Outros

A festa da democracia

14:38


Leia ouvindo: Apesar de você - Chico Buarque

Para quem não me conhece, eu sou muito mais que uma blogueira que escreve textos de amor ou de auto ajuda para um blog na internet. Sou mais do que essa pessoa que vocês acompanham superficialmente nas redes sociais. E hoje, eu decidi honrar todos os caminhos que as mulheres abriram até o dia de hoje e gritar, com a voz que ainda resta, as dores e as conquistas que residem em mim. Não é por quê o que eu sinto não envolve um terceiro romanticamente que vou ficar calada ou vou guardar esse sentimento da maneira mais silenciosa que eu conheço - em 18 anos sendo cidadã, essa é a primeira vez que posso usar meu espaço da maneira mais sábia que eu consigo. Espero estar fazendo certo.

A festa da democracia, no Brasil, nunca esteve tão lotada. É lindo ver tanta gente gritando e fazendo barulho, seja de qualquer um que seja dos lados, é pra isso que nós lutamos - no passado e vamos continuar lutando no futuro. Lutamos para que você pudesse falar os seus ideais pela rua, usando verde, amarelo, roxo ou vermelho, qualquer cor, qualquer camisa, sem que sua opinião fosse condenada. Passamos 24 anos sem ler o que queríamos, sem ouvir o que queríamos e acho lindo que podemos usufruir disso ainda. "Posso não concordar com uma palavra do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de expressa-la", disse Voltaire há dois séculos atrás. Por que, logo hoje, essa frase me parece tão estranha?

Apesar do panelaço e do uso frequente da voz individual - é lindo, de verdade, ver tanta gente nas ruas defendendo o que acredita -, eu faço um trabalho árduo para continuar amando o Brasil, sem querer deixa-lo. Eu não o entendo. Não entendo 46% dele, pra ser mais específica. Sou professora de literatura, não ganho um centavo por isso e meu nacionalismo nunca esteve tão a flor da pele - já até aceitei que a identidade do Brasil é não ter identidade, é ser a casa-da-mãe-joana do mundo e ser feliz assim, arrastado, às avessas, indo até onde dá. Mas eu ainda assim, não entendo como os argumentos de união nacional podem se opor à própria unificação.


Ás vezes, dentro da minha família - e com família eu não quero dizer parentes, mas sim, pessoas que estão no meu círculo e querem me ver viva -, eu sou chamada de louca por acreditar tão arduamente no país. Por acreditar que a educação muda o mundo, por me espelhar na história e fazer de tudo para não repetir-la. Meu cristianismo nunca foi colocado tanto á prova, logo agora, que eu me coloquei disposta a amar a incompreensão brasileira. Mas eu ainda assim te amo, Brasil. E estou aqui e vou ficar aqui enquanto eu puder. E se não puder, eu volto.

Acredito que está na hora de usarmos o "complexo de vira-lata", aquele que Nelson Rodrigues falou na copa de 1950 após a derrota traumatizante para o Uruguai, ao nosso favor. Olhemos para os países mais experientes, que passaram pela dor que a gente nunca passou, que sofreram com a fome, com a morte, com a insegurança e vamos ouvir o que eles têm a dizer. O progresso não precisa ser sanguinário - mas será enquanto houver teimosia, orgulho e falta de empatia. Os livros de história não mentem, a literatura não mente e muito menos os sobreviventes do caos. Agora, mais do que nunca, é tempo de fazermos diferente. E diferente não significa necessariamente eleger um candidato novo - significa não repetir a história mais violenta que o país já passou. Ou você só vai perceber isso quando a dor bater na campainha do seu condomínio?

A ferida do Brasil é mais profunda. Somos um país que cresceu por conta de golpe atrás de golpe e nunca tivemos tempo de sofrer o luto dessas demagogias. Não existe gaze que estanque esse buraco. Não existe agulha que costure a falta de amor. E dói. Dói porque aconteceu. Dói porque não foi com você, mas foi com outras centenas de pessoas que falaram alto, que gritaram demais, que usaram vermelho. Dói porque é uma vergonha que nosso país não precisava ter enfrentado - mas enfrentou, e não aprendeu. Sinto muito se seu preconceito fala mais alto que seu caráter ou, no mínimo, que a sua consciência de que você precisa esconder isso pra ser uma pessoa sensata. Sinto muito que o ódio tenha dominado seu peito e que a esperança, pra você, tenha se tornado o simbolo de uma arma e não de uma pomba branca gloriosa. Sinto muito, mesmo, mas eu não te entendo.



