Você tem sido mais do que um passatempo, a verdade é essa. 

Você tem sido mais do que prometemos que seríamos. Você faz mais parte da minha vida do que eu mesma serei parte da minha própria. Você já sabe onde eu guardo os meu CDs, não pede mais para pegar roupa emprestada e já cativou meu sorriso sempre que eu te assisto passar um rímel. Eu escrevo sobre você como se eu tivesse pintando um quadro. Você tem suas cores, seus traços e existem palavras específicas para te definir. Como, enigmática. Dissumulada. Entranhosa - aquela que penetra as entranhas. Eu só sei que meus sonhos têm sido mais felizes desde que você chegou e eu não quero te deixar ir embora tão cedo. 


Quero dizer, claramente você é filha do mundo e eu sou simplesmente uma parada nessa viagem da sua vida. Mas como todo barco que abandona o cais, eu vou sentir sua falta quando olhar pra dentro do guarda roupa e não ver mais suas camisetas de banda que só você gosta. Sabemos que nós duas temos questões para resolver e que um amor de outono é tão líquido quando a água do rio em que demos nosso primeiro beijo. Você lembra? 

De qualquer maneira, você é eterna. Nossa história é eterna. E será eterna até o dia em que sua marca de batom sair da minha blusa branca - que você manchou enquanto tentou tira-la. Não gosto de dar nomes aos bois, mas o que temos é especial pra mim. Sempre vou te guardar como aquele poema que escrevi enquanto ouvia Radiohead na cozinha e você tomava banho. Você é mais do que eles dizem que você é. E eu sei disso. Sempre soube, desde o dia em que você me entregou aquele papel que continha o primeiro capítulo da aventura mais divertida da minha vida. Tem sido incrível compartilhar meu mundo com você e espero que você fique enquanto puder. Mas quando for embora, será um prazer te receber de volta.

Leia ouvindo: Marceline - Ana Muller

"Amor"

Sorte

07:56



Eu estava lavando louça, ouvindo música, quando o shuffle tocou aquela. Aquela que eu sabia que faria parte da trilha sonora da minha vida. Aquela que traduz tão bem tudo que eu estou sentindo, mesmo eu não sabendo bem o que é. Mas eu só sei que foi essa música que fez eu conseguir exemplificar os nós que estão na minha garganta e que nem as palavras que eu inventei sozinha conseguem externar isso.

Já passou da hora de eu repetir pra mim mesma as mesmas palavras que você usou para se despedir. Acabou. Eu não faço mais parte da sua vida. E enfim, o nosso fim chegou. Enfim, o nó desamarrou. E a gente poderá ser mais feliz. E, ao mesmo tempo que eu tento tão fortemente te esquecer, eu quero estampar seu rosto nas paredes da minha memória para não deixar passar em branco toda a nossa história. Tenho oscilado muito entre as extremidades de te apagar e sentir sua falta. O meio termo ainda é utópico. O meio termo ainda é como se você nunca tivesse entrado. Por que raios eu fui abrir meu coração pra você? 

No meio do caminho eu até acreditei que a gente era de verdade. Eu conseguia te tocar, conseguia te sentir, você aqueceu a parte mais fria do meu peito. Mas nessas últimas semanas, as pessoas tem deixado suas máscaras caírem e isso me ajudou a perceber que a gente nunca conhece ninguém por completo. Eu pensei que te conhecia quando analisei cada detalhe do teu corpo e me encontrei nas suas estrias, nas suas falhas no cabelo, na profundeza do seu olhar. Me encontrei até mesmo na sua paixão estranha por futebol e cerveja e achei que isso bastava para acreditar que o amor estava bem diante dos meus olhos. Oh céus, como eu queria estar errada nesse momento.

Eu já sou crescida o bastante para aprender que reciprocidade não é o suficiente para manter um relacionamento. Entendo que não foi por falta de amor que você foi embora. Mas o que eu não entendo é porque você repete tanto que quer me esquecer, mas continua grafando no vento que amor ainda é inerente entre a gente. Eu nem sei mais o que amor significa. Não sei se eu te amo, não sei se um dia amei porque eu realmente não entendo nada. Onde você estava quando dizia que tudo ia passar? Onde você estava quando me fazia cafuné e pedia mais um tempo pra tudo se ajeitar? E, de repente, todo nosso esforço não foi o bastante porque você não dava conta. Desculpa, mas eu não entendo.


