"Amor"

Quem nunca se foi

07:39

girodentado:  “-  ”



Leia ouvindo: Cananéia, Iguape e Ilha Comprida - Emicida

Fiquei alguns dias dizendo para mim mesma que eu não tenho nada para te falar. De certa forma, eu realmente não tenho - sempre quando começo a escrever, paro no meio pois sou tomada por uma certa insuficiência vocabular que não se aproxima ao que eu sinto, muito menos ao que eu quero sentir. É estranho assistir sua vida de fora e perceber que esse cenário é distante do que eu vivo. Frequentemente, fecho os olhos e me recordo de um presente-passado com uma cama que a gente compartilhava, com as doloridas caminhadas de domingo, com a delícia do anti-alérgico que me permitia dormir um pouco mais. Com você, do lado. Me sentia infinita.
Mas, acredite ou não, não é disso que eu sinto falta. Não sei se é a falta que eu sinto de verdade ou se é apenas o desacostume de viver a vida liberta. Sei que sempre fui uma pessoa muito livre - comigo mesma e até mesmo com os demônios que me habitam -, entretanto, a liberdade que descobri é nova. Como é estranho não estar presa e não estar doendo. É isso que mais me deixa boquiaberta: nada dói. Se doesse, talvez, seria mais fácil denominar todo esse fluxo de consciência e eu poderia falar: "você me machucou..." mas não. Sua ausência foi a luz branca que me abraçou durante todas as noites penumbradas e saber que você me vigia - e te vigiar - me faz querer te tocar apenas para ter certeza que você ainda existe.
Talvez, se você for embora e a gente se tratar apenas como um marca-páginas bonito, talvez, a gente se esqueça e não é isso que eu quero - quero a memória da diáspora e quero a esperança do futuro enquanto eu não conseguir te encaixar nos dois extremos do meu corpo. Meu corpo chora sempre que pensa em você. Admitir isso assim é fraco e eu cheguei muito longe para restabelecer as ladainhas que tanto ignorei todos esses meses. Mas isso fica de lição: não dá para ignorar o que é verdade. E a verdade é que me enfiei no labor de martelar coisas que inevitavelmente vieram a tona. Eu não quero ter que lidar com isso. Quem sabe a Bárbara do futuro encontre as maneiras de sair desse labirinto bem desenhado e enfrente, de uma forma que eu, hoje, não consigo enfrentar, os conflitos entre o céu e o mar que, inevitavelmente, são meus.
Quantos advérbios, meu Deus!
             A brincadeira da melhor perspectiva

Mas eu tenho muita coisa para te contar e, ao mesmo tempo, não quero desenvolver nada. Não quero colocar as palavras em uma ordem, não quero escrever nada que faça sentido. Eu gostaria de encarar a sua presença no ressinto e poder dançar a noite inteira te olhando e sabendo que você me olha também. Quero poder encontrar o sentido da chuva fora do seu quarto e quero apenas pegar na sua mão e me despedir temporariamente pois uma parte minha quer muito te reencontrar - enquanto a outra, revira os olhos sempre que você aparece.
É como se a calma tivesse encontrado um som . Finalmente posso deitar e ter a beatitude de quem vive e vive plenamente em prol da própria vida. Não busco pois cansei de buscar. Entretanto, é revelada a hora de acordar e percebo que ainda é noite, por volta das três. Muito tarde pra voltar a dormir e muito cedo para me levantar. O meio termo é o som do grilo que esqueceu o cobertor do lado de fora - deitada, propriamente acompanhada de mim, ouvindo aquelas vozes-sonoramente-nulas que ditam e ditam e ditam e eu sequer sei de onde vem isso tudo. Enfim, a paz não é a não existência do caos. A paz é o caos sendo resolvido mecanicamente e da forma mais calorosa possível.
Meus conflitos internos, que viraram cartas de amor, hoje, perseguem toda a pele e todo pêlo que tenho mas finalmente encontrei uma gota de resposta. É incrível ser átona. É perfeitamente belo viver em cima da corda bamba que balança para lá e para cá mas o peso nos meus pés e o peso do mundo são excelentemente paralelos e então: fico.
É saudade. É a combinação perfeita entre saudade (boa) e saudade (ruim). É a mensagem que digitei e não enviei (ou pensei e não digitei (ou nem cheguei a pensar)). É a surpresa que me faz sair pulando da aula de literatura. É o "sei lá" que faz, curiosamente, tudo fazer mais sentido. Encontrei, em mim, veja bem, tudo o que precisava para não me sentir afetada com o mundo em si: é o som. O tic tac. A leitura em voz alta que compõe o ritmo das batidas do meu seio cheio e repleto - quando eu achava que eu não seria mais capaz de amar, penso o contrário. Ao contrário, me aparece a fome e a cena de quem está crescendo como um camaleão ou um polvo que fica se adaptando de ambiente em ambiente mas em casa, descanso. Nunca dei tanto valor aos meus olhos fechados - mas como eu gosto de me abrir pro mundo! Seja bem vindo: apesar das mudanças, continuo a mesma.

