cabeça bagunçada

Tic Tac

12:36


E quando fica difícil para levantar? O peito dói, as costas doem, tudo dói. De repente, você olha pra trás e vê tudo o que passou. E onde eu estava? Preocupada demais com o futuro, eu imagino. A sensação que eu tenho é que o dia tem 14 horas apenas. Talvez por alguma mudança no cosmos, uma dessas paradas de física quântica e teoria da relatividade. Ou talvez, eu só tenho dormido mais do que o normal. E escrever sobre o passar do tempo não vai ser algo fácil pra mim. Eu, que sempre cobicei o futuro, começo a desejar que o presente dure um pouco mais.

Não sei. Talvez eu não esteja pronta pro que está por vir. Fecho os olhos e, de fato, enxergo a plenitude. Mas caramba! Nunca nem imaginei que eu chegaria até aqui. Sei lá, achei que eu iria morrer antes. O tic tac do relógio, se tornou um poema pra mim. Esquisito, mas um poema que, apenas com uma onomatopeia estúpida, pode resumir os últimos 17 anos da minha vida, mas não os próximos 60 e poucos.

Não vou me fazer de corajosa e fingir que isso tudo não me assusta. Eu tenho medo. Cresci rápido demais, eu nem vi o tempo passar. Será mesmo que essa é a hora certa pra entrar no jogo? Bom... Não existe hora certa. A hora certa é sempre o agora. Coloquei meus sonhos nas costas e continuei seguindo em frente, transformando lágrimas em arte e desejando profundamente que o tempo passasse. Continuo com os sonhos na bagagem, mas tenho a impressão de que esqueci alguma coisa no caminho. Mas tudo bem. Mesmo se eu tiver esquecido, tenho certeza de que vou saber me virar sem isso. Seja lá o que "isso" for.



A vida é uma loucura: cada um tem a sua e a gente tenta aprender um pouco com a do outro. E por mais que eu tenha ouvido de várias bocas que eu vou sentir falta dessa época da vida, eu só vou saber na essência quando acontecer.

E quando o coração começa a bater rápido demais? Pelo menos ele está batendo. Quando as palavras ficam presas no esôfago junto com os restos que guardei a vida toda, chega um hora que vomitar tudo pra fora é inevitável. Ciclos se fecham. Se iniciam. E ninguém precisa, necessariamente, estar preparado para isso. Apenas não fuja, pois, não dá pra fugir da vida - e quem dirá, da morte.

O meu conselho pra quem fica é o de sempre: respire, tome um banho quente e tente de novo. Você não precisa correr contra o relógio, já que tempo é uma ilusão inerente que só serve para criar mais angústias e frustrações. Seu relógio cardíaco continua funcionando? Siga-o. Ouça-o. Faça do tic tac seu poema favorito e não deixe que nenhum Fernando Pessoa mude isso.

Mas quer saber? Não ouça meus conselhos. Eu ainda não faço ideia do que estou fazendo. Estou tão perdida no espaço-tempo quanto qualquer um aqui.

Leia ouvindo: Heroes - David Bowie

cabeça bagunçada

Viciada no caos

13:21


Algum dia desses, durante a minha navegação mais do que diária pela internet, eu li um trem. Sabe aqueles trem que são uma frase simples num fundo branco sem graça que, raramente, te fazem pensar? Pois bem. Esse trem me fez pensar. Como se fosse uma ingênua placa de sinalização, dizia: "Não existe gênio nenhum. Treine sua arte." Uma coisa levou à outra e eu me encontrei completamente apagada dentro da minha própria arte. Os motivos são mais do que pessoais. São interpessoais. De dentro pra fora. Mas isso não importa. O que importa é que eu decidi, então, criar um rotina de escrita que eu, provavelmente, vou abandonar daqui algumas semanas. Mas pelo menos vou poder dizer que tentei me livrar do TOC de escrever apenas com caneta preta e de iniciar metas novas em datas especiais. 

Hoje é o primeiro dia. Não que isso aqui vá se tornar um diário - e não que já não seja -, mas algo dentro de mim precisa conversar comigo mesma e ser organizado. Nada melhor que a literatura - que, de acordo com Pessoa, é a forma mais elegante de se desvirtuar da realidade - para exercer essa função. E, como eu já havia dito em textos anteriores, eu tenho um medo absurdo de ser uma péssima autora. Mas não aqui. Aqui sou apenas eu com algumas palavras que aprendi no livro de língua portuguesa. Li. Gostei. Achei a sonoridade  bonita e só depois fui buscar o significado. E elas, quase sempre, me gritam exclamações que eu me surdeei a ouvir (essa palavra eu não aprendi em lugar algum).