Me arrependo tanto em ter associado a sua imagem á essa palavra que, agora, até as músicas tem seu nome. Meu outro ex tem seu nome. Tudo tem seu nome. Como é que você pode estar tão longe e ainda assim se fazer tão presente numa vida que não é mais nossa? Eu sinto tanta raiva e ao mesmo tempo tanta saudade que, se misturar as duas coisas, dá um sentimento que também vai ter seu nome. A minha cidade tem seu nome. A sua cidade tem seu nome. Tudo o que eu queria é não ter deixado você crescer tanto assim dentro de mim. É não ter acreditado em você quando você disse que a gente era infinito. É não ter confiado na sua paz quando, na verdade, havia uma guerra fria dentro de você.

Eu tento não me culpar. Diariamente, eu repito pra mim mesma que eu te amei o bastante pra você saber disso. Mas quando eu pego todos os desenhos que fiz da arquitetura do nosso futuro, é impossível não pensar num lugar onde nada disso aconteceu. Onde foi que eu errei? Na realidade, eu nem me faço essa pergunta mais porque meus erros são muito claros. "Como eu pude ser tão burra? Nunca vou ser o suficiente pra ninguém. Todo mundo sempre vai embora". Chega. Hoje não. Eu sei que tô aqui por mim.

Da mesma maneira que você não faz ideia de como eu estou, eu vou fragmentar você em todas as partes que eu construí pra te fazer inteiro. É dolorido demais te manter nessa estática infinita que nunca tem uma resposta, que sempre espera dois ou mais meses para começar a arrumar a bagunça, como se o tempo fosse te esperar resolver sua vida. Eu não te julgo e respeito cada passo que você dá pois sei que você tem plena noção do que está fazendo - mesmo estando confuso e cheio de demônios etc e tal. A única finalidade desse texto é, na verdade, externar e eternizar a minha saída do seu peito. Da sua cama, da sua sala, do Terminal Rodoviário do Tietê.  

Da próxima vez que eu voltar, será pra ficar. Mas não com você. Não dessa vez. 

Leia ouvindo: Sorte - Ana Muller 

Arte

Manifesto

08:47



Durante um tempo eu tentei entender qual é a minha relação com a arte. Afinal, a arte nunca chegou até mim ou se convidou para fazer parte da minha vida. Ela sempre esteve ali, se manifestando nos momentos mais cruciais. Por mais que ela só tenha começado a ser denominada "arte" quando eu conheci o sentido teórico da palavra, ou seja, deixei de lado a minha visão pessoal sobre o assunto, hoje eu tento organizar os padrões não pela ciência, mas sim, pela arte. Quantas vezes eu disse a palavra arte só nesse parágrafo? Preciso criar um sinônimo pra ela.

A gente tem a mania de enxergar a arte como uma coisa tão longínqua que desistimos de tentar entender. Muitas técnicas, muito conceito, muito tudo. Tanto exagero num quadro só, quantos significados num poema de dois versos. Eu entendo essa confusão, não julgo. Foi justamente essa despercepção - uma coisa que eu gosto muito na arte é o neologismo - que fez com que eu pensasse em desistir. Mas afinal, do que serei eu senão artista? Na realidade, eu queria ser arte. Não artista. Arte. Talvez, o simplesmente fato de cobiçar que eu seja arte já me torne arte. Se os dadaístas disseram que arte é o que está num museu, o que me impede de dizer que arte é o que anda, o que respira, o que come, o que fala? O que sente. A arte não é a representação da atividade humana? E do que é feito o ser humano além de sentimentos? Matéria orgânica, ligações de carbono e hidrogênio e sei lá o que? Vocês realmente acreditam que nós somos um monte de reações químicas?

A arte é minha amiga. Pedi ela em casamento uma vez, mas entendi que ela é autônoma demais e dona de si o suficiente para não se prender à uma pessoa só. Gosta das cores, dos sabores, de respirar ares interpessoais. Entendi-a e deixei-a ir embora como quem sai pra comprar cigarro e nunca mais volta. Mas a arte é assim mesmo. Ela precisa querer fazer parte de você e você precisa estar adepto para recebe-la. Interpretar a arte dentro da gente é a parte mais difícil no processo de ser artista. Sabe quando você sente que tem algo preso na garganta, mas não sabe exatamente o que é? Essa vontade de gritar, de falar, de segurar o choro. É isso. Isso é a arte se manifestando.


