cabeça bagunçada

Texto de avião

14:08


F&O Fabforgottennobility



Leia ouvindo: Eu amo você - Tim Maia 

Não sou quem eu gostaria que fosse. Essa frase foi difícil de escrever não apenas pela estrutura sintática confusa e, talvez, até errada. Mas também porque não sou calvinista e não acredito em destino (mas sei que ele existe aqui e ali). Enquanto o Sol bate e descasca minha pele, sei que a vida é feita de escamas e a cada reza viro outra - algumas vezes gosto de mim e em outras não me aturo. Quem eu sou hoje? me perguntei ontem. Amanhã me perguntarei de novo e a resposta será nova, naturalmente. Eu, que sou eu, tento deixar o tempo passar na minha própria velocidade, mesmo sendo perdida de nascença (nasci e só depois fui ver o que fazer). Portanto, eu, que sou eu, percebo que é inevitável se sentir presa à uma linguagem que conta com 26 letras - amo a literatura, mas ela sozinha é depressiva. Talvez seja por isso que não sou boa em mais nada: pois sou triste. E ao contrário do que pensam, a solidão não faz o poeta. O poeta é feito de portas e a solidão cria janelas a serem puladas. Nem sei mais o que dizer! Me disseram, outro dia, que meus textos salvam vidas e que minha escrita é meu encanto - estão todos tão perdidos quanto eu, graças à Deus! Durante meus curtos surtos de inspiração, fico feliz que eu sou eu e eu encontrei, tão nova, os signos da própria vida. "Vida" não me remete à nada. Mas ontem, quando pensei em morrer - e hoje, que ainda penso -, logo dormi. Vai ver meu estado de natureza seja a inestação e viver seja só um estágio longínquo de experiência a ser adicionado ao currículo. Mas no fim, ninguém te pergunta se estas vivo. Acordei com a mensagem: "Amiga, viveste?" e eu não soube responder. Não respondi até agora. Sigo. Eu que lute. Abandonei, por fim - por gim - a ideia fabulosa de me jogar na janela do hotel e fiquei sozinha com meu próprio abandono. Se não existissem as linhas, talvez, eu seria mais feliz. As linhas são territórios que ultrapassam a minha própria imaginação e, se eu fosse concretista, escreveria um desenho sobre isso (mas como não sou poeta de um mundo caduco, deixo o meu desejo póstumo para Marcus Cardoso). Ouço Tim Maia demais e penso tanto em praia que duvido da liberdade, mesmo que tardia. Sou tão criança que me comparo à minha mãe e, ao mesmo tempo, aos filmes que vejo. Sou o reflexo de um espelho sobrenatural e extinto, talvez, extinto por mim mesma. Filosofo tanto que a cada interrogação morre algo novo em mim - perdi as contas de minhas desistências, inclusive, insisto em desistir de pessoas (iguais) todos domingo. É a saudade. Mas agora vai; acabou mesmo. Sou nova e até comprei um esfoliante para renovar as células pois se eu fosse esperar 7 anos para isso acontecer, morreria afogada na minha própria sujeira. Sou alguém que gosta de pontuação pois símbolos são necessários para afirmar o que a mente, sozinha, não entende. Por isso faço tantos rituais - queimo o literal do passado, realizo bruxarias, enfeitiço meu corpo com sal e água. Os pontos, portanto, marcam o que as palavras deixam soltas e eu, que sou eu, insisto em deixar a responsabilidade do fim para o próprio fim. Ele que se termine.

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cabeça bagunçada

Dezenove

12:19





Leia ouvindo: Socorro - Arnaldo Antunes

Há algum tempo sinto uma angústia - que em alguns corações chamamos de dor - que não consigo explicar. É explicável, de fato, mas de alguma forma, não existe linguagem que se aproxime da mistura homogênea e catastrófica entre beatitude e agonia rasgante. O pão de queijo assa na cozinha e eu o deixo queimar. Deixo-o queimar pois esta é a frase que mais se aproxima do que sinto - o bairrismo, o caos e o cheiro de fogo que é familiar e não parece incomodar. A fome. E mesmo assim, o deixo queimar pois me parece a única coisa que sou capaz de fazer no momento.

Associo, portanto, a falta à falta de sentimentos concretos e conhecidos que, anteriormente, nomeava. Hoje, portanto, me contento com as vírgulas e os espaços em branco quando falo: "ah sei lá, é como se fosse... sabe, assim?". E o interlocutor entende. Mexe com a cabeça positivamente pois é unanime: todo mundo sente. A cara feia, o sorriso indiscreto, a queimação na pele que não é física pois não é na pele - mas como ignoramos a alma achamos que o corpo é o método mais eficaz de explicar aquilo que não dói, mas se sente. A língua portuguesa é falha; a arte é vazia; o olhar é raso demais. Só nos resta ser e existir pois existindo se revoluciona.

