cabeça bagunçada

Minha casa

07:06




Leia ouvindo: Baleia - Casa

Alguma parte de mim, mesmo que bem instintiva, gosta de quem eu sou. Depois de muito tentar apaziguar a briga interna entre o sol em câncer e o vênus em leão que interfere diariamente na minha vida, eu decidi sempre me olhar no espelho e abrir as minhas próprias portas. Todo dia eu descubro uma coisa diferente, uma rachadura, uma mancha, uma goteira. Esses dias eu percebi que tenho duas pintas perfeitamente simétricas, uma em cada lado do meu rosto. Acabei aprendendo que não preciso gostar de cada espaçamento do meu corpo - inclusive, acho realmente estranho que meus seios se separam por, literalmente, um palmo de distância. Mas amo o fato de que todos esses defeitos são meus e só meus. A união de todos eles, a fórmula química que me transforma na única pessoa existente no mundo que possui exatamente essa sequência de predicados.

A luta meu pelo auto-conhecimento não começou quando eu descobri o feminismo, por exemplo - começou bem antes. Começou quando eu, com dois dias de vida, tive que lutar para continuar viva e mudar o mundo. Eu me prometi - sim, eu lembro disso - que, se eu vivesse, eu iria fazer o mundo valer a pena. E hoje eu valido cada conquista que eu fiz nesses anos que parecem séculos pra mim - será que, a medida que a gente cresce, o tempo passa mais rápido? Estranhamente, sim. Aqueles dois dias entre a vida e morte duraram mais que esses 18 anos que eu carrego nas costas e esses 18 anos que eu carrego nas costas são eternidades quando comparados à meu futuro idoso e tedioso que eu espero ter assim que eu falar: "Pronto, eu fiz o que eu podia para tornar o mundo habitável".

Nisso, entre uma risada e outra, uma perna bamba e choro livre, entendi que eu sou minha própria casa - provavelmente, daqui alguns anos, quando minha literatura tornar-se didática, alguém vai fazer uma apresentação de slides sobre mim e colocar nas características gerais que eu só falo clichês óbvios, mas importantes. Eu cuido de mim, varro sempre depois do almoço, lavo a varanda, decoro as paredes e me deixo extremamente confortável para eu possa descansar em mim mesma sempre que o mundo lá fora fica pesado demais. No fim de tudo, eu me tenho. E isso basta de uma maneira absurda e inexplicável.



Ás vezes eu recebo visitas que me desarrumam. Tiram os móveis do lugar, inundam o banheiro, deixa tudo fedendo e cheirando a desgosto - já escrevi sobre isso algumas vezes, e tudo bem quando isso acontece. Mas na maioria das vezes, recebo visitas incríveis que sempre trazem um vasinho de planta que eu deixo pegando Sol na janela da cozinha. Eu amo o fato de que minha vida é um livro aberto e eu posso contar pra todo mundo que passa o que tá acontecendo aqui dentro, sem sentir que alguém vai me invadir a qualquer hora pois eu tenho as proteções necessárias para dizer: "Pera lá! Aqui não!".

No fim, eu amo cada pedaço do meu corpo e cada parte da minha personalidade que faz com que todas as pessoas que, por algum motivo, vão se referir a mim em uma conversa de bar, digam: "Você conhece a Bárbara? Aquela lá, a louca e estranha". Gosto da minha barriga que já absorveu tanta carne que cansou. Gosto do meu sangue que escorre palavras e dores, mas sabe a hora certa de estancar. Gosto dos meus olhos que se fecham a cada sorriso, para guardar bem guardadinho aquela memória que me fez rir. Gosto da nudez e da arte que é escrevível em cada centímetro quadrado do meu corpo. Gosto do jeito que eu flerto e transo e amo e me apaixono comigo mesma, a cada dia, de um jeito diferente e sempre falo: "Oi... você vem sempre aqui?".