Tudo começou quando eu peguei um ônibus de 8 horas para São Paulo. Quando você passa 8 horas na sua própria companhia - o que, talvez, seja a segunda coisa que eu mais odeia no mundo, já que a primeira é milho verde - você percebe o quanto a solidão é brilhante. Existem problemas e barulhos em cada centímetro do seu corpo, mas existem soluções e silêncios para cada um deles. A minha cabeça entrou, nessas 8 horas, em um sistema fordista de produção. Aqui produzem ansiedade. Aqui produzem pânico. E aqui produzem vontade de vomitar. E no final, o coração discorda com o cérebro e os dois começam a funcionar autonomamente; separadamente. Oh, merda. É assim que as coisas começam a desandar.

Sobrevivi às 8 horas, mas foi em São Paulo que eu desabei. Talvez por não saber controlar minha paixão ou, talvez, por estar morrendo de fome. Ou, o mais provável, por estar realizando um sonho. E a questão que sempre fica é: o que fazemos depois de realizar um sonho? O sonho acaba, claro. Outros surgem, consequentemente. Mas aquele em especial, virou pó. E agora? Eu espero pelo quê? Acho que isso tudo só me fez perceber que a vida é uma eterna prisão, mesmo que sejamos prisioneiros dos nossos sonhos. E bom, meu problema com a liberdade é bem antigo e, como é óbvio, as barreiras nunca acabam. É tudo mais profundo.

Desisto? Aprendi que não existe fim, não existe linha de chegada. Mas já que a vida é tão vazia, posso decidir onde esvaziar esse pleonasmo todo. Vou viver em São Paulo, onde, até então, o caos me parece bem mais interessante do que a paz. Ninguém gosta de monotonia constante.

Amor

Algumas coisas que eu preciso te dizer

13:19



Eu sei que faz algum tempo que eu não escrevo sobre você. Sei que tudo anda meio confuso e que, talvez, a gente tenha perdido o rumo de casa nesses últimos dias. Eu ainda estou engasgada, querendo soltar tudo o que tá preso aqui dentro, mas eu não consigo. Não agora. Em algum momento eu sei que o Sol vai abrir e que tudo vai voltar a fazer sentido, igual sempre fez. Até eu conseguir me por no meu lugar, fica difícil explicar em detalhes quem eu sou, onde estou e o que estou fazendo. Mas eu tenho algumas coisas pra te dizer. E espero encontrar um jeito de fazer isso.

Em primeiro lugar, eu amo você. Sei que o clichê dessa frase é inegável, mas clichês são clichês por algum motivo. E entre tantas perdas e tantas fugas, eu acabei descobrindo que o mundo sem você é sem graça demais pra se viver. Eu não sei ainda o que o amor faz com as pessoas, se ele é uma simples droga ou se ele é uma substância vital. Ou se ele não é nada disso, mas a gente gosta mesmo assim. E eu não estou aqui pra te provar que o que eu sinto por você é verdadeiro, mas de alguma maneira, eu só queria te pedir desculpas. Não por ser quem eu sou, não por ter feito algo errado, mas sim por ter esquecido que eu sou a pessoa mais sortuda do universo.

Sempre que você me estressa eu paro e lembro que existem oito bilhões de pessoas no mundo. E dentre essas oito bilhões, de alguma forma milagrosa, a gente se encontrou. Foi rápido. Foi intenso. Foi inconsequente. Mas ao mesmo tempo, foi a coisa mais verdadeira que eu já ousei tocar. E eu sei que eu preciso entender que, por mais que o amor seja muito mais do que quatro letras formando uma palavra, nós também somos muito mais do que isso. Explosões são necessárias para recomeçar e o recomeço é necessário para ajustar algumas peças soltas. De repente, tudo ficou vulnerável demais e eu desabei.



 Eu sinto sua falta.