Tema

12:19




Falar, ultimamente, tem sido mais fácil que escrever. Comecei a gostar da volatilidade que um som, um simples som, tem a descapacidade da permanência. Gosto da leveza dos barquinhos de papel e do poder que eles tem de tornar qualquer abismo mei calmo demais, até como se fosse uma maresia com brisa e tudo mais. Desenvolvo mais. Sou mais fluída e até mais lógica - a ironia, seria se, agora, você percebesse que estou escrevendo igual escrevo normalmente e não me assusta ser tão obstruínte no meu próprio padrão. A cabeça dói de lágrima - que não exigem de mim mais do que um olho aberto e o outro fechado -, estou suada como quem sua quando fala em público e veja, falo muito. Grito em público pois minha voz é alta por natureza e isso me causa uma rouquidão natural que, num passado antigo, resultou no salto de sopranno para contralto mas que agora é meu charme, um charme que quase ninguém percebe mas que eu gosto pois é meio misterioso, meio anasalado, eu falo em segredo o que eu falo em voz alta mas nada sempre é tão claro a ponto de ser óbvio. Eu não sou óbvia. Tanto não sou óbvia que até agora você não sabe do que é essa crônica - ou conto, ou poema-prosa, ou poesia-concreta. Tanto não sou óbvia que minhas indagações não possuem nem trilha sonora, não possuem tema, não possuem letras sequer. É inexistente. É tudo uma interrogação imensa de quem apenas curte a companhia da ladainha que rasteja e planta larvas e nascem insetos que brotam e falam e falam e falam. Possuo grilos de estimação atrás das orelhas quando, na verdade, eu deveria ter as borboletas que cultivei. Cultivei não: mantive em cativeiro pelo medo obscuro de ser o maior pesadelo da vida delas. As asas tão azuis, os brilhos tão ofuscantes, a estática tão emancipada que no fim... morreram de desgosto, assim como eu hei de morrer um dia. De desgosto. Mas continuo meu mistério sem falar de insetos pois minha relação com a biologia é dual pois me casei com ela (sou ser humano) e tenho um caso contínuo com o imaterial porque, como é sabido, eu gosto do que não existe. O inventado é divertido porque é mais correto. O imaginário corrompe a luta mas isso não impede que o estômago crie suas próprias borboletas. Isso não impede que esse texto seja sobre... bom, deixa pra lá.
Hoje, no almoço, comi batata baroa e farofa de couve enquanto conversava com uma amiga sobre Jesus. Depois tomei milk-shake de chocolate. Assisti uma palestra. Tomei uma cerveja gelada. Fui à terapia. Estou aqui. A solução está entre os pontos e conjunções que usei para descrever uma tarde simples e que, veja, me resultou em dores de cabeça, suor e um odor de gente quase desumano. Sinto nojo de mim mesma quando fico em Belo Horizonte até tarde da noite - as pessoas de lá são quase que desesperadas pelo descanso, o que é bom, ao contrário de outra-cidade-que-não-deve-ser-mencionada, onde as pessoas se desidratam pela não-paratitude. Estou esperando uma mensagem de alguém sendo que não há ninguém e, Deus, eu preciso de um banho. Preciso de uma praia. Preciso de querer algo que esteja ao meu alcance pois chega, chega de querer sempre mais e mais coisas que eu não controeo. Ai, cansada! Veja bem, a escoliose da mulher de 19 anos por carregar os próximos 80 anos nas costas é maior que a saudade que eu sinto de conseguir ser linear e mostrar um ponto que é tão simples mas talvez eu sinta tanta vergonha de admitir que prefiro não me comprometer com uma certa interpretação.
Esse texto é sobre parnasianismo? Sim, claro.
É uma crítica contemporânea à necessidade de estabelecimento de uma nova ordem mundial? Pode ser, com certeza. 
É sobre um monstro que habita os alvéolos do seu pulmão? Não garanto. Mas não fumo.
Percebe? É tudo muito misturado. Ao mesmo tempo que me emociono com a criança profundidade de Fernando Sabino, sinto labaredas estranhas e uma solidão repentina e irreal toma conta de todos os pelos de meu corpo. Escolhi pelo agramatical e pelo amatemático. São duas coisas opostas e igualmente erradas. Gosto muito do Arnaldo Antunes e sinto medo de morrer. Meu maior sonho é morrer de morte morrida e abrir o olho e sentir nada. 
Preciso descansar. As borboletas estão agitadas. 

