cabeça bagunçada

Levamos os sonhos a sério demais

17:04



Leia ouvindo: Explodir - Rubel

Há uns anos [atrás] eu criei um sonho pra mim. Li num livro, vi alguns vídeos, achei que seria uma boa ideia deixar tudo pra trás e começar do zero - eu mal sabia que eu estava no -2 nessa cronologia toda. Um dia, a angústia bateu mais forte que o sono e eu passei a madrugada pensando: "e se esse sonho não for real?". Nesse dia, alguém me disse que levamos nossos sonhos a sério demais. Eles, de fato, merecem nossa energia integral para que possam deixar de serem sonhos. Mas uma parte de mim está em jogo. Uma parte das minhas lágrimas que derramo no banho, de saudade antecipada, provavelmente vão cair por mais alguns anos. Quanto tempo eu aguento?

Não tenho conseguido escrever. Estou lutando contra as minhas pálpebras pesadas e a vontade de deitar para colocar pra fora um pouco, nem que seja uma gota de suor, do que tanto ocupa meus pensamentos e faz com que eu me sabote de vez em quando. As coisas se superam, cada vez mais. E com coisas eu quero dizer raiva. Quando eu achava que eram as provas - muito além das escritas, eu digo, as provas diárias -, eu percebo que meu cansaço está encrustado, como uma joia bem feia, bem barroca, numa pedra de mármore escura. Cansei de escrever, eu acho. Cansei da arte porque a arte me abandonou, tornou-se apenas teoria e perdeu o seu sentido de me tirar do fundo do poço. Eu cansei de tentar.

Ás vezes, eu pinto. Minha aquarela mais recente foi um peixe. Pintei-o pois senti uma compaixão enorme por esse ser que nasceu para desbravar seu ecossistema, mas que, na maioria das vezes, vai parar num prato de sushi. Seria insuportável, pra mim, se eu tivesse o dom da liberdade e me tirassem apenas para servir, com base na dor e num sofrimento que, apenas pelo fato de não ser expressado por palavras, as pessoas acham que não existem. Existe um peixe dentro de mim que eu mesma devoro. Corto as branquias, tiro os órgãos, fico apenas com o que é saboroso pra mim mesma - mas o resto, não importa.


Quando, raramente, escrevo, é sobre ela: ah, meu deus, ela. Não diria que estou apaixonada, longe de mim entrar nesse abismo de novo. Mas é que, nos raros momentos em que eu não me sinto cansada a ponto de parecer que se eu encostar a cabeça eu vou dormir, ela sempre está ali para afirmar que a única pessoa que me impede de realizar meus sonhos sou eu mesma. Me bate uma raiva quando alguém me fala isso. Ah, então quer dizer que a culpa é minha se Deus me odeia?, penso. Na verdade, é sim. Levei meus sonhos a sério demais, e agora não consigo me desprender da história perfeita que criei pro meu futuro. Tomara que tudo dê certo, mas se der errado, que dê errado com glamour. Aquele errado digno de livros e filmes e, nesses tempos, seriados,

Voltando aos sonhos: os tenho. Tenho tantos mas que, no frigir dos ovos, se resumem a um só. E esse um só que me impede de realizar todos. E esse um só é meu maior empecilho entre mim e eu mesma. Essa pequena Bárbara que, aos 12 anos, achou que seria tudo bem sonhar demais, provavelmente não sabia dos efeitos colaterais. Não sabia que ela não estaria sozinha - nunca esteve - e que, no fim, se sentiria amada. Tão desapegada, coitada, não imaginou que daria seu primeiro "adeus". Os laços, no fim, são reais, e como é bom ter amigos.

As coisas ainda estão muito confusas pra mim porque eu deixei a intensidade de lado - mas isso não significa que estou mais racional, muito pelo contrário. Se eu pensar demais, eu surto, eu desisto, sei lá. Mais uma vez, eu repito, o cansaço me pegou e eu não consegui fugir. Só quero que tudo acabe e que eu possa deixar pra trás um pouco do passado que me estressa e um pouco do futuro que me impede de aceitar o que tiver que vir. Um recado eu deixo, para eu mesma, caso eu tenha partido: faça valer a pena. Você deixou que você mais ama pra trás.