Sei que ainda preciso aprender a cuidar um pouco melhor de mim - eu não sei comer direito e muito menos sei a hora de parar de beber -, mas sei que tudo isso é um livro inteiro que preciso escrever para aprender a lidar com essa casa que ainda falta umas partes para serem cobertas de gesso. Sou simples, mas cheia de significado subjetivo que precisa de um dicionário próprio para entender cada vírgula, cada filosofia mau-dita que, vira e mexe, saem da minha boca durante uma discussão. Odeio isso e aquilo, mas, num geral, eu consigo me reconhecer no espelho.



cabeça bagunçada

A Solitude

08:03



Leia ouvindo: Vermelho - Marcelo Camelo

De uns tempos pra cá, como é perceptível, eu venho tentado descobrir como lidar com uma saudade que precisa ser acumulada. Tento escrever, de vez em quando, mas nem tudo parece se resolver com palavras. Estou cada vez mais próxima de encerrar uma fase da minha vida e, ao mesmo tempo que fico feliz em pensar num recomeço, eu fico assustada. Um pouco apavorada, até. Sempre tive a sensação de que a vida é vazia e sem significado - sem querer parecer niilista ou algo do tipo, é só um sentimento frequente - e não têm sido diferente agora que tudo (tudo? quase tudo) mudou. Me parece mais uma luta constante, uma batalha sem fim. Pra quê? Pra nada. Entendo meu niilismo, na realidade, não me culpo.

Então, desde que eu fui obrigada a me restabelecer no mundo - esporadicamente a gente se balança e se acha de novo - tenho sido completamente intolerante às coisas. Sempre escrevi muito sobre a solidão e sobre como eu não a suporto. Parecia um peso, uma dor, um castigo da igreja católica por ser mais do que eles esperam de mim. Mas agora, agora que troquei a solidão por solitude, não suporto ficar perto tempo demais de pessoas que, antes, me faziam tão bem. Aparentemente me faziam bem. São poucas pessoas que eu ainda tolero, mas, mesmo assim, me sinto sufocada pela perda de espaço. Então é esse o amor próprio que as pessoas tanto me falavam sobre? Essa falta de paciência constante com a humanidade das pessoas?

Eu gosto de me relacionar com os seres humanos - apesar de não saber, sou tão inconstante quanto a física, a química (ciências, até então, exatas) - e sempre foi meu fascínio buscar a sociologia dentro de cada um. A psicologia. O espiritismo. Qualquer matéria não-material que me prove que, no fundo, o mundo ainda tem salvação. Mas por algum motivo, por mais que eu queira, por pura e extrema vontade, conhecer a profundidade de outros alguéns, agora, eu tenho pavor em pensar que esse meu espaço possa ser invadido e tomado - de novo, como já fizeram antes.


Talvez eu seja só um desses cachorros abandonados que, de tanto apanhar, saem correndo quando alguém levanta a mão. Depois que conheci a imensidão da minha alma e como ela é aconchegante sendo solita - esse adjetivo, infelizmente, não existe, mas de tanto pensar nessa palavra eu mesma acabei inventando graças à licença poética -, pelo menos por enquanto, quero agradar minha casa e me arrumar bonitinha para, adivinhe só, mim mesma. O silêncio nunca foi tão precioso para mim e para os meus pensamentos que não param um minuto se quer. Agora eu consigo ver as montanhas - montanhas não, serras - da minha cidade e pensar: elas sempre estiveram aqui? nunca as vi.

Tudo é mais simples do que parece: eu sempre repeti e repeti que preciso de um tempo mas eu mesma nunca me dei esse tempo, oh, tão necessário. E meu coração, gentil e carismático do jeito que ele é, me obrigou e tirar esse tempo e, por isso, agora, eu tenho preferido muito mais meus filmes e livros do que relacionar com pessoas que mais me parecem uma ameaça para minha paz. Obviamente, não vivo numa bolha que me possibilita fingir que nada está acontecendo e que não vou ter que viver em sociedade pelos próximos, se eu tiver sorte, 60 anos da minha vida. Essa bolha interna que eu mesma criei é o motivo pelo qual eu chego em casa exausta e dando graças às Deus todos os dias às 12h30min. Mas, paciência. Não acaba nunca.