Me perguntam com frequência como é ser eu. Ninguém de fora me pergunta, explico: na verdade, as vozes que me habitam tentam reafirmar os pés no chão me perguntando como é ser eu. E eu não sei responder pois eu não existo - me inventei a vida inteira e todos ao meu redor acreditam nessa mentira que no tribunal eu dou o nome de "eu". "Eu" nada mais sou que a materialização celular de sentimentos que existem em alguma camada do universo e que precisava passar a existir num mundo material demais. Sou isso - pois sou. Nós. Sois. Sóis.

            maria fernanda

O pão de queijo continua queimando. E queima minha pele, o Sol. Até hoje não sei se Sol se escreve com letra maiúscula ou não. Me imagino o Sol, com toda sua maestria, explicando-nos que não existe forma para explica-lo. Imagino-no cacheado, de bochechas coradas - afinal, ele é o Sol - rindo de formigas tão pequenas que se acham enormes e quanta prepotência a minha me chamar de formiga! Eu nem sequer existo... Reiterando, então, o Sol me chama não para dançar, mas sim, para uma guerra fria: quem chorar primeiro, perde. Perdi pois a lua facilmente me faz as lágrimas caírem e como a lua é reflexo do Sol...

Em algum momento da minha vida monótona mas que, admito, bastante divertida, eu me prometi acentuar cada vírgula do sangue que corre nas minhas veias. A poesia é capaz de fazer isso. A poesia é capaz de criar o poço de féu cercado de arame do Drummond. O fogo que arde sem se ver de Camões. É isto: sou obra da poesia. Sou um poema que anda, que faz, que atua, que vaga. Eu odeio poesia - gosto das prosas. Gosto da desenvoltura de articular as palavras sintaticamente e ter o poder de atribuir sentidos infinitos que não necessariamente significam alguma coisa. Mas também, gosto dos romances. Gosto de ser Deus por algumas páginas e me sentir no domínio. Me sinto, porém, refém de algo maior. De algo que tem orelha de porco, rabo de porco, pé de porco, mas não é porco.

Como o pão de queijo - sendo mineira, gosto do que faço. Minha obra final é, portanto, única no mundo mas manipulável. Sou uma linha do tempo - um dia, deixo de ser. Um dia termino por contar a vida por meio de palavras. Um dia abandonarei os travessões explicativos que tanto gosto, as vírgulas que aprendi tão arduamente a usar. Um dia, abandonarei a poesia que sou pois não me aguento. Implodirei. Voltarei a ser, vejamos, a bola de fogo no inicio dos tempos que você é. Não o bastante, retorno com sentimentos novos a serem expelidos pela glote em forma de fonemas. Sou o eterno vai-e-vem da divindade e em cada retorno de saturno sou uma artista diferente - vim, nesse, com o azar de ser escritora.

"Amor"

Bakunin, me perdoa

14:03




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Leia ouvindo: I Lived - OneRepublic

Cheguei em uma parte do livro em que não consigo ler porque penso demais em você. Aconteceu isso com outra obra, que a autora leva o nome da sua mãe, que leva sua cidade como cenário - que tem o século passado como contexto, assim como a nossa história em outras vidas. Não consigo controlar o filme que passa na minha cabeça de todos os litros de sangue que derramei para me reerguer de uma forma que nunca fui capaz, mas fui obrigada a criar um força uterina para seguir em frente. Um ano depois, sinto que não evolui tanto quanto eu evoluiria há cinco. O crescimento não é linear, eu digo para mim mesma na esperança de não violar o meu seio aberto que ainda está ferido com a sua partida prematura ou tardia demais, não sei. Com a sua expulsão, me vieram outras questões que, um ano depois, ainda não sou capaz de compreender: eu. 

Existem muitas coisas que eu gostaria de estar sentindo mas eu me recuso a te fertilizar numa terra com o adubo de outra pessoa. Não. Existem amores que partem e que semeiam tanto quanto ervas daninhas, mas você floresceu demais e espalhou seu perfume até onde deveria ser inóspito. É lindo mas é dolorido pois, vai ver, quem sabe, eu sou só espinhos. E se for? Continuo espetando meus arredores como se fossem meus inimigos, mas eles só querem fazer parte. Parte de mim,parte da vida. Querem me conhecer, me tocar, seu a gota do meu suor. Não, não vou deixar ninguém entrar até eu não te enxergar em poemas, em filmes. Até eu fechar o olho e não enxergar o oceano de possibilidades que você carrega. Até eu acordar sem ter sonhado com sua traição. Não existe liberdade agora que você me invadiu, não existe escolha agora que eu conheço a vida com você do meu lado. Não existe mais "eu" agora que você me convenceu que sou especial demais para você. Não. 