Mas, como eu ainda não sou a mulher mais forte que pretendo ser, preciso pisar no meu orgulho e pedir ajuda Àquele que, provavelmente, é único que não vai me chamar de fraca se eu me perder no caminho, visto que nem eu me escapo desse rótulo. Portanto, querido Deus, por favor, não me abandone. Não agora.

cabeça bagunçada

O Sufoco

14:30


Leia ouvindo: Changes - Seu Jorge

O universo se cria todos os dias e todas as noites ele se aborta. Assim, parece que essa é uma frase tirada de algum livro do Paulo Coelho ou algo do tipo. Mas não, isso é ciência. A física me faz pensar muito mais do que eletromagnetismo - coisa que eu só penso uns dias antes da prova. Me peguei, porém, refletindo sobre essa condição do universo durante algumas horas e tentei aplicar pra dentro de mim. Sempre pensei em como eu sou um reflexo direto de tudo o que acontece no mundo, mas, por incrível pareça, não encontrei resposta alguma sobre isso. Não consegui reconhecer meu aborto diário, não consegui aplicar meu redescobrimento periódico.

Eu tenho buscado um pouco mais o silêncio. Algo dentro de mim sempre pediu para preencher os espaço vazios com alguma coisas, qualquer coisa - qualquer coisa é melhor do que nada. Mas de uns tempos pra cá, com tantos espaços vazios pra preencher, eu comecei a sentir algo que nunca senti antes: sufoco. O sufoco é algo que, aos 9 anos, senti quando um amigo - hoje amigo, naquela época, inimigo mortal - tampou meu nariz e minha boca na esperança de que eu me calasse. Aos 13, perguntaram se eu era gestante quando cheguei ao hospital, enrolada em toalhas, sangrando, após ter sido estuprada - não consigo achar uma metáfora pra isso. Aos 16, quando percebi que minha adolescência e minha inocência se perdeu por completo no meio do caminho. E aos 18, quando dei um nome pra ele.

Ultimamente, o sufoco vem em forma de dor de cabeça, olhos pesados, lágrimas que seguro achando que, se eu começar a chorar, nunca mais eu paro. Acumulei tantos sufocos ao longo dos anos que hoje ele é uma parte de mim que tive que aprender a conviver, por bem ou por mal. Por isso sempre achei que ele não existia, que esse sentimento é inédito, confundia-o com cansaço. Eu sempre estou cansada, oh céus, quem eu quero enganar?

Mas eu estou sufocada. Sufocada pelas palavras horríveis que ouço durante o dia e tenho que fingir que elas não foram ditas. Sufocada pelas esperanças depositadas em mim, que na maioria das vezes eu mesma coloco, e eu não consigo me suprir. Sufocada pelo ambiente fechado e pelos litros de água que derramam enquanto eu busco, frequentemente, uma bolha de ar que me forneça um pouco do volume de oxigênio disponível em seu interior. Sufocada por não conseguir ler um livro por pura e simples vontade de ler um livro. Sem precisar entender nada, pensar, fazer resumo.



As palavras vem meio mortas, digo, tortas. Sinto, às vezes, que minha alma foi esquecida no mundo das ideias e tudo o que eu sou é pura matéria orgânica esperando o vencimento para entrar em decomposição. Onde ficou toda a profundeza do que eu sinto? Onde estão todos os meus sentimentos? O sufoco me sufocou tanto que eu me tornei o próprio demônio engolindo suas vítimas. Eu não sou a vítima, eu sou o demônio - sou os dois. O Sufoco - coloquei em letra maiúscula já que o personificamos - me fez acreditar que não olhar pros meus problemas iriam fazer com que eles não existissem.

Pois veja, Bárbara. Você tem dores. Você tem amores profundos os quais sente falta. Você tem sonhos e você tem um sonho gigante - mas pare de viver por ele, por favor. Você sente a dor física da angústia, e tem enxaqueca, não gosta de dipirona, sente cólicas, menstrua, tem TPM, inferno astral, o eclipse foi esses dias... Você, ainda, é um ser humano. Você ainda precisa da língua. Você ainda precisa do tempo. Você está dentro da caverna e acredita fielmente que as sombras são a única realidade que existe. O conceito de amor próprio é muito mais amplo do que sair de um relacionamento que não te faz bem, ou manter uma rotina semanal de hidratação no cabelo - mas que isso é um grande passo, é.