As palavras continuam escorregando no papel, como sempre fizeram quando eu falo de você. Mas dessa vez, não é só a caneta que está escrevendo. Por mais externa que eu seja, eu ainda tenho um orgulho imenso, que você vem diluindo desde o dia que eu te vi descendo daquele ônibus. De óculos escuro, com cara de mau como se nada mais importasse. E não é que todo o resto pareceu completamente inútil depois disso? Mas, mesmo com tanta emoção em cada passo que damos juntos, eu ainda tenho medo de me entregar. Não só à você ou à nós, mas tudo me parece uma ameaça constante. E eu acho que estou quebrada demais para me arriscar.

Aos poucos, você conseguiu tirar a pedra que tinha no lugar do meu coração e me transformar em alguém completamente diferente. Mas não foi uma mudança daquelas pesadas e rudes. Foi leve. Foi simples. E se hoje eu sou quem eu sou, muito mais calma e verdadeira comigo mesma, eu devo isso àquele "oi" que você me deu sem pretensão alguma. E agora, estamos crescendo. Se em algum momento o fim lhe pareceu uma opção, sinto em te dizer que eu ainda vou te chutar muito enquanto eu durmo. Sem citar todas as tardes que passamos deitados sem precisar falar uma palavra, pois, só a sua presença já quebrava todos os muros que existiam dentro de mim. Foi uma revolução.

Em algum momento, eu esqueci que eu posso voltar a ser uma adolescente apaixonada sempre que eu quiser. Fui consumida pela vontade de crescer e deixei pra trás toda a doçura e inocência que é amar, e simplesmente amar, sem barreiras. E até onde eu me lembro, desde o inicio, nossa única preocupação era essa. Amar, incondicionalmente, onde quer que estejamos. Preciso te agradecer por todo esforço, por todas mãos dadas, por todo carinho de dedo. Você só não é o amor da minha vida porque você me ensinou que só eu posso ser o amor da minha vida. E eu só não te amo mais porque esse cargo tá ocupado e tem meu nome nele. Obrigada por ter me dado asas e nunca ter cortado-as, mas sim, me ensinado a voar.

Leia ouvindo: Call it waht you want - Taylor Swift

cabeça bagunçada

Palavras

14:03


Escrever tem sido difícil. Não porque me faltam temas, não porque me falta vontade. Mas sim, porque me faltam palavras. Inédito. Uma escritora perder as palavras no meio-fio. Acontece que eu acabei adquirindo, de um tempo pra cá, um medo formidável de sucumbir no ofício de artista. Medo de não ser boa o suficiente, entende? Acho que esse medo chega para qualquer um, principalmente pra quem pincela corações com as próprias mãos. Graças à isso, eu acho, comecei a ter menos interesse no mundo. Não só no mundo real, mas naquele que eu criei sozinha como uma maneira de escapar dos gritos, da quebradeira, dos palavrões. Desanimei-me de uma maneira incrédula e instantânea, como se de repente, tudo o que fizesse sentido fosse a minha cama e os litros de água com gás que mantenho por perto.

Eu acho que tudo isso, toda essa preguiça, se resume ao medo de me entregar. Entregar aos textos, aos sentimentos e a tudo que meu coração tem a dizer. Ele quer me dizer muita coisa, sabe? Não acho que estou devidamente preparada para ouvir. Mas preciso reconhecer que não sou - nem quero ser - a mesma escritora de dois anos atrás. Aquele que vivia à base de decepções e rasgos no peito. A metamorfose interna acontece e, talvez, minhas entranhas estejam entupidas demais para deixa-la entrar. As asas que a borboleta quer bater estão encharcadas com todas as palavras molhadas e sujas que eu desejei soltar para alguém, em algum lugar, mas que eu acabei engolindo como se elas fossem minhas.

De repente, o mundo todo virou uma gaiola e eu perdi as chaves das minhas algemas. Ou, talvez, eu nunca as tive. Nunca fui tão livre quanto eu achei que eu era, mas, pelo menos, agora eu sei disso. E agora que isso clareou meu caminho, eu não quero ter que saber o que fazer. Quero sim entender melhor até que ponto eu sou prisioneira de mim mesma, mas pra isso eu preciso me desprender da arte parnasiana - ou nem tão poética assim - que precisa fazer sentido. Nem tudo é belo. Nem tudo é compreensível. E eu não estou aqui pra entreter ninguém. Não faço parte de um movimento e preciso colocar na minha cabeça que eu nunca serei especial, mas também nunca serei genérica.