"Amor"

A vidente

17:43

Foto com tule sobre o rosto


Leia ouvindo: Te vi - Tagua Tagua 

Há tempos não dou as caras às palavras. Faz dois meses, talvez três - quase três - que as palavras se tornaram meu objeto de estudo, distanciando ainda mais do que já era um refúgio penumbrado, esquecido, apagado. Mas às vezes me lembro de quem sou. E me lembrando de quem sou, acesso diversos botões que ficam inacessíveis na maior parte do tempo, mas que se envermelhidam quando abro o dicionário e me deparo com uma palavra nova na qual nunca ouvi falar. Minha matéria favorita na faculdade é a sintaxe porque a literatura me destrói - de escritor para me tornar miserável já basta eu.

Mas não irei falar de palavras. Estou cansada - realmente cansada, o que talvez seja o principal motivo para me fazer ter preguiça de escrever - desse pleonasmo, dessa metalinguagem constante que por mais prazerosa que seja, é óbvia. Palavras por palavras e a arte pela arte, mas e eu? Falarei, portanto, da dor constante que me assola e que andei escondendo por trás de pilhas e pilhas de teorias da narrativa e redações para corrigir (se em cada nota que eu dou acompanhasse meu mecanismo temporal e remoto, seria diretora daquela escola pois todos sabem que o que vale é a sua rapidez para falar a verdade). Contarei, por fim, do dia que fui em uma vidente em homenagem à minha personagem favorita da literatura, Macabea, responsável por todos os desastres e desencantos que tenho com a língua. 

Fui numa vidente pois estava infeliz. Essa dor já mencionada, que assola o peito e que costura automaticamente as maneiras de viver com essa dor, estava medicinalmente impossível de ser curada e freudianamente explicável mas sem resoluções concretas. O misticismo me pareceu autêntico, me pareceu certo. Não foi sequer físico. A psique, as onomatopeias, as formas de pensar e até mesmo a densidade do ar era a resposta que eu precisava para a dor que assolava o peito - um nome! um nome, um rosto, um endereço (se quiser eu lhe passo mas você precisa me prometer nunca aparecer lá).

Um dia eu escrevi tanto sobre isso que acabei solucionando o problema do trauma. Já não sentia. Não me lembro das cores, veja bem, das cores das casas, do barulho da rua, não me lembro qual era seu nome completo ou qual linha se pega para chegar naquele endereço (mentira. disso eu me lembro bem). Subi em tantos prédios e não consegui ver nada além de serras. Me senti na catapulta da corrente de convecção que não tem exatamente para onde ir, mas continua e continua e continua numa recursividade infinita sem ponto final. Que agonia! Dor é verbo? Doer é verbo, é sabido. Mas será que não existe um jeito de classificar essas coisas que se fingem de estado mas na verdade são parasitas que se disfarçam de lágrima para atacar de madrugada junto com aquele tesão inexplicável e a mensagem que você não deveria ter mandado?

                    - Grécia antiga -   #   - Milch - #antiga #Grécia #Milch

Eu poderia te classificar como algo recorrente e sólido, mas tenho medo que te padrozinar lhe dê mais importância do que você realmente tem. Você sabe que você é você, não sabe? O jeito como eu sinto e como eu vivo tem mudado tanto que eu não sei nem se eu sou eu mesma, espero que isso não lhe ocorra. Passei anos sendo alguém que não reconheço e talvez o que tenha ficado na escada da sua casa seja uma versão minha que não existe mais. E por mais que essa tatuagem nova grita para ser mostrada (olha pra mim, eu preciso ser amada, sou tão pós-moderna-quebradora-de-padrões!), por mais que cada âmago do meu ser pede por sua aclamação e um certo cheiro no ouvido, eu não sei ao certo quem você é também. Isso deveria me angustiar; mas me conforta - quer dizer que nenhum de nós existiu, então. Quer dizer que as noites que acordei com sede nada mais eram que a falta desesperada que eu sentia de mim mesma. Posso, finalmente, acordar

Não é como se essa descoberta fosse a eureka de minha vida - eu sempre soube que tinha algo errado com você quando eu tentava te tocar e minhas mãos atravessavam os seus braços e você parecia não responder. É mais complexo do que a inexistência - se fosse apenas isso, seria mais fácil, mas sabemos que existe muito mais. Algo não existiu, mas algo foi real e foi avassalador a ponto de fazer todo o resto, que era inexistente, passar a existir. Percebe como éramos fantásticos? Demos vida aos mortos. Fizemos nascer flor onde era puro sereno terroso. Um sufixo não nos limitou e tudo passou a existir. Eu só queria que você tivesse me avisado como é perigoso brincar de Deus, visto que eu sou apenas uma alma penada no seu cemitério de passados sem saber exatamente onde fui enterrada. 