Me olho no espelho e falo não, não, não eu não quero e eu não vou. Não vou voltar atrás e pedir para você bater cartão na minha vida falando da sua - e a minha? Não vou te mandar mensagem pedindo conselhos, pedindo ajuda ou exigindo esclarecimentos de um futuro que não nos pertenceu - você escolheu vive-lo sem mim. E eu me pergunto se um dia amarei outro alguém, e pior, me pergunto se alguém vai me amar como você. Como sou idiota, é claro que não. O próximo me amará muito melhormente pois eu me amarei ainda mais. De retrocesso em retrocesso e poemas que mando pois o coração é maior que as mãos, me digo que não precisaria ter te conhecido para entender o meu tamanho. Eu sou enorme! Fico assustada quando olho para cima e percebo que, meu deus, onde fui parar? Agora que estou sozinha eu não me sinto solitária - passei a ter a solidão como opção e não como castigo. E ah! Esta é a melhor coisa que eu poderia ter aprendido. 

Sem você, sinto falta de relacionar a arte a alguém que me preencha - sinto falta dos romances verbais e até das lágrimas inevitáveis quando eu chegava em Belo Horizonte. Você me fez odiar minha cidade. Você me fez odiar a minha vida. Você me fez te amar tanto que eu esqueci quantos anos tinha - graças a deus, eu sou anarquista e não me reduzo, não me modifico, mas foi por pouco. Por pouco não me rendi a sua tirania e me tornei fruto de um assalto identitário. Espero que um dia a gente volte a se amar sem o romantismo, pois este mata e me matou algumas vezes - meu sangue é os livros que brotam da terra fertilizada, aquela que não permitirei secar. A vida é uma criança e assim como o dicionário, formarei períodos infinitos até ressignificar a semântica inteira. 


Seja bem vindo, mas revolucione com cuidado pois eu estou mais forte do que nunca e sentindo o dobro, o dobro do dobro e dobro o tempo, se necessário, para estar aqui quando eu entender que, minha filha, você é foda - digo em primeiro pessoa pois a pessoa que está comigo desde sempre, veja bem, sou eu. Seguro o choro, tremo as mãos e grito na estrada pois o silêncio é a pior das doenças, a submissão é a pior das torturas. Ainda bem que você me deixou ir antes que me violasse, o que é bem mais fácil do que olhar para trás e arquitetar uma vida singular. Tola do jeito que era, acharia que sua proteção seria romantismo. E como disse, este mata. Morta, volto e reconstruo o que deixei cair enquanto te amava. Ainda te amo, quero dizer, não como antes e nem pretendo te visualizar no meu próximo livro. Apenas queria te dizer que sonhei com você essa noite e você estava lindo. Lê um poema que chama um novo amor é um presente da Rupi Kaur. 

Apesar das contradições, o que lhe escrevo é muito mais claro do que parece. Sua habilidade escassa de interpretação de texto, sempre muito primitiva, talvez, entenda que minhas palavras sejam uma ameaça. E talvez seja. Quando escrevo, não sou eu que escrevo. É alguém que mora dentro de mim e não tem voz alta o bastante durante o dia a dia - o crédito é todo dela, seja lá quem ela for. Entretanto, sei que você me entende quando falo que te amo mas não te quero perto - você me causa arrepios e todo mundo sabe o que acontece quando o cacto mostra seus espinhos. Hoje, me encontro excluída e retraída, como um tatu bolinha, esperando os golpes da vida para que eles não doam tanto quando chegarem. Me convença de que você não vai me assassinar novamente. Me convença que seu teatro fechou.

Infelizmente, as cicatrizes que você deixou são profundas e refletem a intensidade e o tempo que passamos juntos - tudo era em CAIXA ALTA: EU TE AMO, EU TE ODEIO, EU NÃO TE AGUENTO MAIS E POR FAVOR NÃO VAI EMBORA. Quando era gramaticalmente correto, eu estranhava - uai, o que é isso aqui que está dando tão certo? A calmaria me assusta, mas sei que o saudável é meio chato mesmo. Agora, mal consigo me encarar no espelho e não pensar no que você iria pensar se visse meu rosto tão redondo e meu vício tão aguçado em corrida. Será que alguém um dia vai amar minhas curvas do mesmo jeito que você as cultuava? Será que alguém um dia vai me tocar tão delicadamente igual você fazia? Tantos serás para resolver antes dos trinta... 