Mas até que essa verdade faça parte de mim, pretendo continuar chorando no ônibus após as minhas sessões de terapia. E eles podem me chamar de dramática, não vou mais acusar minha TPM por cada lágrima sem rumo que eu derramo. Acontece que eu prefiro sentir dor do que não sentir nada. E ao contrário daqueles que pensam que felicidade é necessidade básica humana, eu estou bem sendo assim. Mesmo. E até que outra parte de mim - pois, até então, eu deixei claro que sou um quebra-cabeça descobrindo minhas peças - se revelar, eu vou continuar sendo invisível e inquieta, mas presente pra quem importa.

De qualquer maneira, eu vos-lhe apresento: Eu. Essa pessoa tão desorientada e desesperada, mas que não mudaria um centímetro se quer no tamanho dos peitos ou na largura dos quadris. Ou, quem sabe, no conhecimento geral em química. A questão é que amor próprio ainda é um corpo estranho dentro de mim, e isso causa alguns efeitos colaterais. Meu dicionário emocional ainda não tem um conceito exato para descrever a fase na qual estou entrando no momento. São ciclos. E ciclos não precisam ser bonitos. São só ciclos. Sobre a minha escrita, eu sei que em breve irá surgir um novo repertório de palavras que eu espero saber usar em textos que, não, eu não faço ideia sobre o que serão. Só sei que serão meus.

Leia ouvindo: Quente - Ventre 


cabeça bagunçada

Eu preciso de um tempo

07:41


Eu preciso de um tempo. Tentei mentir pra mim mesma, iniciar a frase no negativo, mas infelizmente, essa é a verdade. Eu preciso de um tempo. Meu coração está exausto, minha mente começou a me comer e, de repente, eu comecei a me desesperar com coisas tão pequenas que acabam se tornando monstros enormes. Monstros que esperam eu dormir para atormentarem meus sonhos. Eu preciso de um tempo. Preciso descansar, preciso ficar sozinha, preciso colocar as coisas em ordem para, quem sabe, depois, bagunça-las novamente. Até porque, eu gosto da bagunça, sim. Eu gosto da confusão. Mas chega uma hora em que eu não sei mais nem onde eu estou. Eu ando e, por onde eu ando, só vejo caos. E é aí que eu sei que as coisas precisam recomeçar.

Sempre que chega outubro eu percebo que o ano, praticamente, acabou. E com isso, a carga de coisas que eu deixei pra pensar depois chega e eu não sei lidar com tantas cobranças e exigências que aparecem. Onde eu estava quando esse namoro começou a ficar "pesado" demais? Onde eu estava quando minha vontade de levantar da cama foi embora junto com minha vontade de comer? Onde eu estava quando eu precisei de mim mesma? Eu simplesmente desapareci. De repente, eu virei uma mancha de memória ambulante que assina a lista de chamada, arruma a cama e gasta a água da casa porque passa tempo demais chorando no banho.

Quem me dera se meu coração fosse tão sensível a ponto de eu saber e entender o porquê de eu chorar tanto. Ou o porquê de eu desejar, tão frequentemente, que um tsunami, milagrosamente, chegue em Belo Horizonte. Mas por enquanto, eu não quero saber o porquê das coisas. Pra ser bem sincera, eu não quero nada. Não quero recomeçar. Não quero por um ponto final. Não quero mudar, mas também não quero ser quem eu sempre fui. Não quero, se quer, existir. O meu maior mistério é descobrir o porquê ainda estou aqui. Mas não quero saber o porquê disso também.

É clichê dizer que estou cansada, mas é verdade. Não foi um ano difícil ou um ano de muitas emoções, mas eu não preciso de uma desculpa para precisar de um tempo. Mas esse tempo. O quem tem esse tempo? Não é um tempo pra mim mesma. Não é um tempo longe de quem me machuca - ou até de quem me faz bem demais. Não é um tempo para descansar. É só um tempo sem precisar me preocupar em ficar viva. Viver dá um trabalho absurdo e eu não posso nem pedir demissão mais, porque, afinal de contas, eles dizem que eu sou muito nova e que eu tenho tantos sonhos. Deve ser verdade. E por ser verdade, eu sou obrigada a me arrastar por quilômetros para, apenas, cumprir obrigações que nem fazem sentido mais, mas que eu continuo cumprindo na esperança de que uma dia essa onda de rebeldia vá embora e eu volte a querer ser alguém na vida.