Mas não te entender não impede que eu te respeite. Eu respeito seus gritos de guerra, ouço em silêncio, absorvo e até tento me colocar no seu lugar. Jesus, meu querido amigo santo que esteve comigo durante todo esse processo, sabe quantas vezes eu tentei pensar como você para tentar me aproximar, estabelecer algum laço e enxergar o mundo através do seu ponto de vista. Mas isso, infelizmente, é impossível. Não vivi suas experiências, não tive seus pais, não estudei com os mesmos professores. Mas no fundo, eu fico extremamente feliz que essas divergências ideológicas existam e que ainda somos autorizados a falar sobre elas em público. Voltei nesse assunto de novo, né? Desculpe. Mas eu já falei sobre como eu sou feliz por viver numa democracia?

Para encerrar, eu quero dizer que tenho medo. E não tenho vergonha em falar que estou com medo pois foi exatamente o medo que me tirou da estática e me reergueu, sussurrando, com aquela voz rouca e quase apagada: "amanhã há de ser outro dia". E não é que foi? Se as lágrimas escorreram de madrugada, hoje de manhã, o Sol nasceu e iluminou o futuro que eu, você e todo o resto podemos mudar. Entretanto, espero não dar mais força pro medo do que ele merece pois tenho medo - sim, eu tenho- de quem eu posso me tornar. Usarei do medo para dar meu último suspiro de resistência e se não for o suficiente, eu grito. Morro, mas grito.


Texto

O Paulista

12:42



Leia ouvindo: A Cidade - Cícero
Um dia, quando eu estava no metrô de São Paulo, provavelmente em janeiro ou fevereiro - não me lembro bem, apaguei parte das minhas memórias dessa época -, enquanto eu descansava meu pescoço no ombro de Matheus Cardoso, eu estava cansada. Por algum motivo, eu estava cansada, mas isso não é noticia, eu estou sempre cansada. Porém, ao mesmo tempo em que fechei meus olhos, entrou no vagão, um homem. Um homem machucado, com o braço engessado, os olhos caídos e cheios de bolsas. Mal cuidado, tadinho. Eu admito, esperei que ele entrasse e se aquietasse, ficasse calado. Mas ele fez um escândalo tão silencioso que quase não ouvi - mas talvez, eu tenha sido a única que ouviu alguma coisa. Não com os ouvidos, é claro. Ultimamente minha audição tem falhado muito - dádiva divina pra não ouvir tanta porcaria por aí.

Em um tom baixo, como se estivesse com vergonha de estar ali, ele contava que estava desde manhã cedo entre um trem e outro pedindo dinheiro para comprar leite para seus filhos. O vagão não estava vazio, havia uns gatos pingados, uns casais que conversavam, outros, como eu, cochilavam mas ouviam bem. Ele dizia como as pessoas estavam cada vez mais ignorando umas as outras e que, provavelmente, naquele momento, ele era invisível. Não pra mim, homem. Você existiu. Eu sei que você está aí. Eu olhava pra Matheus, na esperança de que ele falasse algo ou, no minimo, compartilhasse comigo daquele sentimento de existência. Daquela pena por ainda existir tanta dor no mundo. Porém ele continuava vidrado na tela do telefone jogando futebol, atingindo um novo estágio do seu vicio, mas tudo bem, o mundo precisa de espelhos.

Olhei ao redor, na esperança de cruzar com alguém que sentia o mesmo que eu - todos bem devaneiados, preocupados e despreocupados demais para se preocupar com a fome ou com o braço quebrado alheio. Depois de uns dias eu entendi que paulista é frio e cético assim mesmo, a culpa não é deles, é só o modo de sobrevivência. Pra viver numa terra tão gelada tem que ter peito e coragem - coisa que meu coração mineiro e mole não tem nem um pouco. Enfim. Eu continuava encarando Matheus na esperança de respostas, mas ele só preenchia o silêncio com um beijo. Quando ele vai aprender que eu gosto do silêncio? Gosto da dor que o silêncio deixa e gosto da energia potencial que ele carrega.