É um processo de transição que explora os extremos para encontrar o equilíbrio. Minha terapeuta insiste em dizer que existem várias possibilidades entre um polo e outro, mas, para eu escolher onde quero ficar, preciso caminhar por toda essa linha imaginária que pode, no final, nem existir - olha só o meu niilismo novamente. Sinto saudades, sinto falta, mas depois de alguns minutos, sinto preguiça. Sinto um vazio profundo, como se eu estivesse sendo invadida. Então, logo em seguida, coloco os rabos entre as pernas, a cabeça entre os braços e finjo que minha cama é feita pra você também, fique à vontade, você não atrapalha. Sinto muito, mas você atrapalha sim. Me deixe em paz, por favor?

No fim das contas, eu gosto de mim mas não muito. Gosto de quem eu me tornei nesses últimos três meses: alguém quase independente, que se contenta com o simples e gosta de dar umas risadas às vezes. Mas não gosto dessa fase cíclica irritante que, ora eu gosto de estar sozinha, ora eu tenho pavor de ficar sozinha mas não chegue muito perto senão eu me quebro. Não que eu seja frágil, longe disso. Meu casco nunca foi tão duro. Acontece que, até que eu tome posse real dessa minha força que, aparentemente, nasceu comigo, preciso que fiquem longe. Sou uma obra de arte - sem flashes, não me toque. A arte se basta por si só.


Amor

Saudade

12:38


Leia ouvindo: Fora de Foco - Manu Gavassi 

Fiquei pensando, basicamente durante o domingo inteiro, se eu deveria escrever esse texto. Ás vezes, o coração fala mais alto do que eu consigo ouvir e preciso organizar as coisas. Coisas essas que eu nem sempre gosto. Essa crônica não é sobre o que devemos esquecer, sobre o recomeço que nunca vai chegar. Eu sinto falta de escrever sobre o jeito que, com você, eu sou sempre uma adolescente vivendo um sonho. Realizei minhas primeiras fantasias ao seu lado e não queria deixar esse sentimento bom se diluir no meio de tanta complicação que eu acabei encontrando no meio do caminho.

Eu espero, de coração, que você saiba o tamanho da falta que você faz. A semana inteira eu tive que segurar os dedos para não te mandar alguma mensagem falando sobre como eu estou aflita, ou extremamente feliz com algumas pequenas conquistas que têm me deixado transcendente. Você ainda faz parte da minha vida, por mais que eu tenha ido embora da sua. Em vários momentos eu me pego pensando em você e em algum momento que passamos e é, literalmente, um flashback horrível que me faz sentir como se eu pudesse te tocar por alguns míseros instantes. Eu encaro o horizonte, viajo por uns instantes e, no meu rosto, estampa um sorriso tão singelo, mas tão profundo, que, adivinhe? Tem seu nome.

Eu entendo que essa saudade toda vai passar, infelizmente. Mas queria registra-la enquanto ela está aqui, sendo coisa boa, marcando seu território com tudo de incrível que construiu nossa história. Acabei aprendendo a não encarar sua partida como uma coisa triste, mas sim, como só mais uma batalha que vai me transformar em alguém muito melhor de quem sou hoje. Você teve seu momento para me transformar e foi ótimo aprender tudo o que você tinha pra me ensinar. Mas, de alguma forma, eu preciso aprender alguma coisa com essa falta que você faz. Cansei de deixar você me completar - sinceramente, tenho tido pavor de passar tempo demais com as pessoas -, e agora quero só caminhar do seu lado. Ou, pelo menos, te assistir caminhar em busca dos seus sonhos enquanto eu faço o mesmo.

É impossível citar todas as coisas que me fazem falta. Em alguns momentos cruciais do meu dia, você aparece e marca presença no meu peito. Uma parte de mim deseja profundamente viver tudo de novo, mas, outra parte sabe que isso não pode acontecer porque, se acontecer, vai atropelar um tanto de outras histórias que a gente ainda tem pra viver. Nunca pensei que eu ia conseguir amar tanto uma pessoa que não pode, que não consegue ficar comigo. Mas eu amo. E não só te amo como também amo tudo o que a gente passou junto. Ficar do seu lado foi, sem dúvidas, a melhor coisa que já me aconteceu na vida. E de forma alguma - acabei demorando um pouco pra aceitar isso - eu conseguiria sentir outra coisa senão gratidão por você.