Você não me desejou um feliz aniversário e isso me partiu ao meio, mas tentei entender que você sabia que, no fundo, eu prefiro que você fingisse que esqueceu. Dói saber que você me conhece tão bem, mas só é meio egoísta. E enquanto eu organizo meus desastres naturais e tento alinhar minhas opções, espero que saiba que eu ainda penso em você, e o pior, ainda escrevo sobre você. Tenho chorado menos desde que a gente se desmanchou e, sem romantismo, estou muito mais feliz, sim - mas infelizmente, eu ainda sou a maior romântica que eu conheço. Vou te mandar um livro pelo correio, mas é para o seu irmão. Manda notícias. 



cabeça bagunçada

Eu tenho pressa

16:23


verbo ser/ver você – Enquanto você não vem - Larissa Adur



Leia ouvindo: A Palo Seco - Belchior

Existem coisas que já fazem parte de mim há tanto tempo que eu nem tento resignifica-las. Na maioria das vezes, apenas as troco de lugar na esperança de se sentirem mais confortáveis sendo sentimentos invasivos e desesperadores que nunca foram bem-vindos, mas existem e me bagunçam. Faz uns anos que vivo na correria - não na correria do sistema, mas sim, na correria de ser eu mesma, o que é muito pior. Como se a vida fosse acabar antes dos 30 e eu tenho que sair de casa o mais rápido possível pois não quero ser ruim, não quero perder tempo. O complexo é profundo o suficiente para me fazer pensar que não vivemos tempo o bastante para passar por todos os processos da biologia - nascer, crescer e morrer. E ao longo da vida, quantas vezes nós morremos e nos reinventamos em um corpo com células diferentes? Não dá tempo. Não dá tempo de ser tantos tecidos divergentes e tantas personas em um só amontoado de pele.

Daqui algumas semanas eu faço 19 anos. Aos 19, Adele lançava seu primeiro álbum que levava o nome da sua idade. Quando ela lançou isso ainda era muito distante para mim. E hoje, que eu finalmente tenho 19, me pergunto o que eu fiz de grande para levar minha idade como nome. Na minha idade, Taylor Swifit namorava John Mayer, na época, com 32 anos - isso, de certa forma, explicou minha estranha atração por pessoas que nunca vou conseguir alcançar. Sei que não posso transformar em regras as exceções, porém, não consigo deixar de pensar quanto tempo eu dormi para me considerar um peso morto num mundo onde, convenhamos, existe Bolsonaro como presidente do Brasil. Eu sou tão melhor que ele assim?

A resposta é óbvia e negativa. Mas ao invés de me sentir deprimida e preocupada, eu reescrevi minha história e coloquei num caderno novo os sonhos que eu tinha medo até de escrever. Coisas como publicar um outro livro (um que mude algo na história), receber um prêmio, comprar um apartamento. Sonhos que, há algum tempo, não mereciam sequer serem ditos em voz alta por serem audaciosos demais. "Sonhar" é um daqueles verbos que perdem o sentido quando são falados muitas vezes, mas eu até que gosto diss0. Significa que já faz parte da gente e daqui um tempo o sonho não será mais sonho - apesar de nunca, repito, nunca ser do jeito que a gente espera. Isso não é incrível? Uma surpresa nova a cada piscada!

Continuo me sentindo insignificante. E sim, escolhi voltar a morar com minha mãe depois de 2 meses morando em uma república que meu corpo repudiava. Tento não ver isso como um retrocesso, mas sim, como um progresso interno que simboliza a priorização da saúde mental ao invés das conquistas que sempre quis ter e que nunca serão aproveitadas se eu não estiver saudável o bastante para respirar ar puro. Foi legal, obviamente, mas eu não conseguiria viver mais um segundo naquele lugar que não tinha sentido nenhum para o meu corpo e, muito menos, para o meu coração. E daqui um tempo, quando eu estiver curada o suficiente e minimamente certa da minha grandeza, vou repor esse passo que dei para trás e dar um puta salto enorme para frente pois, apesar de ter 19 anos e não ter gravado nenhum álbum vencedor de todos os prêmios possíveis nem namorar um cara incrível de 30 e poucos, tenho bons anos pela frente. E se eu não tiver, digo, se eu morrer, também é um presente tão bom quanto a vida.

My inner moonlight ✨ Insta@mirenalos

Tento não me sentir tão péssima igual me sentia uns meses atrás. Sabe, o ócio me fez um bem que provavelmente eu só vou entender quando estiver entupida de sonhos - eles de novo - que almejei mas não medi as consequências. Quando eu perceber que meu corpo não é de lata e eu deveria ter dado mais valor ao vazio quando ele existia porque eu não vivo no meio termo. Eu sou demais, tudo demais, isso inclui existir tanto que tudo o que acontece no mundo, de alguma forma, é meu. Mas agora, nesse momento, eu sinto falta de me sentir sufocada pelo problemas do universo e pelos caminhos que quero traçar - e não pelo meu próprio quarto que, apesar das zombarias da minha mãe que me chama de mimada, parece me engolir por não ter um mísero espelho.