Guimarães Rosa diz que narrar é resistir. E eu narro seus passos diariamente como uma forma de impedir que sua face se apague eternamente do meu subconsciente que assimila pequenas coisas à você (posso citá-las, mas posso deixa-las em branco). Já está se apagando. Sei disso porque outro dia, forçosamente, me induzi um pensamento nostálgico e saudoso e não consigo, juro por deus, não consigo lembrar de nada. A cena era nítida. Entretanto, nada mais que a narração me tocou. Eu sei e resisto, enquanto eu peço pra ir embora, enquanto tu pede para ir embora, enquanto todo o resto do universo espera que eu mande o Guimarães Rosa ir se foder para que, assim, a roda da fortuna passe a se movimentar e eu deixe de ser quem eu sempre achei que fui: e hoje eu estou presa demais nos meus corres para me preocupar em ter 16, 17 anos novamente. 

Escrevo mesmo sabendo que semana que vem voltarei naquela vidente por não ter gostado dos resultados e espero que um carro amarelo me bata com força mas, ao invés de matar, transforme a minha vida como Macabea não teve a chance - seria idiota dizer que eu devo uma boa vida à Maca? Seria inútil assumir que agredi minha própria autonomia em prol de uma realidade que não é minha mas que eu queria tão desesperadamente que fosse para que, assim, pelo menos, fosse escrita? Perdão, Maca, não posso te salvar mais. Daqui pra frente sou eu com meus demônios.

cabeça bagunçada

Texto de avião

14:08


F&O Fabforgottennobility



Leia ouvindo: Eu amo você - Tim Maia 

Não sou quem eu gostaria que fosse. Essa frase foi difícil de escrever não apenas pela estrutura sintática confusa e, talvez, até errada. Mas também porque não sou calvinista e não acredito em destino (mas sei que ele existe aqui e ali). Enquanto o Sol bate e descasca minha pele, sei que a vida é feita de escamas e a cada reza viro outra - algumas vezes gosto de mim e em outras não me aturo. Quem eu sou hoje? me perguntei ontem. Amanhã me perguntarei de novo e a resposta será nova, naturalmente. Eu, que sou eu, tento deixar o tempo passar na minha própria velocidade, mesmo sendo perdida de nascença (nasci e só depois fui ver o que fazer). Portanto, eu, que sou eu, percebo que é inevitável se sentir presa à uma linguagem que conta com 26 letras - amo a literatura, mas ela sozinha é depressiva. Talvez seja por isso que não sou boa em mais nada: pois sou triste. E ao contrário do que pensam, a solidão não faz o poeta. O poeta é feito de portas e a solidão cria janelas a serem puladas. Nem sei mais o que dizer! Me disseram, outro dia, que meus textos salvam vidas e que minha escrita é meu encanto - estão todos tão perdidos quanto eu, graças à Deus! Durante meus curtos surtos de inspiração, fico feliz que eu sou eu e eu encontrei, tão nova, os signos da própria vida. "Vida" não me remete à nada. Mas ontem, quando pensei em morrer - e hoje, que ainda penso -, logo dormi. Vai ver meu estado de natureza seja a inestação e viver seja só um estágio longínquo de experiência a ser adicionado ao currículo. Mas no fim, ninguém te pergunta se estas vivo. Acordei com a mensagem: "Amiga, viveste?" e eu não soube responder. Não respondi até agora. Sigo. Eu que lute. Abandonei, por fim - por gim - a ideia fabulosa de me jogar na janela do hotel e fiquei sozinha com meu próprio abandono. Se não existissem as linhas, talvez, eu seria mais feliz. As linhas são territórios que ultrapassam a minha própria imaginação e, se eu fosse concretista, escreveria um desenho sobre isso (mas como não sou poeta de um mundo caduco, deixo o meu desejo póstumo para Marcus Cardoso). Ouço Tim Maia demais e penso tanto em praia que duvido da liberdade, mesmo que tardia. Sou tão criança que me comparo à minha mãe e, ao mesmo tempo, aos filmes que vejo. Sou o reflexo de um espelho sobrenatural e extinto, talvez, extinto por mim mesma. Filosofo tanto que a cada interrogação morre algo novo em mim - perdi as contas de minhas desistências, inclusive, insisto em desistir de pessoas (iguais) todos domingo. É a saudade. Mas agora vai; acabou mesmo. Sou nova e até comprei um esfoliante para renovar as células pois se eu fosse esperar 7 anos para isso acontecer, morreria afogada na minha própria sujeira. Sou alguém que gosta de pontuação pois símbolos são necessários para afirmar o que a mente, sozinha, não entende. Por isso faço tantos rituais - queimo o literal do passado, realizo bruxarias, enfeitiço meu corpo com sal e água. Os pontos, portanto, marcam o que as palavras deixam soltas e eu, que sou eu, insisto em deixar a responsabilidade do fim para o próprio fim. Ele que se termine.