Óbvio, ninguém nasce com o privilégio de ser artista, dom não é uma questão divina. Mas se formos personificar a arte, o universo entraria em colapso. É impossível materializar o tudo e o nada. O visível e o invisível. O abstrato e o concreto. Sei que nem tudo o que eu falo faz sentido, mas meu manifesto não precisa ser realista. Sua interpretação não altera a obra. O que eu tô querendo dizer é que, nós, meros mortais, não estamos prontos para uma coisa que não entendemos. E, quando vemos um tanto de bolha colorida num quadro e achamos aquilo loucura, é porque, de fato é. A arte é o caminho mais próximo para a plenitude por um simples motivo: ela treina sua paciência. Fica mais fácil de entender com o tempo, mas quando você finalmente entende... Oh. Ela vai embora.

Sempre evitei me denominar artista porque acreditava que isso me dava um mérito que não era meu. Ora, eu não sou escritora, eu apenas escrevo. Eu não sou pintora, apenas arranho a aquarela no papel canson. Talvez a herança da arte seja a dúvida. Talvez a confusão seja consequência da beleza de conseguir traduzir o mundo na sua maneira mais natural e subjetiva. Quem quiser, que seja. Sou apenas uma receptora que tenta sensibilizar o que há de mais duro nas cidades. A minha arte é urbana, nem um pouco arcadista, talvez um pouco romantista mas que nega completamente o modernismo porque, ora, as vanguardas não copiavam ninguém, certo? Errado. Vai entender o que esse povo queria dizer com todos aqueles três dias que, num universo paralelo, durou uma semana inteira de carnaval.

"Conheça as regras como um profissional para quebra-las como um artista." - Pablo Picasso


Leia ouvindo: Whistle (While You Work It) - Katy Tiz

"Amor"

Há um ano

09:20



Ei. Hoje a gente faria um ano. Tentei me convencer e repetir pra mim mesma que eu não tenho nada pra te falar. Que eu tô bem. Que eu vou ficar bem. E, de fato, tudo o que eu falar aqui já foi dito em algum poema ou algum texto que eu te escrevi nos últimos dias. Sinceramente, não quero que você os leia. Não quero que você pense em mim como eu estou pensando em você. Na verdade eu quero, mas não dessa forma. Não dessa forma distorcida e suja que acabou manchando todo o nosso resto de história - que você faz certo em tentar apagar. Mas eu não consigo esquecer apenas um pedaço seu. Eu fico esperando, o dia inteiro, receber uma mensagem sua que diga qualquer coisa. Fico imaginando o que eu estarei fazendo no momento em que você voltar. Se você vai voltar. Fico idealizando o nosso futuro daqui pra frente e todas as outras coisas que eu preciso organizar antes de pensar em "nós", propriamente dito.

Eu ainda não consegui escrever uma história na qual você não faça parte e estou meio receosa em fazer isso mas, afinal, essa é apenas a segunda semana. E, não sei se é mérito meu ou apenas consequência do tempo, mas eu estou relativamente excelente para quem terminou um namoro de 1 ano há uma semana. Já consigo beijar outras pessoas, consigo não pensar em você durante vários momentos do dia, consigo falar seu nome sem chorar e até brinco com minhas amigas, chamando-as de "tchuchu". A vida segue e tem seguido muito bem por aqui. Algumas vezes as lembranças chegam, balançam o que estava instável e deixa ali, plantado, um certo medo. Medo esse que, eu descobri, é 100% inútil. Tão inútil que eu escolho não dar a ele o poder de me bagunçar. Não tenho controle do futuro, entende?. Independente do medo que eu sentir, as coisas vão acontecer, mesmo que eu não queira. Do jeitinho que eu não quero. Então, pra que sentir medo? Controlar as emoções tem sido algo crucial que eu aprendi bastante nesses dias. Além de conseguir dar um "basta" em tudo que não me deixava ser feliz, finalmente conversei com meu coração e disse a ele que é tudo uma questão de virar a chave. Viu?