Outro dia minha mãe, esta que mencionei acima, me xingou quando eu me referi a meu sofrimento como "minha síndrome do pânico". A energia é a mesma da minha médica quando chamei a doença que nasceu comigo de "meu tumor". Não entendi a revolta. Sempre tive pra mim que aceitar certas coisas as tornam, inevitavelmente, menos doloridas. Isso significa que nem tudo que é meu é lindo e isso inclui as faltas de respostas que tenho ainda pela vida e vou ter enquanto respirar. Eu estou doente, de todas as formas, e não tenho vergonha nem medo das palavras visto que elas só têm o poder que você dá a elas. Para mim, a palavra "desgraça" tem o mesmo poder que a palavra "buceta" ou qualquer coisa do gênero. Não me sinto menos ou mais por viver em hospitais que não existem de verdade, nem me sinto pior por falar meticulosamente o que foi feito para ser falado. Palavras.

Apesar da pressa, que acabei percebendo, é bastante comum em alguns dos meus amigos também, eu vou caminhando já que o tempo é um tempo bem diferente do meu. Não tenho muito o que fazer e, visto que já escrevi muita a palavra "esperar", vou fingir que ela não existe e viver como em Jumanji - apenas procurando a sobrevivência e rezando para tudo isso acabar logo. O que é triste e pessimista, mas enquanto eu não encontrar minha linha de chegada, meu Everest, meu grande propósito e clichês e tal, vou apenas abrir os olhos todos os dias me agradecendo por estar viva. "Consegui", eu digo, não me olhando no espelho pois não tenho um.

cabeça bagunçada

O Buraco

08:18



𝓟𝓲𝓷𝓽𝓮𝓻𝓮𝓼𝓽 | Ludic Life



Leia ouvindo: Violent Crimes - Kanye West

Me olhei no espelho durante bons minutos, até perceber que eu não me reconheço mais. Não reconheço os cabelos curtos que eu sempre gostei, não reconheço meu rosto, diferente do que me parecia e, olha, é a única coisa que está comigo desde o início. Minha inconstância se baseia em me sentir exatamente onde deveria estar e ficar desesperada para sair daqui logo - saudade de quando o futuro era só uma ideia e tudo me parecia tão delicioso só de imaginar. Mas hoje não tenho muito o que fazer a não ser esperar pois quanto mais fundo eu cavo, mais coisas vou descobrindo e, consequentemente, visto que nenhum ser humano é isento de desgraças, pior vou ficando.

Há anos escrevo sobre crescer e mudar - não é atoa que tenho essas duas palavras tatuados nos pulsos porque não é fácil mesmo - e eu sempre acho que já aprendi de tudo. Obviamente, estando errada, abro mais uma porta que me leva à imperfeição de ser humana e angústia de nunca chegar a lugar algum. Ano passado, um hora dessas, eu estaria, talvez, me declarando para o que eu acreditava ser o amor da minha vida e hoje não estou muito melhor que isso. Imaginar é mais divertido do que viver porque não existem obstáculos na nossa imaginação. Nós nunca vamos prever que existem outras inúmeras possibilidades para tudo ser diferente. Quando fiz meus mil e quinhentos planos para me mudar para São Paulo, não estava no roteiro que, no final, eu ia simplesmente não querer e me apaixonar pelo meu próprio estado. Minas Gerais é minha casa, mas o mundo ainda é meu destino.

As coisas mudaram, isso é fato e inevitável. Eu mudei, o clima mudou, meu corpo mudou e eu continuo mudando todos os dias já que enfrento uma batalha singular sempre que pisco. E dói, continua doendo mesmo depois de todas as anestesias que tomei para tentar atravessar esse processo menos dolorosamente. Acabei mexendo demais no cabelo e exagerando um pouco no que chamamos de 'self care' e, no final, deu nisso: perdição total e choros no banheiro da academia. Me pergunto, agora que não tenho mais espelho no quarto, como eu vou sobreviver sem conseguir olhar para mim mesma num reflexo que não é nem perto da realidade mas serve para me distrair? Talvez seja por isso que eu goste tanto do dadaísmo. "Ceci n'est pas une Bárbara Morais" porque a Bárbara Morais é muito mais do que o espelho mostra - é muito pior.