O homem, por sua vez, continuava suplicando seu capitalismo monetário, num infinito pleonasmo, e eu não podia, na verdade, não queria ajudar. Não sei ao certo o motivo, talvez por puro egoísmo, mas eu não fiz questão de dar a ele aqueles dois reais guardados que provavelmente, posteriormente, virariam kit kats. Continuei encarando o metrô e a cada pessoa que entrava, eu rezava para que elas me ouvissem. Rezava para que elas ouvissem o pedido do homem e se sensibilizassem com a realidade, que eu não era capaz de me sensibilizar a ponto de passar por cima do meu orgulho - por isso, escrevi. Eu sou escrota e possessiva, bem mais do que defendo ser.

No fundo alguma parte minha sente demais e não quer admitir isso - porque, afinal de contas, eu queria fazer parte do grupo de paulistas frios e ignorantes daquele vagão. Talvez eu que seja a idiota que acredita na comoção. Talvez nada seja real e eu não esteja acostumada com o cotidiano paulista. Talvez o mundo seja muito pior do que eu plasmei - talvez. Mas isso não me impede de que, apesar das súplicas, eu transforme o discurso em palavras. Transforme o silêncio em palavras. Não sei muito bem, ainda, o que aquele homem me ensinou. Não sei ao menos se ele me ensinou alguma coisa. Mas sei que ele me disse algo que eu não entendi muito bem; mas ouvi.

São Paulo, Tarsila do Amaral (1924). Queria enxergar tão colorida igual Tarsila pintou.

cabeça bagunçada

Levamos os sonhos a sério demais

17:04



Leia ouvindo: Explodir - Rubel

Há uns anos [atrás] eu criei um sonho pra mim. Li num livro, vi alguns vídeos, achei que seria uma boa ideia deixar tudo pra trás e começar do zero - eu mal sabia que eu estava no -2 nessa cronologia toda. Um dia, a angústia bateu mais forte que o sono e eu passei a madrugada pensando: "e se esse sonho não for real?". Nesse dia, alguém me disse que levamos nossos sonhos a sério demais. Eles, de fato, merecem nossa energia integral para que possam deixar de serem sonhos. Mas uma parte de mim está em jogo. Uma parte das minhas lágrimas que derramo no banho, de saudade antecipada, provavelmente vão cair por mais alguns anos. Quanto tempo eu aguento?

Não tenho conseguido escrever. Estou lutando contra as minhas pálpebras pesadas e a vontade de deitar para colocar pra fora um pouco, nem que seja uma gota de suor, do que tanto ocupa meus pensamentos e faz com que eu me sabote de vez em quando. As coisas se superam, cada vez mais. E com coisas eu quero dizer raiva. Quando eu achava que eram as provas - muito além das escritas, eu digo, as provas diárias -, eu percebo que meu cansaço está encrustado, como uma joia bem feia, bem barroca, numa pedra de mármore escura. Cansei de escrever, eu acho. Cansei da arte porque a arte me abandonou, tornou-se apenas teoria e perdeu o seu sentido de me tirar do fundo do poço. Eu cansei de tentar.

Ás vezes, eu pinto. Minha aquarela mais recente foi um peixe. Pintei-o pois senti uma compaixão enorme por esse ser que nasceu para desbravar seu ecossistema, mas que, na maioria das vezes, vai parar num prato de sushi. Seria insuportável, pra mim, se eu tivesse o dom da liberdade e me tirassem apenas para servir, com base na dor e num sofrimento que, apenas pelo fato de não ser expressado por palavras, as pessoas acham que não existem. Existe um peixe dentro de mim que eu mesma devoro. Corto as branquias, tiro os órgãos, fico apenas com o que é saboroso pra mim mesma - mas o resto, não importa.