Um texto sobre você sempre acaba virando um texto sobre mim. Talvez eu queira te convencer de que eu já estou pronta pra você voltar. Talvez eu só queira ter certeza  de que você ainda se importa comigo. É inevitável me perguntar se você ainda pensa em mim, mesmo eu sabendo que sim. Mesmo sabendo que você ouve meu sotaque todos os dias e que isso te quebra. Mesmo sabendo que distância não significa falta de amor - e a gente bem sabe disso. É muito coisa que eu preciso entender e enfrentar e, a única coisa que eu sei, é que eu não sei de nada. Vivi a vida em busca de sinais porque sempre me pareceu assustador demais não saber o futuro. Sempre li a ultima pagina dos livros - aí está um fato que você não sabia sobre mim. Sempre pedi pra contarem a continuação de tal filme para que eu não ficasse aflita durante a cena de luta. Mas com quem eu converso pra me contar o que será de nós daqui 2 meses? Qual livro eu devo ler pra saber o final dessa historia?

Desde que tu foi embora as coisas ficaram um pouco mais claras na minha vida. A bagunça se instalou, mas agora eu sei o que arrumar. Por onde começar. Minha relação com o futuro, com Deus e com tudo que é abstrato sempre foi muito complicada - talvez, nem a minha relação com a arte seja de toda tão harmoniosa. Não consigo confiar nas incertezas. Minha desconfiança sempre partiu de dentro e eu acabei colocando tudo isso em você. Só não te peço desculpas porque a culpa não é minha. Eu fiz o que eu dei conta, sempre fiz o que estava a meu alcance. Mas eu te agradeço imensamente por ter sido a menor distância entre mim e eu mesma. Eu ainda trabalho profundamente para diluir os sinais no meu cotidiano - ou tudo o que parece um sinal - já que a vida é uma montanha-russa sem cinto de segurança (não sei se isso fez sentido). Afirmar qualquer coisa antes da hora é chegar no final sem, ao menos, ter linha de chegada.


Vivendo um dia após o outro eu vou absorvendo essa dorzinha de dente chata que aparece durante a manhã mas que eu escolho deixar ir embora. Como eu disse, eu só quero que o tempo passe. Essa semana nunca demorou tanto pra passar e eu tenho certeza que passou voando pra você. Você é assim: tão calmo e tranquilo, que corre para pegar o ônibus, sem medo de perde-lo. Eu sei, eu tô começando a entender isso. Aprendi em outros relacionamentos que a melhor maneira de conhecer outra pessoa é ficando longe dela - é mais fácil a teoria do que a prática. E então, de todos os finais alternativos que existem entre nós dois, eu sei que nenhum deles depende de mim. Ou de você. Ou de qualquer memória que faça o jogo virar aos 45 do segundo tempo - o que inclui uma cama de solteiro, um dia de chuva e qualquer hamburgueria da cidade de São Paulo. Mas sim, de uma certeza muito maior que chama-se: vida. Independente do final, eu sei que as coisas vão dar certo e isso tranquiliza muito meu coração leviano e levíssimo. Não sei onde você está, mas espero que tudo o que eu estou sentindo agora chegue até você, de alguma forma. Toda essa força, essa saudade e essa vontade de ir em busca do amor próprio, doa a quem doer. Descobri muito sobre mim. Descobri muito sobre a vida. E quero continuar assim, com ou sem você.

De qualquer maneira, feliz aniversário. Feliz aniversário à nossa tentativa, à nossa luta, ao nosso amor - que é infinito e foi infinito enquanto durou. Espero de coração te reencontrar algum dia na floresta de concreto e aço que eu poderei chamar de "casa" daqui alguns meses. Meu orgulho odeia admitir mas eu sinto a sua falta todos os dias, em todos os olhos azuis que cruzam meu caminho. Esse texto não é sobre sentimentos, mas sobre o "crescer individualmente" que a gente sempre disse e sabia que ia chegar. Mas saiba que para você, minha porta esta sempre aberta, seja para se hospedar, seja apenas para tomar um café. Pode voltar quando quiser, será uma prazer te receber (eu realmente gostei muito de usar essa metáfora da casa).