Tá na hora de tirar os chicotes nas costas e, no mínimo, acolher esse sufoco que tanto prende as lágrimas e as palavras dentro de uma caixa. Alguém, não sei quem, lhe obrigou a guardar essa sua essência intensa por muito tempo e agora você precisa gritar. Grite. Grite aqui mesmo que PUTA QUE PARIU, porra. Grite que você só quer dormir, só quer um tempo, quer que tudo acabe logo mas sabe que nunca vai acabar porque, vai tomar no cu, desgraça, a vida é um ciclo eterno de frustrações.

E tem algo de errado com isso? Não. Eu só não entendo o porquê.

No fim das contas, eu me reinventei hoje e durmo agoniada sabendo que, no final do dia, eu vou me abortar. Mas com um fio de esperança de que eu sangre até virar a única coisa que restou de mim, que minhas hemácias sobrevivam para contar a história. E que minhas palavras não sejam infinitas - mas que sejam eternas enquanto durem.

cabeça bagunçada

Feliz ano novo

14:54




Leia ouvindo: Closing Time - Semisonic

Há uns dois dias eu fiz 18 anos. Entretanto, com a correria de festa, correção de provas e o término de um namoro bem no dia do meu aniversário, eu acabei esquecendo de escrever sobre isso. Sobre mim. Sobre como, há 18 anos atrás, nascia a pessoa mais importante da minha vida: eu. E não me julguem pelo egocentrismo exacerbado, pois apesar de ser uma canceriana digna e descrita fielmente, eu nasci na transição entre câncer e leão, então, por isso, não se assustem quando eu ficar vaidosa e narcisista demais - eu sou assim mesmo. Comecei achando que a entrada desse novo ano viria repleta de conturbações e sinais de que acabei de chegar na pior idade da minha vida. Por que, meu jesuszinho, eu tive que quebrar meu próprio coração e, consequentemente, misturar vinho com chopp no dia 21 mais importante do ano? Pois bem. Foi nessa superação rápida de menos de uma hora que eu entendi sobre o que seria esses novos dois dígitos que me perseguirão pelos próximos 365 dias: não pensar demais e não levar a vida tão a sério.

Durante o ano todo eu decidi que iria escrever um post sobre as 18 coisas que aprendi com 18 anos. Porém, a semana foi tão pesada que não consegui refletir sobre isso enquanto pego sol na minha varanda, deitada na rede, apreciando as montanhas de Nova Lima - vou sentir muita falta dessa vista, pensei. Só consegui, por sorte, ler por puro desprazer e, ah, não me lembro muito bem. A questão é que, a coisa mais importante que eu aprendi é que, em determinado momento, crescer deixa de ser um evento e passa a ser inerente ao ser. Ou seja, quando você vê, oh! algo não te incomoda tanto quanto antes. E assim foi, aos 18 anos, sendo que desses, pelo menos 12 eu passei na terapia conversando sobre a ausência da figura paterna na minha vida e como isso me impedia de ter um relacionamento saudável com qualquer homem que aparecesse. E quer saber? Foda-se.



Enfim, acabei me esquecendo de falar sobre mim e sobre o que eu espero desse novo ano. A real é que eu me acostumei tanto a escrever sobre aniversários, desde que eu criei esse site incrível que, entre rancos e barrancos eu chamo de "blog", que fico até com medo de estar repetindo sempre o mesmo clichê. Pra você, querido leitor, que chegou na minha vida agora, saiba que eu falo a mesma coisa todos os anos que eu faço um ano a mais - ou um ano a menos. Falo que cresci muito de um ano pra cá, que a Bárbara de 2014 teria orgulho de quem eu sou. Mas, assim como eu aprendi com a Mariana Lima em "Cérebro Coração": o intuito aqui é não entender nada. Se desde sempre eu me intitulei como arte divina, que Deus ou Anubis ou seja lá quem for que me colocou no mundo pra fazer bagunça e gritaria, então, me permita que essa nova idade seja completa de interrogações e berros e inconsequências que só a juventude - que, meio precocemente, eu tentei me distanciar - pode me proporcionar.