Quando, raramente, escrevo, é sobre ela: ah, meu deus, ela. Não diria que estou apaixonada, longe de mim entrar nesse abismo de novo. Mas é que, nos raros momentos em que eu não me sinto cansada a ponto de parecer que se eu encostar a cabeça eu vou dormir, ela sempre está ali para afirmar que a única pessoa que me impede de realizar meus sonhos sou eu mesma. Me bate uma raiva quando alguém me fala isso. Ah, então quer dizer que a culpa é minha se Deus me odeia?, penso. Na verdade, é sim. Levei meus sonhos a sério demais, e agora não consigo me desprender da história perfeita que criei pro meu futuro. Tomara que tudo dê certo, mas se der errado, que dê errado com glamour. Aquele errado digno de livros e filmes e, nesses tempos, seriados,

Voltando aos sonhos: os tenho. Tenho tantos mas que, no frigir dos ovos, se resumem a um só. E esse um só que me impede de realizar todos. E esse um só é meu maior empecilho entre mim e eu mesma. Essa pequena Bárbara que, aos 12 anos, achou que seria tudo bem sonhar demais, provavelmente não sabia dos efeitos colaterais. Não sabia que ela não estaria sozinha - nunca esteve - e que, no fim, se sentiria amada. Tão desapegada, coitada, não imaginou que daria seu primeiro "adeus". Os laços, no fim, são reais, e como é bom ter amigos.

As coisas ainda estão muito confusas pra mim porque eu deixei a intensidade de lado - mas isso não significa que estou mais racional, muito pelo contrário. Se eu pensar demais, eu surto, eu desisto, sei lá. Mais uma vez, eu repito, o cansaço me pegou e eu não consegui fugir. Só quero que tudo acabe e que eu possa deixar pra trás um pouco do passado que me estressa e um pouco do futuro que me impede de aceitar o que tiver que vir. Um recado eu deixo, para eu mesma, caso eu tenha partido: faça valer a pena. Você deixou que você mais ama pra trás.

Mas, como eu ainda não sou a mulher mais forte que pretendo ser, preciso pisar no meu orgulho e pedir ajuda Àquele que, provavelmente, é único que não vai me chamar de fraca se eu me perder no caminho, visto que nem eu me escapo desse rótulo. Portanto, querido Deus, por favor, não me abandone. Não agora.

cabeça bagunçada

O Sufoco

14:30


Leia ouvindo: Changes - Seu Jorge

O universo se cria todos os dias e todas as noites ele se aborta. Assim, parece que essa é uma frase tirada de algum livro do Paulo Coelho ou algo do tipo. Mas não, isso é ciência. A física me faz pensar muito mais do que eletromagnetismo - coisa que eu só penso uns dias antes da prova. Me peguei, porém, refletindo sobre essa condição do universo durante algumas horas e tentei aplicar pra dentro de mim. Sempre pensei em como eu sou um reflexo direto de tudo o que acontece no mundo, mas, por incrível pareça, não encontrei resposta alguma sobre isso. Não consegui reconhecer meu aborto diário, não consegui aplicar meu redescobrimento periódico.

Eu tenho buscado um pouco mais o silêncio. Algo dentro de mim sempre pediu para preencher os espaço vazios com alguma coisas, qualquer coisa - qualquer coisa é melhor do que nada. Mas de uns tempos pra cá, com tantos espaços vazios pra preencher, eu comecei a sentir algo que nunca senti antes: sufoco. O sufoco é algo que, aos 9 anos, senti quando um amigo - hoje amigo, naquela época, inimigo mortal - tampou meu nariz e minha boca na esperança de que eu me calasse. Aos 13, perguntaram se eu era gestante quando cheguei ao hospital, enrolada em toalhas, sangrando, após ter sido estuprada - não consigo achar uma metáfora pra isso. Aos 16, quando percebi que minha adolescência e minha inocência se perdeu por completo no meio do caminho. E aos 18, quando dei um nome pra ele.

Ultimamente, o sufoco vem em forma de dor de cabeça, olhos pesados, lágrimas que seguro achando que, se eu começar a chorar, nunca mais eu paro. Acumulei tantos sufocos ao longo dos anos que hoje ele é uma parte de mim que tive que aprender a conviver, por bem ou por mal. Por isso sempre achei que ele não existia, que esse sentimento é inédito, confundia-o com cansaço. Eu sempre estou cansada, oh céus, quem eu quero enganar?