Eu ainda tenho a sorte de conseguir encontrar palavras para o que eu sinto e o privilégio de saber o que eu faço muito bem. Minha falta de auto estima ultrapassa a minha própria alma e chega num ponto de acreditar que até Deus está decepcionado comigo porque eu durmo demais e como demais. Mas o que eu deveria fazer? Não é sobre estar parada, é sobre não ter para onde ir porque as portas estão fechadas - eu as fechei e perdi as chaves lá em São Paulo, naquele quarto de hotel, nas lágrimas que derramei no avião pois, por Deus, amo aquele lugar mas não consigo me imaginar vivendo cercada por restaurantes e museus. Eu preciso de espíritos. Eu preciso de literatura viva. Eu preciso das pessoas que eu amo me fazendo acreditar que eu vou chegar onde eu quiser, mas quando for a hora certa. Não, nem eu acredito nisso.

â—€@naturalheartsâ–¶

A questão é parar de culpar o destino por estar infeliz visto que a decisão de desistir foi minha. E, modestamente, eu desisti de uma forma muito glamourosa e sensata tendo em vista que minha saúde mental está melhor do que estaria se eu estivesse longe ou até mesmo nem tão longe assim, mas ainda, longe. A vida é dar um passo para trás para, posteriormente, dar dois pra frente. São aqueles clichês que você lê quando ganha seu primeiro livro 12+ mas que quando você faz 18 fazem um sentido absurdo. Eu ainda tenho a perigosidade de estar presa num corpo que não é meu, mas fazer bom uso dele. Ainda tenho algumas coisas que eu amo e algumas outras coisas que me amam de volta, mas para ser bem sincera, no fundo, eu acho que isso não importa muito.

Escrevo e escrevendo vou entendendo que tenho uma função nesse mundo - sem querer ser chata, mas não aprendi isso escrevendo, mas sim, bêbada, na casa de uma amiga, em que minha professora de Teoria da Poesia estava presente e disse que leria um livro meu, mas talvez eu não gostaria do que ela falasse. Não me importando, Aline, minha artista favorita, me convenceu que meu destino mesmo é ser escritora, e não professora. "Como eu vou fazer isso?", perguntei, obviamente, sem querer saber a resposta. "Eu não sei, mas pelo menos agora você sabe o que quer fazer", ela respondeu, sendo tão sincera que me fez chorar no dia seguinte, no banho, enquanto lembrava que bebi vinho demais e não devia ter dormido tão cedo. Isso me fez refletir: quando eu posso me considerar escritora?

Não sou o tipo de pessoa que é apaixonada pela vida e nem me sinto obrigada a isso, apesar de acreditar que tudo seria tão mais fácil se houvesse um sentido. Sou o tipo de pessoa que não acredita em nada, mas ama Jesus Cristo incondicionalmente porque, em algum momento, ele disse que é isso aí mesmo. Isso o que? Não sei. E é isso. Sou o tipo de pessoa que, sem nenhum tipo de auto destruição, preferia não estar viva, mas também eu não sou niilista o suficiente para acreditar que a morte é a solução da vida. Complexos demais para caber em 1,56 de altura, dor o suficiente para me assombrar durante meus 18 anos de vida.

Ode ao verme que primeiro comeu meus ossos para depois engolir o que restou do meu peito. Ainda bem que eu faço Letras porque se eu estivesse escolhido Psicologia eu teria desistido da arte e a arte ainda é minha salvação.

Meu recado final para mim mesma, que talvez seja a única pessoa que lê esse blog, - sem desmerecer meus 10k de leitores mensais, sinto muito por isso - é: arrume seu quarto, organize as coisas, se apresse um pouco mais, mas o suficiente para você não se perder dentro da sua própria vida. Equilíbrio é tudo e, como diriam nossos mestres, é só usar um pouco de droga e depois comer salada. Desculpem pela comédia sem graça, mas eu tenho visto muito Friends e me identificado mais do que eu deveria. Agora sim, meu recado final é:

continue não fazendo nada.

cabeça bagunçada

Liberdade mesmo que tardia

16:32





Leia ouvindo: listen before i go - Billie Eilish

Há um dia eu parti. Comprei uma mochila maior que meu corpo nada saudável, coloquei umas blusas e umas calcinhas lá dentro, comprei as passagens, na hora mesmo, só de ida, e fui, rumo ao que, até hoje, eu não sei. Fiz as contas e vi que não vai sobrar uma moeda para o fim do mês - tive que abrir mão de saborear um bolinho de abóbora porque esqueci que preciso voltar pra casa. Isso me obriga a ficar na estrada até que eu encontre uma outra casa ou, pelo menos, até eu conseguir arrumar uma forma de comer.