Eu sou estranhamente grata por ser quem eu sou e sei que fazer 18 anos não significa muita coisa nos dias de hoje. Mas eu me lembro de ter 12 anos e plasmar o futuro, pensando em onde eu estaria daqui seis anos, com quem, o que estaria fazendo. E cara... deu tudo errado! Quero dizer, para a Bárbara de 12 anos, talvez, não seria tão gratificante passar o aniversário da maioridade dando aula de arte antiga para adolescentes - de incríveis 18 anos. Mas o que importa é que a Bárbara de 18 anos ama a Bárbara de 18 anos e a de 12 e a de 15 - que se perdeu um pouco no caminho e tudo bem - e vai amar ainda mais a de 19 que não faz ideia aonde vai estar.

Essa história, apesar de curta, conta pra mim mesma todas as vezes que eu tive que lutar para ser muito melhor do que eu acredito que posso ser. Minha psicóloga fala da importância de reconhecermos nossos feitos e termos orgulho da nossa coragem e, hoje, apenas hoje, 18 anos depois, eu consigo olhar pra trás e reconhecer a mulher incrível que está ali, no espelho, lavando o rosto e passando protetor solar todos os dias de manhã. Não sei se me amo, não sei se um dia vou amar. Mas sei que eu estou aprendendo, aos poucos, a me apaixonar por cada parte minha que ninguém foi capaz de amar.


cabeça bagunçada

Minha casa

07:06




Leia ouvindo: Baleia - Casa

Alguma parte de mim, mesmo que bem instintiva, gosta de quem eu sou. Depois de muito tentar apaziguar a briga interna entre o sol em câncer e o vênus em leão que interfere diariamente na minha vida, eu decidi sempre me olhar no espelho e abrir as minhas próprias portas. Todo dia eu descubro uma coisa diferente, uma rachadura, uma mancha, uma goteira. Esses dias eu percebi que tenho duas pintas perfeitamente simétricas, uma em cada lado do meu rosto. Acabei aprendendo que não preciso gostar de cada espaçamento do meu corpo - inclusive, acho realmente estranho que meus seios se separam por, literalmente, um palmo de distância. Mas amo o fato de que todos esses defeitos são meus e só meus. A união de todos eles, a fórmula química que me transforma na única pessoa existente no mundo que possui exatamente essa sequência de predicados.

A luta meu pelo auto-conhecimento não começou quando eu descobri o feminismo, por exemplo - começou bem antes. Começou quando eu, com dois dias de vida, tive que lutar para continuar viva e mudar o mundo. Eu me prometi - sim, eu lembro disso - que, se eu vivesse, eu iria fazer o mundo valer a pena. E hoje eu valido cada conquista que eu fiz nesses anos que parecem séculos pra mim - será que, a medida que a gente cresce, o tempo passa mais rápido? Estranhamente, sim. Aqueles dois dias entre a vida e morte duraram mais que esses 18 anos que eu carrego nas costas e esses 18 anos que eu carrego nas costas são eternidades quando comparados à meu futuro idoso e tedioso que eu espero ter assim que eu falar: "Pronto, eu fiz o que eu podia para tornar o mundo habitável".

Nisso, entre uma risada e outra, uma perna bamba e choro livre, entendi que eu sou minha própria casa - provavelmente, daqui alguns anos, quando minha literatura tornar-se didática, alguém vai fazer uma apresentação de slides sobre mim e colocar nas características gerais que eu só falo clichês óbvios, mas importantes. Eu cuido de mim, varro sempre depois do almoço, lavo a varanda, decoro as paredes e me deixo extremamente confortável para eu possa descansar em mim mesma sempre que o mundo lá fora fica pesado demais. No fim de tudo, eu me tenho. E isso basta de uma maneira absurda e inexplicável.



Ás vezes eu recebo visitas que me desarrumam. Tiram os móveis do lugar, inundam o banheiro, deixa tudo fedendo e cheirando a desgosto - já escrevi sobre isso algumas vezes, e tudo bem quando isso acontece. Mas na maioria das vezes, recebo visitas incríveis que sempre trazem um vasinho de planta que eu deixo pegando Sol na janela da cozinha. Eu amo o fato de que minha vida é um livro aberto e eu posso contar pra todo mundo que passa o que tá acontecendo aqui dentro, sem sentir que alguém vai me invadir a qualquer hora pois eu tenho as proteções necessárias para dizer: "Pera lá! Aqui não!".