Dói. A gente sabe que dói. Fico querendo conversar com você o tempo inteiro e dividir a cama de novo, mas não posso. Essa coisa toda de desfazer laços é muito mais difícil do que eu achei que seria - estou chorando depois de meses sem conseguir derramar uma lágrima sequer. Mas eu entendo que é algo que precisa acontecer se a gente quiser continuar, de certa forma, sim, juntos. O que esse "juntos" vai significar daqui um tempo, eu não sei, não depende de nós. No fim, "nós" nunca dependeu de nós.

De qualquer maneira, esse texto foi apenas uma tentativa de te avisar que eu ainda estou aqui, sentindo sua falta diariamente - por enquanto. Digo por enquanto porque eu quero muito ter a chance de te reconquistar, com uma nova versão minha. Mais feliz, mais saudável, pronta para levar a vida a sério e não cair sempre que tropicar. Quero poder trocar olhares, sorrisos e viver todo esse sonho adolescente de novo. Ainda não sei como fazer isso e, sinceramente, não quero saber. O que sei é que estou extremamente feliz com meu presente e apenas alguns fatores do futuro me preocupam, e
você não é um deles.

Eu sou uma pessoa muito diferente. Bem diferente do que eu achei que um dia seria. Mas, no fundo, eu sou extremamente apaixonada por quem eu me tornei - mesmo que eu não saiba exatamente "quem" eu sou. Daqui uns meses, uns anos, não sei, quem sabe, esse cenário tão utópico não vire realidade de novo. Você mesmo disse que São Paulo é minúscula para duas pessoas se trombarem durante a semana. Sempre vou estar te procurando, te pesquisando, pensando em você. Torcendo para que, um dia, meus pensamentos te atraiam e a gente possa, finalmente, ir naquele restaurante que ficamos um ano inteiro enrolando pra ir.

Não vou encerrar o texto e começar o parágrafo dizendo que eu te amo por dois motivos: eu não preciso repetir isso porque você sabe e acho que lembrar de um amor que não é concreto pode ser só mais torturante para nós dois. A única coisa que eu queria dizer é que estou morrendo de saudade e esperando ansiosamente o dia que você for voltar - ou for embora de vez. Eu sempre vou estar aqui, sendo a mesma que você deixou, mas, ao mesmo tempo, alguém completamente diferente.


"Amor"

Sinto muito, mas não sinto nada

08:34



Leia ouvindo: Hiding Tonight - Alex Turner

Eu acho que escritor, de um modo geral, tem a mania de adiar o fim. Não sei exatamente o porquê, mas se despedir de uma história e matar para sempre as personagens - me incomoda muito esse artigo - é sempre dolorido e mancha o peito com todo um futuro que poderia ter sido, mas não foi. Por isso não culpo J.K Rolling pelas infinitas continuações de Harry Potter. Para mim, ela é exatamente o que todo escritor quer ser: eterno. Não em si, como pessoa ou como autor, mas sim, como criador. Como uma mãe que dá a luz á um filho e que, porra, é difícil pra caralho se despedir de um filho. (Não se engane, eu detesto Harry Potter).

Usando essas analogias, eu até que consigo me perdoar por ter demorado tanto tempo para te deixar ir embora. De certa maneira, você foi essa personagem que eu sempre escrevi e descrevi nos livros e contos que nunca apareceu. E então, apareceu. E o que eu faço agora? Talvez seja por esse motivo que você tenha nunca existido pra mim. Sua companhia sempre foi um sonho, um devaneio, não sei. Você nunca me pareceu real e, hoje, quando olho suas fotos, você me parece apenas um livro que eu li e gostei, mas tive que deixar de lado. Me dói muito escrever essas palavras porque não é fácil pra mim expressar que uma das pessoas que eu mais amei, na realidade, só existiu nas histórias que eu escrevi. Quero muito descobrir onde você estava esse tempo todo que me trazia a sensação de que você nunca estava por perto. E, quando estava, era tudo uma distração que, cedo ou tarde, ia acabar mesmo. Você sempre pareceu bom demais para ser verdade.