Mas eu estou sufocada. Sufocada pelas palavras horríveis que ouço durante o dia e tenho que fingir que elas não foram ditas. Sufocada pelas esperanças depositadas em mim, que na maioria das vezes eu mesma coloco, e eu não consigo me suprir. Sufocada pelo ambiente fechado e pelos litros de água que derramam enquanto eu busco, frequentemente, uma bolha de ar que me forneça um pouco do volume de oxigênio disponível em seu interior. Sufocada por não conseguir ler um livro por pura e simples vontade de ler um livro. Sem precisar entender nada, pensar, fazer resumo.



As palavras vem meio mortas, digo, tortas. Sinto, às vezes, que minha alma foi esquecida no mundo das ideias e tudo o que eu sou é pura matéria orgânica esperando o vencimento para entrar em decomposição. Onde ficou toda a profundeza do que eu sinto? Onde estão todos os meus sentimentos? O sufoco me sufocou tanto que eu me tornei o próprio demônio engolindo suas vítimas. Eu não sou a vítima, eu sou o demônio - sou os dois. O Sufoco - coloquei em letra maiúscula já que o personificamos - me fez acreditar que não olhar pros meus problemas iriam fazer com que eles não existissem.

Pois veja, Bárbara. Você tem dores. Você tem amores profundos os quais sente falta. Você tem sonhos e você tem um sonho gigante - mas pare de viver por ele, por favor. Você sente a dor física da angústia, e tem enxaqueca, não gosta de dipirona, sente cólicas, menstrua, tem TPM, inferno astral, o eclipse foi esses dias... Você, ainda, é um ser humano. Você ainda precisa da língua. Você ainda precisa do tempo. Você está dentro da caverna e acredita fielmente que as sombras são a única realidade que existe. O conceito de amor próprio é muito mais amplo do que sair de um relacionamento que não te faz bem, ou manter uma rotina semanal de hidratação no cabelo - mas que isso é um grande passo, é.

Tá na hora de tirar os chicotes nas costas e, no mínimo, acolher esse sufoco que tanto prende as lágrimas e as palavras dentro de uma caixa. Alguém, não sei quem, lhe obrigou a guardar essa sua essência intensa por muito tempo e agora você precisa gritar. Grite. Grite aqui mesmo que PUTA QUE PARIU, porra. Grite que você só quer dormir, só quer um tempo, quer que tudo acabe logo mas sabe que nunca vai acabar porque, vai tomar no cu, desgraça, a vida é um ciclo eterno de frustrações.

E tem algo de errado com isso? Não. Eu só não entendo o porquê.

No fim das contas, eu me reinventei hoje e durmo agoniada sabendo que, no final do dia, eu vou me abortar. Mas com um fio de esperança de que eu sangre até virar a única coisa que restou de mim, que minhas hemácias sobrevivam para contar a história. E que minhas palavras não sejam infinitas - mas que sejam eternas enquanto durem.

cabeça bagunçada

Feliz ano novo

14:54




Leia ouvindo: Closing Time - Semisonic

Há uns dois dias eu fiz 18 anos. Entretanto, com a correria de festa, correção de provas e o término de um namoro bem no dia do meu aniversário, eu acabei esquecendo de escrever sobre isso. Sobre mim. Sobre como, há 18 anos atrás, nascia a pessoa mais importante da minha vida: eu. E não me julguem pelo egocentrismo exacerbado, pois apesar de ser uma canceriana digna e descrita fielmente, eu nasci na transição entre câncer e leão, então, por isso, não se assustem quando eu ficar vaidosa e narcisista demais - eu sou assim mesmo. Comecei achando que a entrada desse novo ano viria repleta de conturbações e sinais de que acabei de chegar na pior idade da minha vida. Por que, meu jesuszinho, eu tive que quebrar meu próprio coração e, consequentemente, misturar vinho com chopp no dia 21 mais importante do ano? Pois bem. Foi nessa superação rápida de menos de uma hora que eu entendi sobre o que seria esses novos dois dígitos que me perseguirão pelos próximos 365 dias: não pensar demais e não levar a vida tão a sério.