No fim, eu amo cada pedaço do meu corpo e cada parte da minha personalidade que faz com que todas as pessoas que, por algum motivo, vão se referir a mim em uma conversa de bar, digam: "Você conhece a Bárbara? Aquela lá, a louca e estranha". Gosto da minha barriga que já absorveu tanta carne que cansou. Gosto do meu sangue que escorre palavras e dores, mas sabe a hora certa de estancar. Gosto dos meus olhos que se fecham a cada sorriso, para guardar bem guardadinho aquela memória que me fez rir. Gosto da nudez e da arte que é escrevível em cada centímetro quadrado do meu corpo. Gosto do jeito que eu flerto e transo e amo e me apaixono comigo mesma, a cada dia, de um jeito diferente e sempre falo: "Oi... você vem sempre aqui?".

Sei que ainda preciso aprender a cuidar um pouco melhor de mim - eu não sei comer direito e muito menos sei a hora de parar de beber -, mas sei que tudo isso é um livro inteiro que preciso escrever para aprender a lidar com essa casa que ainda falta umas partes para serem cobertas de gesso. Sou simples, mas cheia de significado subjetivo que precisa de um dicionário próprio para entender cada vírgula, cada filosofia mau-dita que, vira e mexe, saem da minha boca durante uma discussão. Odeio isso e aquilo, mas, num geral, eu consigo me reconhecer no espelho.



cabeça bagunçada

A Solitude

08:03



Leia ouvindo: Vermelho - Marcelo Camelo

De uns tempos pra cá, como é perceptível, eu venho tentado descobrir como lidar com uma saudade que precisa ser acumulada. Tento escrever, de vez em quando, mas nem tudo parece se resolver com palavras. Estou cada vez mais próxima de encerrar uma fase da minha vida e, ao mesmo tempo que fico feliz em pensar num recomeço, eu fico assustada. Um pouco apavorada, até. Sempre tive a sensação de que a vida é vazia e sem significado - sem querer parecer niilista ou algo do tipo, é só um sentimento frequente - e não têm sido diferente agora que tudo (tudo? quase tudo) mudou. Me parece mais uma luta constante, uma batalha sem fim. Pra quê? Pra nada. Entendo meu niilismo, na realidade, não me culpo.

Então, desde que eu fui obrigada a me restabelecer no mundo - esporadicamente a gente se balança e se acha de novo - tenho sido completamente intolerante às coisas. Sempre escrevi muito sobre a solidão e sobre como eu não a suporto. Parecia um peso, uma dor, um castigo da igreja católica por ser mais do que eles esperam de mim. Mas agora, agora que troquei a solidão por solitude, não suporto ficar perto tempo demais de pessoas que, antes, me faziam tão bem. Aparentemente me faziam bem. São poucas pessoas que eu ainda tolero, mas, mesmo assim, me sinto sufocada pela perda de espaço. Então é esse o amor próprio que as pessoas tanto me falavam sobre? Essa falta de paciência constante com a humanidade das pessoas?

Eu gosto de me relacionar com os seres humanos - apesar de não saber, sou tão inconstante quanto a física, a química (ciências, até então, exatas) - e sempre foi meu fascínio buscar a sociologia dentro de cada um. A psicologia. O espiritismo. Qualquer matéria não-material que me prove que, no fundo, o mundo ainda tem salvação. Mas por algum motivo, por mais que eu queira, por pura e extrema vontade, conhecer a profundidade de outros alguéns, agora, eu tenho pavor em pensar que esse meu espaço possa ser invadido e tomado - de novo, como já fizeram antes.


Talvez eu seja só um desses cachorros abandonados que, de tanto apanhar, saem correndo quando alguém levanta a mão. Depois que conheci a imensidão da minha alma e como ela é aconchegante sendo solita - esse adjetivo, infelizmente, não existe, mas de tanto pensar nessa palavra eu mesma acabei inventando graças à licença poética -, pelo menos por enquanto, quero agradar minha casa e me arrumar bonitinha para, adivinhe só, mim mesma. O silêncio nunca foi tão precioso para mim e para os meus pensamentos que não param um minuto se quer. Agora eu consigo ver as montanhas - montanhas não, serras - da minha cidade e pensar: elas sempre estiveram aqui? nunca as vi.