E acabou. E, sinceramente, eu fico feliz que tenha acabado. A culpa por admitir que você é só uma personagem é gigante, mas eu não consigo te definir de uma maneira melhor. A verdade é essa, você nunca existiu. Você sempre foi um trailer, uma sinopse, eu não sei. Mas eu sei que você nunca foi real.  E justamente por esse motivo, o tempo costumava passar mais rápido do que o normal quando a gente estava se colidindo, se pertencendo e tendo todos esses sentimentos cósmicos que, sim, foram reais. Eu só não sabia exatamente por quem eu estava sentindo aquilo tudo - não se confunda com outra pessoa, eu sou alheia demais para amar dois alguéns ao mesmo tempo. O que eu quero dizer é que, no fundo, eu amei alguém que, talvez, eu não conheça. Você conhece?



Eu odeio a solidão, mas preciso aceitar ela como parte de mim. Preciso reconhecer que todo mundo precisa um pouco de si e, meu deus, eu preciso desesperadamente de mim mesma. Me parte o coração te enxergar como um simples fator que contribuiu para a continuidade da minha história, mas eu não posso deixar isso prolongar mais do que o necessário. Deixei de acreditar em destino aos 16, quando você apareceu, porque eu aprendi que nada acontece só porque tem que acontecer. A gente se mereceu e se nutriu desse merecimento por muito tempo. Continuo não acreditando em destino, e justamente por esse motivo, eu digo: eu me mereço. E me merecendo eu te digo adeus, por um tempo infinito e indeterminado porque, esse livro, precisa ser escrito sem você.

E quando eu acho que não consigo sentir mais nada, que meu coração virou um puro lago de mágoas e feitiços, eu acabo descobrindo que sou a mesma de quando eu tinha 15 anos e escrevi, então, minha primeira obra. Minha primeira arte. Sobre a primeira pessoa que me fez descobrir que todos são, na verdade, meros personagens - por mais que eu só tenha percebido isso bem posteriormente. E você, meu bem, foi tão especial para fazer minha história ter sentido. Foi um catalisador fundamental nas minhas reações. Mas do mesmo jeito que você entrou, você terá que ir embora do jeitinho que eu não consegui fazer com ninguém até agora. E se quiser voltar, volte quando eu estiver branca, completa e sorridente, quando eu não for mais apenas fragmentos do meu passado que me impedem de escrever algo diferente.

Talvez você não seja igual aos outros justamente porque eu consegui deixar você partir e não deixei essa infantilidade de escolher não lidar com o fim me consumir. E é por isso que meus livros não têm fim. Por isso que meus poemas não têm pontuação. Por isso que, no final, eu não consigo ser amiga de quem "partiu meu coração" - uso aspas porque corações não se partem, se contraem, apenas. Dessa maneira, com essa despedida concreta - por favor, não volte, não agora - eu consigo me inteirar e morrer no meio fio para que, depois de morta, eu possa nascer para o abraço da morte.

Até tu, Brutus?! É com essa expressão que eu me declaro morta para que eu possa, assim, ir em busca da minha verdade. De quem sou. De quem nunca serei. De quem eu não quero ser. Te escrevo para contar o que descobri.


"Amor"

Pedra

09:13



Isso é sobre mim. Sobre minha inconstância frequente e inerente que me deixa feliz de manhã e angustiada de noite. É sobre minha vontade incontrolável de querer sair da sua vida sem dar tchau porque dar tchau é dolorido demais pra mim. É sobre tudo o que eu tive que jogar fora para conseguir reconstruir o que você destruiu, mas que eu até gostei disso. Gostei de entender minhas paredes, reorganizar os quadros e até pintar alguns novos. E tudo é sobre como eu não faço ideia do que fazer.