Eu não quero, mas talvez eu precise ficar distante de todas as palavras mau-ditas e que se anseiam por serem pronunciadas de alguma maneira. Prevejo que, em algum momento, essa tempestade de vírgulas e parágrafos irá se tornar uma guerra sem fim. E, enfim, eu vou poder aceitar que eu sou um ser humano tão humano quanto qualquer outro. Até então, eu sou só uma alma penada vagando por aí esperado o momento certo de voltar para algum corpo e retomar à tentativa de fazer algo que preste. É, eu realmente estou bem sozinha.

Preciso me desintoxicar do ódio, do rancor e da necessidade que eu tenho de machucar quem me machuca.Não sou uma péssima pessoa por isso, apenas reconheço minhas limitações. Conheço meu próprio inferno e sei das minhas condições quando eu perco acontece -coisa que, convenhamos, vem acontecendo por quase dois meses inteiros. Preciso ficar 100% fora de mim mesma porque, talvez, eu seja meu maior veneno. E de tanta certeza que eu tenho disso, eu prefiro não só me isolar de quem não me entende, mas me isolar da minha própria mente, na qual, eu finalmente aprendi, não posso mais confiar.

Leia ouvindo: Perfect - Smashing Pumpkins 

cabeça bagunçada

Lisboa

13:22



Fiquei me segurando por  meses evitando colocar para fora algumas das perturbações que corroíam as minhas portas. Sempre arrumava desculpas do tipo: "só escrevo com caneta preta", "estou muito cansada", "quem sabe outro dia". Mas hoje eu pedi socorro. Depois de tanto reprimir minhas lágrimas atrás de taças de vinho, eu desabei em um táxi -sim, táxi, não uber- em Lisboa e não consegui me esconder mais.

Agora estou aqui, escrevendo com caneta azul em frente ao espelho reparando como meu cabelo fica mais bonito atrás da orelha e que talvez eu deveria fazer um tratamento para evitar manchas vermelhas no rosto. Não, eu gosto assim. Minhas manchas são histórias que nem a melhor caneta preta do mundo conseguiria contar. Pensando bem, tenho traumas que não quero decifrar. Não quero entender, não quero falar e não quero que meus cadernos saibam dessa minha parte que existe. 

Até quando me esconderei atrás de desculpas? Não suporto ficar sozinha, nunca mais li um livro nem consegui ver um filme até ao final. Não sei se me reconheço, mas até que gosto do que vejo no espelho. Auto-estima até que tenho mas ainda me sinto um lixo de pessoa. Contraditório, eu sei, mas pelo menos reconheço que sou assim. Insuficiente. Incapaz. Acabo destruindo tudo que toco e possuo um histórico enorme de abandono. Finjo que está tudo bem, afinal, não sou eu sentir falta de ninguém.



Mas quando foi que eu me perdi de mim mesma? Quando foi que pegar um voo de nove horas se tornou motivo de roer as unhas? Quando foi que a tão bendita solidão se tornou minha inimiga? Tantas linhas tortas, letras cursivas, entrelinhas enroladas para desenhar uma lágrima que insiste em perpetuar no canto interno do olho esquerdo. Eu preciso urgentemente de mim mesma. Preciso viver a vida que eu arquitetei sozinha e preciso dividir essa garrafa de vinho com minhas próprias desgraças, mas que pelo menos são minhas.

Eu tenho tantas coisas para me dizer  mas onde eu estou? Preciso contar para mim mesma todas as minhas conquistas, as minhas paixões, os meus sonhos. Em alguma dessas estradas cruzadas eu devo ter perdido o caminho de volta para casa. Isso não é fase, crise ou revolta que acontece de tempos em tempos na minha vida. É só mais uma lição de casa para ver se eu deixo para trás o peso desnecessário que eu carrego comigo há uns bons séculos -levando em consideração que não sou desse mundo.

Mas de qualquer maneira, Lisboa me ensinou coisas. Coisas  que ,talvez. eu só perceba quando voltar para cá ou quando eu beber  daquele vinho de novo, com um gosto tão único e característico que é impossível esquecer. Mas por enquanto, eu só agradeço os espelhos pela reflexão e a água do mar pela limpeza. Eu sei que hora outra eu vou voltar a acreditar que eu tenho salvação. Mas isso já é texto para escrever com caneta preta.