No momento, escrevo em um caderno que está em minha vida desde que fiz minha viagem internacional mais simbólica. Visto que isso faz tanto tempo, meu caderno ameaça acabar, mas eu sinto que preciso registrar o que essas 30 e poucas horas longe de casa já fizeram comigo. É pouco tempo, comparado com os dias que ainda ficarei de ônibus em ônibus que partem uma vez ao dia procurando um lugar pra dormir. "Ei, tem quarto vago?", eu pergunto. "Não menina, tá lotado!". E lá fui eu caçar a cama quente que desejei durantes as cinco horas de viagem. Cheguei com febre e dormi a tarde toda pois estava doente de saudade de casa - desejei voltar, como desejei! Mas eu já tinha chegado longe demais para voltar atrás. Acho que, cedo ou tarde, talvez quando eu tiver uns 50 anos, vou entender um pouco melhor o que essa viagem pra dentro de mim fez comigo.

Sou de Minas. Minas Gerais é minha casa há 18 anos, mas eu só conheço, digamos, o meu quarto. E hoje, conheci a sala. Daqui uns dias, vou pra cozinha. Depois, quem sabe, vou conhecer as entranhas do estado que foi tão gentil comigo, mas que, por ignorância e comparação, eu não sabia que ver montanhas todo dia era um privilégio. Eu tenho adorado sentir o cheiro da história, passar pelas ruas e me sentir em outro século. Pra quem só via carros e asfalto, um bequinho de paralelipípedos soa tão poético quando está meio chuvoso.

Não viajei para Minas para me convencer de que gosto daqui - talvez até seja um pouco disso, mas acredito que posso escolher transformar essa informação em algo mais dramático. Disse o filósofo: "conheça-te a ti mesmo". Era isso mesmo? Então assim fiz. Inconscientemente, comprei as passagens para meu próprio estômago. Acontece que amar o que vem de fora é fácil porque é desconhecido, é novo e óbvio. Mas desde que me joguei nessa de desbravar as vísceras de tudo o que é meu, percebi que existem coisas sobre mim que, além de eu não conhecer, estavam cobertas por camadas nojentas de orgulho.

Acho que não sei escrever mais. Passei tanto tempo sentindo e apenas isso que agora todas as palavras me parecem um diário horrível e mal escrito ou um desabafo vomitado. Se vocês querem um vômito que eu não consigo tirar da barriga, lá vai: não suporto criar paranoias que não fazem sentido. Meu corpo fala e eu sou uma boa ouvinte. Ele falaria se eu não estivesse sozinha. Mas alguma parte minha não quer que o passado vá embora tão prontamente ou acha que o universo se preocupa demais comigo para me dar algo especial, digo, diferente.

Negativo;
afirmativo;
positivo.

Viajei, então, sem sair de casa pois, citando o óbvio, casa é onde nosso corpo está. Quem sabe minha relação com as cidades não se projete nas artérias e correntes que habitam minha pele? Se libertar de cicatrizes é algo dolorido e eu sempre falei sobre isso, até enquanto dormia. Eu tenho muitos medos e traumas que me perseguem mas que, por motivos claros, eu fujo. Mas agora estou me construindo, tijolo por tijolo, para aguentar o que estiver lá fora. Ó céus, eu pareço uma adolescente clichê aprendendo a viver! - alguém me avisa que é exatamente isso o que sou?

Fique inteira. Se esforce para viver. Tem alguém te dizendo algo. Escute..

Escuto.



Amor

Livramento

16:09



Morning sunshine




Leia ouvindo: Depois - Tribalistas

Hoje eu me lembrei o motivo pelo qual não escrevo sobre você há tanto tempo - porque eu sempre escrevi para você. Mas agora eu estou determinada em encerrar esse ciclo vicioso entre achar que você é o cara certo e ter certeza que eu não quero te ver nunca mais. Então, por isso, hoje, eu pedi esse computador emprestado para escrever sobre/para você, sem que você ouça de mim, necessariamente. É estranho, sinto que eu perdi o jeito com as palavras, mas sei que logo tudo volta a ser bem familiar. Então não estranhe se eu não parecer eu mesma, estou apenas conversando com essa velha amiga que eu chamo de "eu".

É engraçado como a gente só aprende determinadas coisas apenas olhando para trás; olhei hoje e vi que, por Deus, como eu arrisquei tudo por você. Isso, com certeza, é algo que você não vai entender ou reconhecer, mas que é tão claro pra mim. O tempo todo eu estava numa linha tênue entre ser quem você precisava que eu fosse e surtar completamente por não conseguir. Hoje eu tenho uma cama de casal e durmo sozinha - sei que á te convidei algumas vezes mas, sinceramente, não me vejo dividindo essa vida caótica com mais ninguém além de mim. O que estou querendo dizer é que me esqueci por uns dias e não pensei no que eu realmente queria. Acessar esse "realmente" é meio chato e dolorido e eu ainda não tenho a resposta certa, mas olha só a vida que vivemos. Extremos opostos e eu não posso viver a mercê desse jeito.