Eu virei uma pedra. Uma das piores. Daquelas que não servem nem para construir casa, ou esfoliar os pés na areia. Eu sou, literalmente, uma pedra imóvel e estática com a única função de não sentir nada.  Eu até tento mudar e ser uma pessoa diferente. Até tento escrever com palavras e estruturas novas, como se eu fosse muito mais inteligente do que eu, de fato, pareço ser. Mas quando eu penso que, ah, pronto, me tornei uma pessoa forte o bastante para enfrentar a vida, alguma coisa coloca em prova toda minha força. E adivinha? Eu falho.

Não sei lidar com você. Com sua voz, com suas lágrimas, com suas promessas de que a gente vai se reencontrar na paulista e que tudo vai ser diferente. Você, com sua blusa verde militar. Eu, com minha camisa preta listrada - tudo bem, essa parte fui eu que inventei. Eu quero tanto que isso acabe, por Deus, como eu quero ir embora. Mas ao mesmo tempo, sua cama ainda tem meu cheiro, nossas fotos ainda estão na sua escrivaninha e cada carta ainda está guardada na gaveta. Como eu posso ir embora assim? Como eu posso me deixar ser esse fantasma que ficou preso no seu banheiro e que aparece sempre que você fala "eu te amo incondicionalmente" três vezes na frente do espelho?

Muitas vezes eu pensei em apagar cada vestígio seu na minha vida. Seu número. Suas fotos. Suas roupas. Seus textos. Muitas dessas coisas viraram uma contribuição para o buraco da camada de ozônio e aquecimento global. Mas eu não me importo em te queimar. Não me importo em colocar todo nosso passado na fogueira porque fazer isso é muito menos dolorido do que tentar ser madura o bastante pra encarar que o que aconteceu faz parte da minha vida e não é uma coisa que eu consigo destruir. Ao invés disso, eu virei pedra. Deixei as lágrimas secarem e tudo o que restou foi: pedra.



Você, querendo ou não, sempre vai estar ali. Na mensagem do telefone. Nas músicas. Nos quadros, na arte que eu faço o tempo inteiro. E no fundo eu sei que não quero me despedir de você porque, se eu fizer isso, vai ser como se eu estivesse me despedindo de um pedaço de mim. E eu, que nunca te entendi muito bem, te entendo completamente quando você diz que não foi embora por falta de amor. Eu te amo tão profundamente. Cada palavra que eu disse é a verdade mais pura que eu guardo dentro de mim e sempre vou ter o prazer de lembrar dela quando falarem de você. Mas até isso acontecer, eu vou ter que achar um meio termo entre te odiar completamente e não te deixar ir embora.

Talvez eu só precise de um tempo. A gente sabe o quanto esse ano vai ser difícil e que a gente já não se encaixa mais na vida um do outro. Por mais que a gente tente. Por mais que derrame cada vez mais sangue para dar continuidade pra algo que passou da hora de acabar. O problema é encarar isso como realidade. Enquanto a gente está em estado de choque, fazemos de tudo pra fingir que nada aconteceu. Mas aconteceu. E o que a gente faz agora?

Agora, eu vou fazer o que eu já venho fazendo há muito tempo. Deixo o tempo passar, vivo um dia após o outro e me aproveito do benefício da dúvida. Querendo ou não, pra mim, essa é a saída mais saudável, já que meu ascendente em libra esqueceu a certeza no churrasco. E talvez seja a incerteza que me mantenha respirando. É assim que eu tenho sobrevivido e não tem nada de errado em estar errada. Ou em, simplesmente, não estar. Não estar de fato, não estar nada. Não ser. Ou, quem sabe, ser pedra.

Eu não quero resolver nada. Não quero dizer adeus, não quero que você fique, mas também não estou te pedindo para tomar qualquer providência. Desculpe se isso tudo te pareça apenas mais do mesmo, mas pra mim, ser pedra é tão dolorido quanto ser arte. Ou rio. Ou qualquer coisa figurativa que você consiga pensar agora. E, assim como você disse, eu tenho, de fato, um plano de me instalar em cada lugar que eu passo. Deixo um pedaço de mim em cada matéria prima que eu toco. Deve ser por isso que você ainda tem essa cor dourada quando sai ao Sol. E brilha, e reluz e permeia uma energia que, convenhamos, é linda do mesmo jeito.