Durante o ano todo eu decidi que iria escrever um post sobre as 18 coisas que aprendi com 18 anos. Porém, a semana foi tão pesada que não consegui refletir sobre isso enquanto pego sol na minha varanda, deitada na rede, apreciando as montanhas de Nova Lima - vou sentir muita falta dessa vista, pensei. Só consegui, por sorte, ler por puro desprazer e, ah, não me lembro muito bem. A questão é que, a coisa mais importante que eu aprendi é que, em determinado momento, crescer deixa de ser um evento e passa a ser inerente ao ser. Ou seja, quando você vê, oh! algo não te incomoda tanto quanto antes. E assim foi, aos 18 anos, sendo que desses, pelo menos 12 eu passei na terapia conversando sobre a ausência da figura paterna na minha vida e como isso me impedia de ter um relacionamento saudável com qualquer homem que aparecesse. E quer saber? Foda-se.



Enfim, acabei me esquecendo de falar sobre mim e sobre o que eu espero desse novo ano. A real é que eu me acostumei tanto a escrever sobre aniversários, desde que eu criei esse site incrível que, entre rancos e barrancos eu chamo de "blog", que fico até com medo de estar repetindo sempre o mesmo clichê. Pra você, querido leitor, que chegou na minha vida agora, saiba que eu falo a mesma coisa todos os anos que eu faço um ano a mais - ou um ano a menos. Falo que cresci muito de um ano pra cá, que a Bárbara de 2014 teria orgulho de quem eu sou. Mas, assim como eu aprendi com a Mariana Lima em "Cérebro Coração": o intuito aqui é não entender nada. Se desde sempre eu me intitulei como arte divina, que Deus ou Anubis ou seja lá quem for que me colocou no mundo pra fazer bagunça e gritaria, então, me permita que essa nova idade seja completa de interrogações e berros e inconsequências que só a juventude - que, meio precocemente, eu tentei me distanciar - pode me proporcionar.

Eu sou estranhamente grata por ser quem eu sou e sei que fazer 18 anos não significa muita coisa nos dias de hoje. Mas eu me lembro de ter 12 anos e plasmar o futuro, pensando em onde eu estaria daqui seis anos, com quem, o que estaria fazendo. E cara... deu tudo errado! Quero dizer, para a Bárbara de 12 anos, talvez, não seria tão gratificante passar o aniversário da maioridade dando aula de arte antiga para adolescentes - de incríveis 18 anos. Mas o que importa é que a Bárbara de 18 anos ama a Bárbara de 18 anos e a de 12 e a de 15 - que se perdeu um pouco no caminho e tudo bem - e vai amar ainda mais a de 19 que não faz ideia aonde vai estar.

Essa história, apesar de curta, conta pra mim mesma todas as vezes que eu tive que lutar para ser muito melhor do que eu acredito que posso ser. Minha psicóloga fala da importância de reconhecermos nossos feitos e termos orgulho da nossa coragem e, hoje, apenas hoje, 18 anos depois, eu consigo olhar pra trás e reconhecer a mulher incrível que está ali, no espelho, lavando o rosto e passando protetor solar todos os dias de manhã. Não sei se me amo, não sei se um dia vou amar. Mas sei que eu estou aprendendo, aos poucos, a me apaixonar por cada parte minha que ninguém foi capaz de amar.


cabeça bagunçada

Minha casa

07:06




Leia ouvindo: Baleia - Casa

Alguma parte de mim, mesmo que bem instintiva, gosta de quem eu sou. Depois de muito tentar apaziguar a briga interna entre o sol em câncer e o vênus em leão que interfere diariamente na minha vida, eu decidi sempre me olhar no espelho e abrir as minhas próprias portas. Todo dia eu descubro uma coisa diferente, uma rachadura, uma mancha, uma goteira. Esses dias eu percebi que tenho duas pintas perfeitamente simétricas, uma em cada lado do meu rosto. Acabei aprendendo que não preciso gostar de cada espaçamento do meu corpo - inclusive, acho realmente estranho que meus seios se separam por, literalmente, um palmo de distância. Mas amo o fato de que todos esses defeitos são meus e só meus. A união de todos eles, a fórmula química que me transforma na única pessoa existente no mundo que possui exatamente essa sequência de predicados.