Tudo é mais simples do que parece: eu sempre repeti e repeti que preciso de um tempo mas eu mesma nunca me dei esse tempo, oh, tão necessário. E meu coração, gentil e carismático do jeito que ele é, me obrigou e tirar esse tempo e, por isso, agora, eu tenho preferido muito mais meus filmes e livros do que relacionar com pessoas que mais me parecem uma ameaça para minha paz. Obviamente, não vivo numa bolha que me possibilita fingir que nada está acontecendo e que não vou ter que viver em sociedade pelos próximos, se eu tiver sorte, 60 anos da minha vida. Essa bolha interna que eu mesma criei é o motivo pelo qual eu chego em casa exausta e dando graças às Deus todos os dias às 12h30min. Mas, paciência. Não acaba nunca.

É um processo de transição que explora os extremos para encontrar o equilíbrio. Minha terapeuta insiste em dizer que existem várias possibilidades entre um polo e outro, mas, para eu escolher onde quero ficar, preciso caminhar por toda essa linha imaginária que pode, no final, nem existir - olha só o meu niilismo novamente. Sinto saudades, sinto falta, mas depois de alguns minutos, sinto preguiça. Sinto um vazio profundo, como se eu estivesse sendo invadida. Então, logo em seguida, coloco os rabos entre as pernas, a cabeça entre os braços e finjo que minha cama é feita pra você também, fique à vontade, você não atrapalha. Sinto muito, mas você atrapalha sim. Me deixe em paz, por favor?

No fim das contas, eu gosto de mim mas não muito. Gosto de quem eu me tornei nesses últimos três meses: alguém quase independente, que se contenta com o simples e gosta de dar umas risadas às vezes. Mas não gosto dessa fase cíclica irritante que, ora eu gosto de estar sozinha, ora eu tenho pavor de ficar sozinha mas não chegue muito perto senão eu me quebro. Não que eu seja frágil, longe disso. Meu casco nunca foi tão duro. Acontece que, até que eu tome posse real dessa minha força que, aparentemente, nasceu comigo, preciso que fiquem longe. Sou uma obra de arte - sem flashes, não me toque. A arte se basta por si só.


Amor

Saudade

12:38


Leia ouvindo: Fora de Foco - Manu Gavassi 

Fiquei pensando, basicamente durante o domingo inteiro, se eu deveria escrever esse texto. Ás vezes, o coração fala mais alto do que eu consigo ouvir e preciso organizar as coisas. Coisas essas que eu nem sempre gosto. Essa crônica não é sobre o que devemos esquecer, sobre o recomeço que nunca vai chegar. Eu sinto falta de escrever sobre o jeito que, com você, eu sou sempre uma adolescente vivendo um sonho. Realizei minhas primeiras fantasias ao seu lado e não queria deixar esse sentimento bom se diluir no meio de tanta complicação que eu acabei encontrando no meio do caminho.

Eu espero, de coração, que você saiba o tamanho da falta que você faz. A semana inteira eu tive que segurar os dedos para não te mandar alguma mensagem falando sobre como eu estou aflita, ou extremamente feliz com algumas pequenas conquistas que têm me deixado transcendente. Você ainda faz parte da minha vida, por mais que eu tenha ido embora da sua. Em vários momentos eu me pego pensando em você e em algum momento que passamos e é, literalmente, um flashback horrível que me faz sentir como se eu pudesse te tocar por alguns míseros instantes. Eu encaro o horizonte, viajo por uns instantes e, no meu rosto, estampa um sorriso tão singelo, mas tão profundo, que, adivinhe? Tem seu nome.