Leia ouvindo: Long way from home - The Lumineers

cabeça bagunçada

Carta Aberta

14:08



Faz tempo que eu venho tentando organizar os arquivos perdidos que existem dentro da minha cabeça. Quando crescemos, vamos percebendo e perdendo coisas que antes pareciam certas. Mas agora, eu aprendi que não dá pra confiar tanto assim nas certezas. Enquanto o tempo não passa e eu rezo para o mundo acabar amanhã de manhã, os ponteiros do relógio coincidem com minha caneta e escrevem no ar todos os traumas que eu ainda não vivi, mas estão com data marcada para acontecerem.

Influenciável. Você diz que eu sou louca, eu acredito. Me chama de incapaz, eu questiono, mas acredito. Minha costela dói a dor de quatro existências e não para de doer para me lembrar de um erro que eu não cometi. Nem tudo precisa ser culpa minha, nem tudo precisa de uma verdade concreta e absoluta.Alguns laço precisam ser rompidos com urgência, antes que eu me torne apenas mais um fruto dessa loucura que não é minha.

A sensação de não ter pra onde ir me faz direcionar meu futuro à algo que não é uma opção. Às vezes, eu só preciso confiar mais (em que? Eu não sei) e entender que, no final, todo mundo é inimigo de todo mundo, não importa se vocês moram na mesma casa ou trocam duas palavras por semana. Ou os dois. Ou se vocês são uma pessoa só. Ou se você só conhece o espelho. No final, a desgraça é a mesma para todos e, quando você vai ver, há pratos quebrados pela casa, lençóis rasgados, ossos estraçalhados.

No fundo esperava que esse desencanto chegasse, mas me surpreendi ao perceber que chegou tão cedo. Não queria que essa desconfiança se tornasse parte do meu dia-a-dia, mas eu deixei de ter controle da minha vida há muito tempo. E pra quem eu me entreguei? Desiludi-me da ideia de Deus, mas também não acho que Darwin explicaria minha evolução. Me tornei a razão frustrada com medo de assumir o que sente. Talvez não medo, talvez não. Mas depois de tantos tombos, comecei a selecionar melhor quais caminhos percorrer.



E por que eu sou assim? Agressiva, intensa, vazia e ingrata. É o que você diz. Uma merda. Ingrata pra caralho. Orgulhosa e hipócrita. Mas espero que você saiba que não é culpa minha. Desculpe se minha versão não te agrada mas essa é a única história que eu tenho pra contar. Não vivo e nunca vivi para alimentar seu ego ou para repetir frases que tem a função de se transformarem na sua verdade. Meu caos interno já me destrói todos os dias, quando o despertador toca, e eu não preciso de mais um egoísmo para agradar. Esse espaço é meu. Enquanto eu tiver autonomia sobre ele e sobre a minha mente, você jamais chegará mais perto do que está.

Antes que você diga o contrário e venha com um dicionário lotado de negações, eu posso. Eu posso tomar minhas decisões e controlar quem eu quero ser. Talvez eu sofra um pouco mais, te ligue de madrugada chorando, mas hora ou outra, eu não vou precisar mais de você. E talvez eu seja só mais uma poeta maldita, sem a parte das drogas ou do rock n' roll. Mas essa sou eu e eu me orgulho de falar que eu tenho a mente mais confusa que eu conheço e que eu posso ser triste, sim. Não vou deixar minha identidade se perder dentro dos seus padrões e religiões, até eu me internar por loucura. Ou falsa loucura. Ou ansiedade. Ou sanidade. 

Me desculpa a agressividade ou se eu disse algo que lhe ofendeu, me desculpe. Mas do fundo do meu coração, eu estou cagando para o que você pensa. E isso não significa que, ao tomar posse de mim mesma eu seja obrigada a te amar menos. Não que eu saiba se eu amo ou não, já que minha energia está péssima de tanto ódio e rancor que eu venho comendo com angu de uns tempos pra cá. Mas seja lá o que for que esteja acontecendo aqui dentro, eu sei que eu vou ficar bem pois eu me conheço melhor do que ninguém. E a melhor parte de crescer é que nada disso é da sua conta.