A luta meu pelo auto-conhecimento não começou quando eu descobri o feminismo, por exemplo - começou bem antes. Começou quando eu, com dois dias de vida, tive que lutar para continuar viva e mudar o mundo. Eu me prometi - sim, eu lembro disso - que, se eu vivesse, eu iria fazer o mundo valer a pena. E hoje eu valido cada conquista que eu fiz nesses anos que parecem séculos pra mim - será que, a medida que a gente cresce, o tempo passa mais rápido? Estranhamente, sim. Aqueles dois dias entre a vida e morte duraram mais que esses 18 anos que eu carrego nas costas e esses 18 anos que eu carrego nas costas são eternidades quando comparados à meu futuro idoso e tedioso que eu espero ter assim que eu falar: "Pronto, eu fiz o que eu podia para tornar o mundo habitável".

Nisso, entre uma risada e outra, uma perna bamba e choro livre, entendi que eu sou minha própria casa - provavelmente, daqui alguns anos, quando minha literatura tornar-se didática, alguém vai fazer uma apresentação de slides sobre mim e colocar nas características gerais que eu só falo clichês óbvios, mas importantes. Eu cuido de mim, varro sempre depois do almoço, lavo a varanda, decoro as paredes e me deixo extremamente confortável para eu possa descansar em mim mesma sempre que o mundo lá fora fica pesado demais. No fim de tudo, eu me tenho. E isso basta de uma maneira absurda e inexplicável.



Ás vezes eu recebo visitas que me desarrumam. Tiram os móveis do lugar, inundam o banheiro, deixa tudo fedendo e cheirando a desgosto - já escrevi sobre isso algumas vezes, e tudo bem quando isso acontece. Mas na maioria das vezes, recebo visitas incríveis que sempre trazem um vasinho de planta que eu deixo pegando Sol na janela da cozinha. Eu amo o fato de que minha vida é um livro aberto e eu posso contar pra todo mundo que passa o que tá acontecendo aqui dentro, sem sentir que alguém vai me invadir a qualquer hora pois eu tenho as proteções necessárias para dizer: "Pera lá! Aqui não!".

No fim, eu amo cada pedaço do meu corpo e cada parte da minha personalidade que faz com que todas as pessoas que, por algum motivo, vão se referir a mim em uma conversa de bar, digam: "Você conhece a Bárbara? Aquela lá, a louca e estranha". Gosto da minha barriga que já absorveu tanta carne que cansou. Gosto do meu sangue que escorre palavras e dores, mas sabe a hora certa de estancar. Gosto dos meus olhos que se fecham a cada sorriso, para guardar bem guardadinho aquela memória que me fez rir. Gosto da nudez e da arte que é escrevível em cada centímetro quadrado do meu corpo. Gosto do jeito que eu flerto e transo e amo e me apaixono comigo mesma, a cada dia, de um jeito diferente e sempre falo: "Oi... você vem sempre aqui?".

Sei que ainda preciso aprender a cuidar um pouco melhor de mim - eu não sei comer direito e muito menos sei a hora de parar de beber -, mas sei que tudo isso é um livro inteiro que preciso escrever para aprender a lidar com essa casa que ainda falta umas partes para serem cobertas de gesso. Sou simples, mas cheia de significado subjetivo que precisa de um dicionário próprio para entender cada vírgula, cada filosofia mau-dita que, vira e mexe, saem da minha boca durante uma discussão. Odeio isso e aquilo, mas, num geral, eu consigo me reconhecer no espelho.



cabeça bagunçada

A Solitude

08:03



Leia ouvindo: Vermelho - Marcelo Camelo

De uns tempos pra cá, como é perceptível, eu venho tentado descobrir como lidar com uma saudade que precisa ser acumulada. Tento escrever, de vez em quando, mas nem tudo parece se resolver com palavras. Estou cada vez mais próxima de encerrar uma fase da minha vida e, ao mesmo tempo que fico feliz em pensar num recomeço, eu fico assustada. Um pouco apavorada, até. Sempre tive a sensação de que a vida é vazia e sem significado - sem querer parecer niilista ou algo do tipo, é só um sentimento frequente - e não têm sido diferente agora que tudo (tudo? quase tudo) mudou. Me parece mais uma luta constante, uma batalha sem fim. Pra quê? Pra nada. Entendo meu niilismo, na realidade, não me culpo.