Eu entendo que essa saudade toda vai passar, infelizmente. Mas queria registra-la enquanto ela está aqui, sendo coisa boa, marcando seu território com tudo de incrível que construiu nossa história. Acabei aprendendo a não encarar sua partida como uma coisa triste, mas sim, como só mais uma batalha que vai me transformar em alguém muito melhor de quem sou hoje. Você teve seu momento para me transformar e foi ótimo aprender tudo o que você tinha pra me ensinar. Mas, de alguma forma, eu preciso aprender alguma coisa com essa falta que você faz. Cansei de deixar você me completar - sinceramente, tenho tido pavor de passar tempo demais com as pessoas -, e agora quero só caminhar do seu lado. Ou, pelo menos, te assistir caminhar em busca dos seus sonhos enquanto eu faço o mesmo.

É impossível citar todas as coisas que me fazem falta. Em alguns momentos cruciais do meu dia, você aparece e marca presença no meu peito. Uma parte de mim deseja profundamente viver tudo de novo, mas, outra parte sabe que isso não pode acontecer porque, se acontecer, vai atropelar um tanto de outras histórias que a gente ainda tem pra viver. Nunca pensei que eu ia conseguir amar tanto uma pessoa que não pode, que não consegue ficar comigo. Mas eu amo. E não só te amo como também amo tudo o que a gente passou junto. Ficar do seu lado foi, sem dúvidas, a melhor coisa que já me aconteceu na vida. E de forma alguma - acabei demorando um pouco pra aceitar isso - eu conseguiria sentir outra coisa senão gratidão por você.


Dói. A gente sabe que dói. Fico querendo conversar com você o tempo inteiro e dividir a cama de novo, mas não posso. Essa coisa toda de desfazer laços é muito mais difícil do que eu achei que seria - estou chorando depois de meses sem conseguir derramar uma lágrima sequer. Mas eu entendo que é algo que precisa acontecer se a gente quiser continuar, de certa forma, sim, juntos. O que esse "juntos" vai significar daqui um tempo, eu não sei, não depende de nós. No fim, "nós" nunca dependeu de nós.

De qualquer maneira, esse texto foi apenas uma tentativa de te avisar que eu ainda estou aqui, sentindo sua falta diariamente - por enquanto. Digo por enquanto porque eu quero muito ter a chance de te reconquistar, com uma nova versão minha. Mais feliz, mais saudável, pronta para levar a vida a sério e não cair sempre que tropicar. Quero poder trocar olhares, sorrisos e viver todo esse sonho adolescente de novo. Ainda não sei como fazer isso e, sinceramente, não quero saber. O que sei é que estou extremamente feliz com meu presente e apenas alguns fatores do futuro me preocupam, e
você não é um deles.

Eu sou uma pessoa muito diferente. Bem diferente do que eu achei que um dia seria. Mas, no fundo, eu sou extremamente apaixonada por quem eu me tornei - mesmo que eu não saiba exatamente "quem" eu sou. Daqui uns meses, uns anos, não sei, quem sabe, esse cenário tão utópico não vire realidade de novo. Você mesmo disse que São Paulo é minúscula para duas pessoas se trombarem durante a semana. Sempre vou estar te procurando, te pesquisando, pensando em você. Torcendo para que, um dia, meus pensamentos te atraiam e a gente possa, finalmente, ir naquele restaurante que ficamos um ano inteiro enrolando pra ir.

Não vou encerrar o texto e começar o parágrafo dizendo que eu te amo por dois motivos: eu não preciso repetir isso porque você sabe e acho que lembrar de um amor que não é concreto pode ser só mais torturante para nós dois. A única coisa que eu queria dizer é que estou morrendo de saudade e esperando ansiosamente o dia que você for voltar - ou for embora de vez. Eu sempre vou estar aqui, sendo a mesma que você deixou, mas, ao mesmo tempo, alguém completamente diferente.


"Amor"

Sinto muito, mas não sinto nada

08:34



Leia ouvindo: Hiding Tonight - Alex Turner

Eu acho que escritor, de um modo geral, tem a mania de adiar o fim. Não sei exatamente o porquê, mas se despedir de uma história e matar para sempre as personagens - me incomoda muito esse artigo - é sempre dolorido e mancha o peito com todo um futuro que poderia ter sido, mas não foi. Por isso não culpo J.K Rolling pelas infinitas continuações de Harry Potter. Para mim, ela é exatamente o que todo escritor quer ser: eterno. Não em si, como pessoa ou como autor, mas sim, como criador. Como uma mãe que dá a luz á um filho e que, porra, é difícil pra caralho se despedir de um filho. (Não se engane, eu detesto Harry Potter).