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cabeça bagunçada

Dezenove

12:19





Leia ouvindo: Socorro - Arnaldo Antunes

Há algum tempo sinto uma angústia - que em alguns corações chamamos de dor - que não consigo explicar. É explicável, de fato, mas de alguma forma, não existe linguagem que se aproxime da mistura homogênea e catastrófica entre beatitude e agonia rasgante. O pão de queijo assa na cozinha e eu o deixo queimar. Deixo-o queimar pois esta é a frase que mais se aproxima do que sinto - o bairrismo, o caos e o cheiro de fogo que é familiar e não parece incomodar. A fome. E mesmo assim, o deixo queimar pois me parece a única coisa que sou capaz de fazer no momento.

Associo, portanto, a falta à falta de sentimentos concretos e conhecidos que, anteriormente, nomeava. Hoje, portanto, me contento com as vírgulas e os espaços em branco quando falo: "ah sei lá, é como se fosse... sabe, assim?". E o interlocutor entende. Mexe com a cabeça positivamente pois é unanime: todo mundo sente. A cara feia, o sorriso indiscreto, a queimação na pele que não é física pois não é na pele - mas como ignoramos a alma achamos que o corpo é o método mais eficaz de explicar aquilo que não dói, mas se sente. A língua portuguesa é falha; a arte é vazia; o olhar é raso demais. Só nos resta ser e existir pois existindo se revoluciona.

Me perguntam com frequência como é ser eu. Ninguém de fora me pergunta, explico: na verdade, as vozes que me habitam tentam reafirmar os pés no chão me perguntando como é ser eu. E eu não sei responder pois eu não existo - me inventei a vida inteira e todos ao meu redor acreditam nessa mentira que no tribunal eu dou o nome de "eu". "Eu" nada mais sou que a materialização celular de sentimentos que existem em alguma camada do universo e que precisava passar a existir num mundo material demais. Sou isso - pois sou. Nós. Sois. Sóis.

            maria fernanda

O pão de queijo continua queimando. E queima minha pele, o Sol. Até hoje não sei se Sol se escreve com letra maiúscula ou não. Me imagino o Sol, com toda sua maestria, explicando-nos que não existe forma para explica-lo. Imagino-no cacheado, de bochechas coradas - afinal, ele é o Sol - rindo de formigas tão pequenas que se acham enormes e quanta prepotência a minha me chamar de formiga! Eu nem sequer existo... Reiterando, então, o Sol me chama não para dançar, mas sim, para uma guerra fria: quem chorar primeiro, perde. Perdi pois a lua facilmente me faz as lágrimas caírem e como a lua é reflexo do Sol...

Em algum momento da minha vida monótona mas que, admito, bastante divertida, eu me prometi acentuar cada vírgula do sangue que corre nas minhas veias. A poesia é capaz de fazer isso. A poesia é capaz de criar o poço de féu cercado de arame do Drummond. O fogo que arde sem se ver de Camões. É isto: sou obra da poesia. Sou um poema que anda, que faz, que atua, que vaga. Eu odeio poesia - gosto das prosas. Gosto da desenvoltura de articular as palavras sintaticamente e ter o poder de atribuir sentidos infinitos que não necessariamente significam alguma coisa. Mas também, gosto dos romances. Gosto de ser Deus por algumas páginas e me sentir no domínio. Me sinto, porém, refém de algo maior. De algo que tem orelha de porco, rabo de porco, pé de porco, mas não é porco.