Te amei infinitamente. Te amei mais do que eu já fui capaz de amar outra pessoa e ainda tenho muito amor guardado aqui pra quando você quiser receber. Só quero terminar dizendo que vida não é tão ruim quanto parece e desejo muito que você aprenda isso da mesma forma que eu aprendi. Por mais que, a priori, a confusão esteja instalada na sua mente e no seu coração, tome seu tempo. Nenhuma borboleta nasce pronta pra voar e eu tenho certeza que seu futuro é o mais próximo possível do céu.

Ainda tenho tantas coisas para escrever sobre tudo isso... Mas como você nunca vai ler esse texto, eu vou só empurrando as palavras pro canto da cama. Empurrando as memórias pra debaixo do tapete. Empurrando a esperança pra dentro da gaveta. Até o dia em que eu acordar e as coisas estiverem ajeitadas, tudo do jeitinho que tem que ser. Abro a cortina, vejo que o dia está cinza e volto para cama. O que acontece a partir daí, é cena de um capítulo que eu ainda não escrevi.

Eu não sei de nada. E sinceramente, eu não quero saber.

Leia ouvindo: Honest - The Neighbourhood

"Amor"

Eu quero que o tempo passe

08:40


Eu só quero deixar o tempo passar. Quero que entre o outono, quero que as provas acabem, quero minha inscrição pro vestibular. Quero crescer, quero rir, chorar, sair, beijar. Esquecer. Será que eu quero, de fato, esquecer? Depois de tanta dor e decepção, criei aquela casca que todo mundo cria aos 17, 18 anos. Aquela que te faz pensar que todo mundo é suspeito. Mas eu nunca fui de me esconder atrás de cascas. Sempre tive esperanças que me fizeram ir até o fim por algo que eu queria muito, mesmo que não tenha valido tanta a pena depois. Ralei os joelhos, quebrei a cara, rasguei meu short. Mas agora é diferente. Agora não depende só da minha esperança e perseverança. Depende de um coração alheio que também quer assistir o tempo passar, mas que precisa fazer isso longe de mim. Não sei. Só quero que o tempo passe. 

Quero voltar a sentir fome, quero voltar a beber, quero voltar a ter amigas. Quero deixar de ter o reflexo de mexer na aliança - que não esta mais entre meus dedos - e de bate-la no metal para causar algum barulho que preenche aquele silêncio que, antes, era ensurdecedor. Essas manias chatas que as pessoas deixam em nossas vidas e vão embora. Essas palavras novas que a gente inventa pra alguém e desaprende logo em seguida. 




Ai ai... Só sei suspirar e respirando eu vou acalmando todo esse oceano que, ocasionalmente, descobri que sou. O ar que entra é amarelo. O ar que sai é azul. Nem todo mundo que arruma a casa espera visita - eu, por exemplo, me aguardo chegar em casa todos os dias. Quero deixar tudo pronto. Cama arrumada, roupa lavada, pia limpa... Mas tudo isso porque quero gostar de onde eu moro. Quero gostar de mim. Quero gostar das paredes arranhadas de poemas que nunca se terminaram. Quero gostar das manchas que as gotas de café deixaram no tapete. Quero gostar do vazio. Sim, quero gostar do vazio. Porque quando você gosta do vazio, você está preenchido de amor próprio.

E com o tempo passando, o relógio tic-tac-eando eu vou percebendo que, de hora em hora, eu não sou mais quem eu era uma hora atrás. Estou mais forte, mais bonita, com cabelos mais cacheados e volumosos e, agora, ate consigo me olhar no espelho sem fechar os olhos. Olhos esses que ja viram tanta coisa. Olhos esses que são inesquecíveis na vida de tantas pessoas. Olhos esses que são a porta de entrada pro meu universo particular tão denso e colorido. E eu quero que o tempo passe não só pra tirar a incerteza do peito - deixo a porta aberta? E se mais alguém entrar? E se o vento bater? -, mas também, para que eu possa me rodear de certezas sobre mim mesma. Sobre minha força, minha beleza, minha clareza, minha verossimilhança estrondosa com o mundo. 

O tempo que passe! Tire as folhas dos galhos, pingue as chuvas no asfalto, crie espinhas no meu rosto. O tempo trabalha tão duro... e de graça! Primeiro comunista da história chama-se: tempo. E ó, quanta ironia os que dizem que tempo é dinheiro. Nunca paguei pela cura da minha alma. O tempo faz isso por solidariedade. Quer dizer, é uma troca: eu lhe dou confiança e ele me devolve paz.