Usando essas analogias, eu até que consigo me perdoar por ter demorado tanto tempo para te deixar ir embora. De certa maneira, você foi essa personagem que eu sempre escrevi e descrevi nos livros e contos que nunca apareceu. E então, apareceu. E o que eu faço agora? Talvez seja por esse motivo que você tenha nunca existido pra mim. Sua companhia sempre foi um sonho, um devaneio, não sei. Você nunca me pareceu real e, hoje, quando olho suas fotos, você me parece apenas um livro que eu li e gostei, mas tive que deixar de lado. Me dói muito escrever essas palavras porque não é fácil pra mim expressar que uma das pessoas que eu mais amei, na realidade, só existiu nas histórias que eu escrevi. Quero muito descobrir onde você estava esse tempo todo que me trazia a sensação de que você nunca estava por perto. E, quando estava, era tudo uma distração que, cedo ou tarde, ia acabar mesmo. Você sempre pareceu bom demais para ser verdade.

E acabou. E, sinceramente, eu fico feliz que tenha acabado. A culpa por admitir que você é só uma personagem é gigante, mas eu não consigo te definir de uma maneira melhor. A verdade é essa, você nunca existiu. Você sempre foi um trailer, uma sinopse, eu não sei. Mas eu sei que você nunca foi real.  E justamente por esse motivo, o tempo costumava passar mais rápido do que o normal quando a gente estava se colidindo, se pertencendo e tendo todos esses sentimentos cósmicos que, sim, foram reais. Eu só não sabia exatamente por quem eu estava sentindo aquilo tudo - não se confunda com outra pessoa, eu sou alheia demais para amar dois alguéns ao mesmo tempo. O que eu quero dizer é que, no fundo, eu amei alguém que, talvez, eu não conheça. Você conhece?



Eu odeio a solidão, mas preciso aceitar ela como parte de mim. Preciso reconhecer que todo mundo precisa um pouco de si e, meu deus, eu preciso desesperadamente de mim mesma. Me parte o coração te enxergar como um simples fator que contribuiu para a continuidade da minha história, mas eu não posso deixar isso prolongar mais do que o necessário. Deixei de acreditar em destino aos 16, quando você apareceu, porque eu aprendi que nada acontece só porque tem que acontecer. A gente se mereceu e se nutriu desse merecimento por muito tempo. Continuo não acreditando em destino, e justamente por esse motivo, eu digo: eu me mereço. E me merecendo eu te digo adeus, por um tempo infinito e indeterminado porque, esse livro, precisa ser escrito sem você.

E quando eu acho que não consigo sentir mais nada, que meu coração virou um puro lago de mágoas e feitiços, eu acabo descobrindo que sou a mesma de quando eu tinha 15 anos e escrevi, então, minha primeira obra. Minha primeira arte. Sobre a primeira pessoa que me fez descobrir que todos são, na verdade, meros personagens - por mais que eu só tenha percebido isso bem posteriormente. E você, meu bem, foi tão especial para fazer minha história ter sentido. Foi um catalisador fundamental nas minhas reações. Mas do mesmo jeito que você entrou, você terá que ir embora do jeitinho que eu não consegui fazer com ninguém até agora. E se quiser voltar, volte quando eu estiver branca, completa e sorridente, quando eu não for mais apenas fragmentos do meu passado que me impedem de escrever algo diferente.

Talvez você não seja igual aos outros justamente porque eu consegui deixar você partir e não deixei essa infantilidade de escolher não lidar com o fim me consumir. E é por isso que meus livros não têm fim. Por isso que meus poemas não têm pontuação. Por isso que, no final, eu não consigo ser amiga de quem "partiu meu coração" - uso aspas porque corações não se partem, se contraem, apenas. Dessa maneira, com essa despedida concreta - por favor, não volte, não agora - eu consigo me inteirar e morrer no meio fio para que, depois de morta, eu possa nascer para o abraço da morte.

Até tu, Brutus?! É com essa expressão que eu me declaro morta para que eu possa, assim, ir em busca da minha verdade. De quem sou. De quem nunca serei. De quem eu não quero ser. Te escrevo para contar o que descobri.