Então, desde que eu fui obrigada a me restabelecer no mundo - esporadicamente a gente se balança e se acha de novo - tenho sido completamente intolerante às coisas. Sempre escrevi muito sobre a solidão e sobre como eu não a suporto. Parecia um peso, uma dor, um castigo da igreja católica por ser mais do que eles esperam de mim. Mas agora, agora que troquei a solidão por solitude, não suporto ficar perto tempo demais de pessoas que, antes, me faziam tão bem. Aparentemente me faziam bem. São poucas pessoas que eu ainda tolero, mas, mesmo assim, me sinto sufocada pela perda de espaço. Então é esse o amor próprio que as pessoas tanto me falavam sobre? Essa falta de paciência constante com a humanidade das pessoas?

Eu gosto de me relacionar com os seres humanos - apesar de não saber, sou tão inconstante quanto a física, a química (ciências, até então, exatas) - e sempre foi meu fascínio buscar a sociologia dentro de cada um. A psicologia. O espiritismo. Qualquer matéria não-material que me prove que, no fundo, o mundo ainda tem salvação. Mas por algum motivo, por mais que eu queira, por pura e extrema vontade, conhecer a profundidade de outros alguéns, agora, eu tenho pavor em pensar que esse meu espaço possa ser invadido e tomado - de novo, como já fizeram antes.


Talvez eu seja só um desses cachorros abandonados que, de tanto apanhar, saem correndo quando alguém levanta a mão. Depois que conheci a imensidão da minha alma e como ela é aconchegante sendo solita - esse adjetivo, infelizmente, não existe, mas de tanto pensar nessa palavra eu mesma acabei inventando graças à licença poética -, pelo menos por enquanto, quero agradar minha casa e me arrumar bonitinha para, adivinhe só, mim mesma. O silêncio nunca foi tão precioso para mim e para os meus pensamentos que não param um minuto se quer. Agora eu consigo ver as montanhas - montanhas não, serras - da minha cidade e pensar: elas sempre estiveram aqui? nunca as vi.

Tudo é mais simples do que parece: eu sempre repeti e repeti que preciso de um tempo mas eu mesma nunca me dei esse tempo, oh, tão necessário. E meu coração, gentil e carismático do jeito que ele é, me obrigou e tirar esse tempo e, por isso, agora, eu tenho preferido muito mais meus filmes e livros do que relacionar com pessoas que mais me parecem uma ameaça para minha paz. Obviamente, não vivo numa bolha que me possibilita fingir que nada está acontecendo e que não vou ter que viver em sociedade pelos próximos, se eu tiver sorte, 60 anos da minha vida. Essa bolha interna que eu mesma criei é o motivo pelo qual eu chego em casa exausta e dando graças às Deus todos os dias às 12h30min. Mas, paciência. Não acaba nunca.

É um processo de transição que explora os extremos para encontrar o equilíbrio. Minha terapeuta insiste em dizer que existem várias possibilidades entre um polo e outro, mas, para eu escolher onde quero ficar, preciso caminhar por toda essa linha imaginária que pode, no final, nem existir - olha só o meu niilismo novamente. Sinto saudades, sinto falta, mas depois de alguns minutos, sinto preguiça. Sinto um vazio profundo, como se eu estivesse sendo invadida. Então, logo em seguida, coloco os rabos entre as pernas, a cabeça entre os braços e finjo que minha cama é feita pra você também, fique à vontade, você não atrapalha. Sinto muito, mas você atrapalha sim. Me deixe em paz, por favor?

No fim das contas, eu gosto de mim mas não muito. Gosto de quem eu me tornei nesses últimos três meses: alguém quase independente, que se contenta com o simples e gosta de dar umas risadas às vezes. Mas não gosto dessa fase cíclica irritante que, ora eu gosto de estar sozinha, ora eu tenho pavor de ficar sozinha mas não chegue muito perto senão eu me quebro. Não que eu seja frágil, longe disso. Meu casco nunca foi tão duro. Acontece que, até que eu tome posse real dessa minha força que, aparentemente, nasceu comigo, preciso que fiquem longe. Sou uma obra de arte - sem flashes, não me toque. A arte se basta por si só.