Eu poderia ficar aqui, durante horas a fio, te escrevendo sobre isso de escolher não ter certeza, mas acho que a tese principal você já entendeu. E se não entendeu, eu deixo aberto para a interpretação que lhe convier, independente do fato de que você é gelo, e eu sou fogo. Oh não, espere. Eu sou pedra. E sendo pedra eu vou terminar esse ano da maneira mais digna possível e, apenas quando eu colocar o meu último ponto final naquela ilegítima folha de papel, eu vou poder desabar no alívio de, que merda, sentir a sua falta.

Leia ouvindo: Too Late To Say Goodbye - Cage The Elephant

Amor

Clarice

14:02


Não consegui dormir essa noite, fiquei pensando em você. Sempre que seu nome passava pela minha mente eu sorria, inevitavelmente, e fechava os olhos, rezando para que aquela sensação nunca fosse embora. Eu decorei o formato dos seus olhos, não a cor, mas o exato diâmetro das suas córneas. Decorei os rabiscos da sua boca que completam os desenhos mau feitos dos meus lábios. Decorei cada cacho do seu cabelo que cai, gentilmente, pelos seus ombros sempre que você sorri - isso quando você não coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha e olha pra baixo fingindo que está tímida. 

Durante a noite eu fiquei passeando pelos seus detalhes, tipo aquela vez que nos encontramos em sonho e o seu corpo pareceu pertencer ao meu. Quando nosso coração começou a bater no ritmo da música que dominava o quarto. Quando eu fiquei passando a ponta dos meus dedos sobre seu corpo nu enquanto você lia aquele livro que eu nunca entendi muito bem sobre o que é. Você tem sido mais do que um passatempo, a verdade é essa. 

Você tem sido mais do que prometemos que seríamos. Você faz mais parte da minha vida do que eu mesma serei parte da minha própria. Você já sabe onde eu guardo os meu CDs, não pede mais para pegar roupa emprestada e já cativou meu sorriso sempre que eu te assisto passar um rímel. Eu escrevo sobre você como se eu tivesse pintando um quadro. Você tem suas cores, seus traços e existem palavras específicas para te definir. Como, enigmática. Dissumulada. Entranhosa - aquela que penetra as entranhas. Eu só sei que meus sonhos têm sido mais felizes desde que você chegou e eu não quero te deixar ir embora tão cedo. 


Quero dizer, claramente você é filha do mundo e eu sou simplesmente uma parada nessa viagem da sua vida. Mas como todo barco que abandona o cais, eu vou sentir sua falta quando olhar pra dentro do guarda roupa e não ver mais suas camisetas de banda que só você gosta. Sabemos que nós duas temos questões para resolver e que um amor de outono é tão líquido quando a água do rio em que demos nosso primeiro beijo. Você lembra? 

De qualquer maneira, você é eterna. Nossa história é eterna. E será eterna até o dia em que sua marca de batom sair da minha blusa branca - que você manchou enquanto tentou tira-la. Não gosto de dar nomes aos bois, mas o que temos é especial pra mim. Sempre vou te guardar como aquele poema que escrevi enquanto ouvia Radiohead na cozinha e você tomava banho. Você é mais do que eles dizem que você é. E eu sei disso. Sempre soube, desde o dia em que você me entregou aquele papel que continha o primeiro capítulo da aventura mais divertida da minha vida. Tem sido incrível compartilhar meu mundo com você e espero que você fique enquanto puder. Mas quando for embora, será um prazer te receber de volta.

Leia ouvindo: Marceline - Ana Muller

"Amor"

Sorte

07:56



Eu estava lavando louça, ouvindo música, quando o shuffle tocou aquela. Aquela que eu sabia que faria parte da trilha sonora da minha vida. Aquela que traduz tão bem tudo que eu estou sentindo, mesmo eu não sabendo bem o que é. Mas eu só sei que foi essa música que fez eu conseguir exemplificar os nós que estão na minha garganta e que nem as palavras que eu inventei sozinha conseguem externar isso.