Aprendi comigo mesma que eu sou um paradoxo: preciso de segurança mas não quero estar presa. É como um seguro de viagem. A segurança que eu sentia em você era única e especial, mas em algum momento isso passou a ser minha corda bamba. Você pulou fora antes que eu percebesse a dor que eu sentia no peito. Voltou antes que eu pudesse me costurar. Depois foi embora, de novo, antes que eu pudesse me lembrar de  como era seu rosto. Você iniciou um ciclo que eu, quase um ano depois de ter quebrado um anel de coco de péssima qualidade, não consegui encerrar. Me coloquei em risco confiando que você sabia o que estava fazendo. E não sabia. Ainda não sabe porque tenho certeza que quando você sentir miserável de novo, é a mim que você vai mandar mensagem pedindo aquela massagem no ego que eu me recuso a te dar.

De certa forma, eu sinto que você me deve algo. Você me deve submissão. Amor eterno. Gratidão profunda. Todas as suas histórias de bar. Você me deve ser sua dor mais horrorosa e terrível porque é exatamente o que você é pra mim: uma decepção típica de um relacionamento adolescente demais para sequer dividir uma cama visto que a gente não tem responsabilidade para cuidar do coração um do outro - se fosse só sexo, estava fácil. Você me deve um pedido de desculpas por ter entrado na minha vida e bagunçado o que havia de mais certo em mim. Talvez seja por sua causa, por medo de te encontrar no metrô ou qualquer coisa do tipo, que eu ainda estou presa nesse passado que não me parece certo. Desculpa se te carreguei de culpa, mas agradeço por ter estrago tudo pois eu precisava muito de um tempo pra pensar.



Hoje eu me livro, ou no minimo aceito que você foi mais um erro maravilhoso que cometi, para buscar um propósito que não envolva eu e você tendo uma filha no final. Eu quero que você seja feliz, eu juro que quero. Mas do mesmo jeito que te falei naquele quarto de hotel, não quero estar perto para ver isso. Provavelmente porque eu queria ser parte da sua felicidade, mas não suportaria a sua inconstância. Te juro que estarei sendo feliz daqui, de Belo Horizonte ou talvez de outro lugar, mas não sei como ainda. Sozinha é tudo mais difícil, mas também é muito mais emocionante.

Perdi as contas de quantas vezes eu me despedi e acabei voltando para pedir algo. Eu sei que isso pode ser egoísta - e de fato é -, mas eu não estou questionando meus defeitos aqui, nunca disse que seria fácil ir embora ou que isso fosse uma vontade certa. Eu tenho muito medo do que a vida tem preparado para mim e você fazia tudo parecer leve. Mas agora é hora de eu mesma me fazer leve e levar leveza para onde eu for. Parto em alguns dias para um lugar que nunca fui e sozinha porque eu posso. Porque eu trabalho, porque eu tenho minha casa e tenho meu dinheiro. Tenho tempo - coisa que, convenhamos, você não tem nem para você mesmo. Isso significa que não vai ter mais espaço para você daqui pra frete porque preciso dos vagões vazios para a viagem não pesar e eu precisar parar ao longo do caminho para descarregar. E se eu chega sem nada, bom, pelo menos eu cheguei.

Peço, ritualisticamente, que você suma. Que você pegue todas as dores que me causou e leve com você como exemplo - essa sua namorada nova é incrível, por favor, não erre com ele de novo. Peço que você seja representante do meu passado e, em troca, eu prometo não te procurar para resolver qualquer assunto pendente. Algumas vezes, é preciso lidar com a dor não lidando com ela. E eu quero a leveza de poder deixar você ir embora, da mesma forma que você me assistiu saindo do metrô - foi tão bom, eu me senti tão bem sem sua energia no meu corpo (apesar de me sentir suja).

Esse não foi um bom texto pois estou guardando os melhores para o livro que publicarei em breve. Você não merece uma boa crônica, ou um bom poema, mas você merece respeito. E em respeito aos 2 curtos anos que compartilhamos a vida, encerro com todos os pontos que você quiser(!!!!!). Anuncio minha partida e anuncio a sua volta para ti mesmo. E apesar de sentir que você me deve todo o seu império, eu também só espero que você me respeite e reconheça o meu cansaço. Estou cansada de ser a amante, a estrangeira, o caos, seu ponto fraco. A partir de agora, eu sou problema meu. Me deixe comigo.