Leia ouvindo: About You - San Cisco 

"Amor"

Quando acaba

13:19




A gente nunca está pronto pro fim. Na verdade, a gente nunca acha que o fim vai, de fato, chegar. É como uma bala perdida que encontra o peito e rasga, rasga tudo. Todas os tecidos, todas as veias. Não gosto de me passar por escritora romancista que odeia a vida e escreve tanto sobre a bile negra que esquece de escrever sobre a divindade da mudança. Eu aprendi muito bem a lidar com o fim. Tive que obter forças que eu não tinha para sobreviver e, quando eu percebi, eu nasci de novo. De repente, o silêncio me parece pertinente. Tão bem adequado que nem a melhor música do Bon Iver parece melhor. Eu, que nunca gostei de quietude, agora, tudo o que eu mais quero é a estática. Imobilidade, só ouvindo o som do meu suspiro. Ai, ai... 

Fico meio sem reação, mas no fim, acaba. No fundo eu sabia, entende? Mentia pra mim mesma, fazia promessas pro universo e achava que estava tudo bem. Era só questão de tempo até o relógio apitar e a assadura fazer cicatriz. Não sarou, na verdade, mas eu fingi que sim. Eu tentei tanto, eu sacrifiquei tanta coisa, subi muros eternos. Não foi o bastante. Aprenda, Bárbara, nós não nascemos pra ser o bastante pra ninguém. "Deveria ter tentado mais dessa vez. Deveria ter ficado calada nesse dia. Se eu tivesse dormindo, nada disso teria acontecido". Não.  Merda. Nem sei escrever mais sobre o que eu mais sinto- dor. No fim a gente percebe que a dor só serve pra te fazer lembrar que você ja sentiu dor pior. 

Cada lágrima que derrama faz sentido quando você para e pensa que tem apenas 18 anos. 17 anos. Quando acaba, você não pode fazer nada além de dizer pra si mesmo que acabou. Não volta. É tudo mais um capítulo daquele livro que fez você passar raiva, mas que fez toda a diferença pro livro fazer sentido. Dói pensar que vou ter que aprender a dormir sozinha de novo. Dói lembrar que nunca mais vou sentir aquele frio na barriga pra pegar um ônibus. Dói olhar pros dedos e ver o branco pálido da minha pele. Dói agora, mas sei que amanhã não vai doer mais. O mundo está cheio de palavras novas e eu estou ansiosa para descobrir o que o futuro preparou pra mim a partir de agora. Dói pensar que poderíamos ter sido muito mais bonitos quanto fomos na teoria, mas o que importa? Acabou. E quando acaba, não há nada mais justo do que respirar o fim e conversar com ele. Dói a voz, dói o cheiro das camisas, dói as marcas na parede. Tudo dói. Eu meio que também não sei bem o que fazer já que pensei nunca mais precisar passar por isso. 



Talvez agora volte toda aquele lereia de conversar com Deus, procurar sinais em placas, colocar máscaras e mais máscaras. Mas pode ser que não. Pode ser que eu cresça muito mais do que cresci em um ano. Pode ser que eu me reencontre no meio disso tudo que eu criei dentro de mim. Esse país das maravilhas que só existe na minha cabeça. Pode ser que nós dois nos reencontremos muito mais maduros, muitos mais prontos do que agora. Com o coração mais aberto, com a cabeça mais crescida. Mas tambem, pode ser que não. 

Talvez eu deva, de fato, ir embora e abrir essas portas que eu fechei. Eu fechei pra mim mesma por acreditar não saber como abrir sozinha. E por mais que eu não goste muito de despedidas, eu acabei por ter que aprender a dizer adeus da pior forma possível - não dizendo. Mas eu vou ficar bem. Hoje é só o primeiro dia do resto da minha vida. Como diria Drummond, Bandeira, Andrade ou qualquer outro poeta modernista da época que eu não me lembro agora: foi infinito enquanto durou. Mas, infelizmente, alguns infinitos são maiores que os outros.

Leia ouvindo: Indestrutível - Pabllo Vittar