Já passou da hora de eu repetir pra mim mesma as mesmas palavras que você usou para se despedir. Acabou. Eu não faço mais parte da sua vida. E enfim, o nosso fim chegou. Enfim, o nó desamarrou. E a gente poderá ser mais feliz. E, ao mesmo tempo que eu tento tão fortemente te esquecer, eu quero estampar seu rosto nas paredes da minha memória para não deixar passar em branco toda a nossa história. Tenho oscilado muito entre as extremidades de te apagar e sentir sua falta. O meio termo ainda é utópico. O meio termo ainda é como se você nunca tivesse entrado. Por que raios eu fui abrir meu coração pra você? 

No meio do caminho eu até acreditei que a gente era de verdade. Eu conseguia te tocar, conseguia te sentir, você aqueceu a parte mais fria do meu peito. Mas nessas últimas semanas, as pessoas tem deixado suas máscaras caírem e isso me ajudou a perceber que a gente nunca conhece ninguém por completo. Eu pensei que te conhecia quando analisei cada detalhe do teu corpo e me encontrei nas suas estrias, nas suas falhas no cabelo, na profundeza do seu olhar. Me encontrei até mesmo na sua paixão estranha por futebol e cerveja e achei que isso bastava para acreditar que o amor estava bem diante dos meus olhos. Oh céus, como eu queria estar errada nesse momento.

Eu já sou crescida o bastante para aprender que reciprocidade não é o suficiente para manter um relacionamento. Entendo que não foi por falta de amor que você foi embora. Mas o que eu não entendo é porque você repete tanto que quer me esquecer, mas continua grafando no vento que amor ainda é inerente entre a gente. Eu nem sei mais o que amor significa. Não sei se eu te amo, não sei se um dia amei porque eu realmente não entendo nada. Onde você estava quando dizia que tudo ia passar? Onde você estava quando me fazia cafuné e pedia mais um tempo pra tudo se ajeitar? E, de repente, todo nosso esforço não foi o bastante porque você não dava conta. Desculpa, mas eu não entendo.


Me arrependo tanto em ter associado a sua imagem á essa palavra que, agora, até as músicas tem seu nome. Meu outro ex tem seu nome. Tudo tem seu nome. Como é que você pode estar tão longe e ainda assim se fazer tão presente numa vida que não é mais nossa? Eu sinto tanta raiva e ao mesmo tempo tanta saudade que, se misturar as duas coisas, dá um sentimento que também vai ter seu nome. A minha cidade tem seu nome. A sua cidade tem seu nome. Tudo o que eu queria é não ter deixado você crescer tanto assim dentro de mim. É não ter acreditado em você quando você disse que a gente era infinito. É não ter confiado na sua paz quando, na verdade, havia uma guerra fria dentro de você.

Eu tento não me culpar. Diariamente, eu repito pra mim mesma que eu te amei o bastante pra você saber disso. Mas quando eu pego todos os desenhos que fiz da arquitetura do nosso futuro, é impossível não pensar num lugar onde nada disso aconteceu. Onde foi que eu errei? Na realidade, eu nem me faço essa pergunta mais porque meus erros são muito claros. "Como eu pude ser tão burra? Nunca vou ser o suficiente pra ninguém. Todo mundo sempre vai embora". Chega. Hoje não. Eu sei que tô aqui por mim.

Da mesma maneira que você não faz ideia de como eu estou, eu vou fragmentar você em todas as partes que eu construí pra te fazer inteiro. É dolorido demais te manter nessa estática infinita que nunca tem uma resposta, que sempre espera dois ou mais meses para começar a arrumar a bagunça, como se o tempo fosse te esperar resolver sua vida. Eu não te julgo e respeito cada passo que você dá pois sei que você tem plena noção do que está fazendo - mesmo estando confuso e cheio de demônios etc e tal. A única finalidade desse texto é, na verdade, externar e eternizar a minha saída do seu peito. Da sua cama, da sua sala, do Terminal Rodoviário do Tietê.  

Da próxima vez que eu voltar, será pra ficar. Mas não com você. Não dessa vez. 

Leia ouvindo: Sorte - Ana Muller