Como o pão de queijo - sendo mineira, gosto do que faço. Minha obra final é, portanto, única no mundo mas manipulável. Sou uma linha do tempo - um dia, deixo de ser. Um dia termino por contar a vida por meio de palavras. Um dia abandonarei os travessões explicativos que tanto gosto, as vírgulas que aprendi tão arduamente a usar. Um dia, abandonarei a poesia que sou pois não me aguento. Implodirei. Voltarei a ser, vejamos, a bola de fogo no inicio dos tempos que você é. Não o bastante, retorno com sentimentos novos a serem expelidos pela glote em forma de fonemas. Sou o eterno vai-e-vem da divindade e em cada retorno de saturno sou uma artista diferente - vim, nesse, com o azar de ser escritora.

"Amor"

Bakunin, me perdoa

14:03




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Leia ouvindo: I Lived - OneRepublic

Cheguei em uma parte do livro em que não consigo ler porque penso demais em você. Aconteceu isso com outra obra, que a autora leva o nome da sua mãe, que leva sua cidade como cenário - que tem o século passado como contexto, assim como a nossa história em outras vidas. Não consigo controlar o filme que passa na minha cabeça de todos os litros de sangue que derramei para me reerguer de uma forma que nunca fui capaz, mas fui obrigada a criar um força uterina para seguir em frente. Um ano depois, sinto que não evolui tanto quanto eu evoluiria há cinco. O crescimento não é linear, eu digo para mim mesma na esperança de não violar o meu seio aberto que ainda está ferido com a sua partida prematura ou tardia demais, não sei. Com a sua expulsão, me vieram outras questões que, um ano depois, ainda não sou capaz de compreender: eu. 

Existem muitas coisas que eu gostaria de estar sentindo mas eu me recuso a te fertilizar numa terra com o adubo de outra pessoa. Não. Existem amores que partem e que semeiam tanto quanto ervas daninhas, mas você floresceu demais e espalhou seu perfume até onde deveria ser inóspito. É lindo mas é dolorido pois, vai ver, quem sabe, eu sou só espinhos. E se for? Continuo espetando meus arredores como se fossem meus inimigos, mas eles só querem fazer parte. Parte de mim,parte da vida. Querem me conhecer, me tocar, seu a gota do meu suor. Não, não vou deixar ninguém entrar até eu não te enxergar em poemas, em filmes. Até eu fechar o olho e não enxergar o oceano de possibilidades que você carrega. Até eu acordar sem ter sonhado com sua traição. Não existe liberdade agora que você me invadiu, não existe escolha agora que eu conheço a vida com você do meu lado. Não existe mais "eu" agora que você me convenceu que sou especial demais para você. Não. 

Me olho no espelho e falo não, não, não eu não quero e eu não vou. Não vou voltar atrás e pedir para você bater cartão na minha vida falando da sua - e a minha? Não vou te mandar mensagem pedindo conselhos, pedindo ajuda ou exigindo esclarecimentos de um futuro que não nos pertenceu - você escolheu vive-lo sem mim. E eu me pergunto se um dia amarei outro alguém, e pior, me pergunto se alguém vai me amar como você. Como sou idiota, é claro que não. O próximo me amará muito melhormente pois eu me amarei ainda mais. De retrocesso em retrocesso e poemas que mando pois o coração é maior que as mãos, me digo que não precisaria ter te conhecido para entender o meu tamanho. Eu sou enorme! Fico assustada quando olho para cima e percebo que, meu deus, onde fui parar? Agora que estou sozinha eu não me sinto solitária - passei a ter a solidão como opção e não como castigo. E ah! Esta é a melhor coisa que eu poderia ter aprendido. 

Sem você, sinto falta de relacionar a arte a alguém que me preencha - sinto falta dos romances verbais e até das lágrimas inevitáveis quando eu chegava em Belo Horizonte. Você me fez odiar minha cidade. Você me fez odiar a minha vida. Você me fez te amar tanto que eu esqueci quantos anos tinha - graças a deus, eu sou anarquista e não me reduzo, não me modifico, mas foi por pouco. Por pouco não me rendi a sua tirania e me tornei fruto de um assalto identitário. Espero que um dia a gente volte a se amar sem o romantismo, pois este mata e me matou algumas vezes - meu sangue é os livros que brotam da terra fertilizada, aquela que não permitirei secar. A vida é uma criança e assim como o dicionário, formarei períodos infinitos até ressignificar a semântica inteira. 


Seja bem vindo, mas revolucione com cuidado pois eu estou mais forte do que nunca e sentindo o dobro, o dobro do dobro e dobro o tempo, se necessário, para estar aqui quando eu entender que, minha filha, você é foda - digo em primeiro pessoa pois a pessoa que está comigo desde sempre, veja bem, sou eu. Seguro o choro, tremo as mãos e grito na estrada pois o silêncio é a pior das doenças, a submissão é a pior das torturas. Ainda bem que você me deixou ir antes que me violasse, o que é bem mais fácil do que olhar para trás e arquitetar uma vida singular. Tola do jeito que era, acharia que sua proteção seria romantismo. E como disse, este mata. Morta, volto e reconstruo o que deixei cair enquanto te amava. Ainda te amo, quero dizer, não como antes e nem pretendo te visualizar no meu próximo livro. Apenas queria te dizer que sonhei com você essa noite e você estava lindo. Lê um poema que chama um novo amor é um presente da Rupi Kaur. 

Apesar das contradições, o que lhe escrevo é muito mais claro do que parece. Sua habilidade escassa de interpretação de texto, sempre muito primitiva, talvez, entenda que minhas palavras sejam uma ameaça. E talvez seja. Quando escrevo, não sou eu que escrevo. É alguém que mora dentro de mim e não tem voz alta o bastante durante o dia a dia - o crédito é todo dela, seja lá quem ela for. Entretanto, sei que você me entende quando falo que te amo mas não te quero perto - você me causa arrepios e todo mundo sabe o que acontece quando o cacto mostra seus espinhos. Hoje, me encontro excluída e retraída, como um tatu bolinha, esperando os golpes da vida para que eles não doam tanto quando chegarem. Me convença de que você não vai me assassinar novamente. Me convença que seu teatro fechou.

Infelizmente, as cicatrizes que você deixou são profundas e refletem a intensidade e o tempo que passamos juntos - tudo era em CAIXA ALTA: EU TE AMO, EU TE ODEIO, EU NÃO TE AGUENTO MAIS E POR FAVOR NÃO VAI EMBORA. Quando era gramaticalmente correto, eu estranhava - uai, o que é isso aqui que está dando tão certo? A calmaria me assusta, mas sei que o saudável é meio chato mesmo. Agora, mal consigo me encarar no espelho e não pensar no que você iria pensar se visse meu rosto tão redondo e meu vício tão aguçado em corrida. Será que alguém um dia vai amar minhas curvas do mesmo jeito que você as cultuava? Será que alguém um dia vai me tocar tão delicadamente igual você fazia? Tantos serás para resolver antes dos trinta... 

Você não me desejou um feliz aniversário e isso me partiu ao meio, mas tentei entender que você sabia que, no fundo, eu prefiro que você fingisse que esqueceu. Dói saber que você me conhece tão bem, mas só é meio egoísta. E enquanto eu organizo meus desastres naturais e tento alinhar minhas opções, espero que saiba que eu ainda penso em você, e o pior, ainda escrevo sobre você. Tenho chorado menos desde que a gente se desmanchou e, sem romantismo, estou muito mais feliz, sim - mas infelizmente, eu ainda sou a maior romântica que eu conheço. Vou te mandar um livro pelo correio, mas é para o seu irmão. Manda notícias. 



cabeça bagunçada

Eu tenho pressa

16:23


verbo ser/ver você – Enquanto você não vem - Larissa Adur



Leia ouvindo: A Palo Seco - Belchior

Existem coisas que já fazem parte de mim há tanto tempo que eu nem tento resignifica-las. Na maioria das vezes, apenas as troco de lugar na esperança de se sentirem mais confortáveis sendo sentimentos invasivos e desesperadores que nunca foram bem-vindos, mas existem e me bagunçam. Faz uns anos que vivo na correria - não na correria do sistema, mas sim, na correria de ser eu mesma, o que é muito pior. Como se a vida fosse acabar antes dos 30 e eu tenho que sair de casa o mais rápido possível pois não quero ser ruim, não quero perder tempo. O complexo é profundo o suficiente para me fazer pensar que não vivemos tempo o bastante para passar por todos os processos da biologia - nascer, crescer e morrer. E ao longo da vida, quantas vezes nós morremos e nos reinventamos em um corpo com células diferentes? Não dá tempo. Não dá tempo de ser tantos tecidos divergentes e tantas personas em um só amontoado de pele.

Daqui algumas semanas eu faço 19 anos. Aos 19, Adele lançava seu primeiro álbum que levava o nome da sua idade. Quando ela lançou isso ainda era muito distante para mim. E hoje, que eu finalmente tenho 19, me pergunto o que eu fiz de grande para levar minha idade como nome. Na minha idade, Taylor Swifit namorava John Mayer, na época, com 32 anos - isso, de certa forma, explicou minha estranha atração por pessoas que nunca vou conseguir alcançar. Sei que não posso transformar em regras as exceções, porém, não consigo deixar de pensar quanto tempo eu dormi para me considerar um peso morto num mundo onde, convenhamos, existe Bolsonaro como presidente do Brasil. Eu sou tão melhor que ele assim?

A resposta é óbvia e negativa. Mas ao invés de me sentir deprimida e preocupada, eu reescrevi minha história e coloquei num caderno novo os sonhos que eu tinha medo até de escrever. Coisas como publicar um outro livro (um que mude algo na história), receber um prêmio, comprar um apartamento. Sonhos que, há algum tempo, não mereciam sequer serem ditos em voz alta por serem audaciosos demais. "Sonhar" é um daqueles verbos que perdem o sentido quando são falados muitas vezes, mas eu até que gosto diss0. Significa que já faz parte da gente e daqui um tempo o sonho não será mais sonho - apesar de nunca, repito, nunca ser do jeito que a gente espera. Isso não é incrível? Uma surpresa nova a cada piscada!

Continuo me sentindo insignificante. E sim, escolhi voltar a morar com minha mãe depois de 2 meses morando em uma república que meu corpo repudiava. Tento não ver isso como um retrocesso, mas sim, como um progresso interno que simboliza a priorização da saúde mental ao invés das conquistas que sempre quis ter e que nunca serão aproveitadas se eu não estiver saudável o bastante para respirar ar puro. Foi legal, obviamente, mas eu não conseguiria viver mais um segundo naquele lugar que não tinha sentido nenhum para o meu corpo e, muito menos, para o meu coração. E daqui um tempo, quando eu estiver curada o suficiente e minimamente certa da minha grandeza, vou repor esse passo que dei para trás e dar um puta salto enorme para frente pois, apesar de ter 19 anos e não ter gravado nenhum álbum vencedor de todos os prêmios possíveis nem namorar um cara incrível de 30 e poucos, tenho bons anos pela frente. E se eu não tiver, digo, se eu morrer, também é um presente tão bom quanto a vida.

My inner moonlight ✨ Insta@mirenalos

Tento não me sentir tão péssima igual me sentia uns meses atrás. Sabe, o ócio me fez um bem que provavelmente eu só vou entender quando estiver entupida de sonhos - eles de novo - que almejei mas não medi as consequências. Quando eu perceber que meu corpo não é de lata e eu deveria ter dado mais valor ao vazio quando ele existia porque eu não vivo no meio termo. Eu sou demais, tudo demais, isso inclui existir tanto que tudo o que acontece no mundo, de alguma forma, é meu. Mas agora, nesse momento, eu sinto falta de me sentir sufocada pelo problemas do universo e pelos caminhos que quero traçar - e não pelo meu próprio quarto que, apesar das zombarias da minha mãe que me chama de mimada, parece me engolir por não ter um mísero espelho.

Outro dia minha mãe, esta que mencionei acima, me xingou quando eu me referi a meu sofrimento como "minha síndrome do pânico". A energia é a mesma da minha médica quando chamei a doença que nasceu comigo de "meu tumor". Não entendi a revolta. Sempre tive pra mim que aceitar certas coisas as tornam, inevitavelmente, menos doloridas. Isso significa que nem tudo que é meu é lindo e isso inclui as faltas de respostas que tenho ainda pela vida e vou ter enquanto respirar. Eu estou doente, de todas as formas, e não tenho vergonha nem medo das palavras visto que elas só têm o poder que você dá a elas. Para mim, a palavra "desgraça" tem o mesmo poder que a palavra "buceta" ou qualquer coisa do gênero. Não me sinto menos ou mais por viver em hospitais que não existem de verdade, nem me sinto pior por falar meticulosamente o que foi feito para ser falado. Palavras.

Apesar da pressa, que acabei percebendo, é bastante comum em alguns dos meus amigos também, eu vou caminhando já que o tempo é um tempo bem diferente do meu. Não tenho muito o que fazer e, visto que já escrevi muita a palavra "esperar", vou fingir que ela não existe e viver como em Jumanji - apenas procurando a sobrevivência e rezando para tudo isso acabar logo. O que é triste e pessimista, mas enquanto eu não encontrar minha linha de chegada, meu Everest, meu grande propósito e clichês e tal, vou apenas abrir os olhos todos os dias me agradecendo por estar viva. "Consegui", eu digo, não me olhando no espelho pois não tenho um.