Arte

Me desculpa, Baco, queria ser você

13:19




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Sei que eu não sou muito de publicar textos que sobressaem meus sentimentos individuais e até um pouco egocêntricos. Sei que eu mais abandonei a escrita do que a fiz de refúgio nos últimos tempos. Mas quando aparece algo que te tira do rumo, te sacode e, até mesmo, te traz de volta a vida, chegar atrasada no ultimo dia de prova se parece justificável - visto que eu acordei de madrugada pra escrever isso e tive um devaneio, quase um sonho (não sei ao certo se eu estava dormindo). Acontece que passei as últimas semanas ouvindo o álbum do Baco Exu Do Blues, Bluesman, e já na primeira música eu me arrepiei da cabeça aos pés. É muito difícil expressar os sentimentos mais profundos que eu guardo dentro de mim, aqueles que, às vezes, a gente tem até vergonha de admitir que sente. Mas, entre eles, eu sempre me senti um pouco culpada por me identificar com músicas e artes em geral sobre o movimento negro. Sempre achei que eu não tinha o direito de cantar alto, de saber os ritmos - desde quando eu percebi que sabia cantar todas as músicas do Racionais mesmo não tendo vivido um quinto daquelas letras. O álbum do Baco me fez entrar nesse sentimento um pouco mais, um pouco mais intensamente,  mas me distanciando da culpa e entrando de cabeça na melodia e no embalo que todas as músicas têm a oferecer. Então, hoje, eu só reconheço o meu privilégio de ser uma pessoa branca e ter o espaço pra enaltecer essa obra que merece uma atenção enorme, entretanto, ainda com um pouco de receio de pisar onde não devo. Foi quando eu entrei no ônibus e vi um homem que vendia capinhas de celular para ajudar uma clinica de reabilitação. Mas a capinha era tão barata que é sabido que o trabalho escravo estava inerente naquilo. E aí ficou a pergunta. Qual mundo eu vou salvar hoje: o mundo das drogas ou a exploração laboral? E então eu percebi, minha finalmente ficha caiu. Não importa se começarmos a fazer tudo perfeito a partir de agora, nada vai dar certo. Ou não certo o suficiente para que a gente possa presenciar o bem se alastrando, quebrando prédios e libertando os presos. O que isso tem a ver com Bluesman? Bluesman me fez perceber que a gente não precisa mudar o mundo, mas aprender a viver nesse mundo meio bosta. O que não é necessariamente ruim, mas é o que tem pra hoje. Não sei se foi a intenção de Baco fazer-nos refletir sobre isso, mas se a questão social dentro do álbum está presente - e está -, eu consegui aplica-la de uma maneira abrangente e que, sinceramente, ao mesmo tempo que me deixou pessimista, me deixou mais tranquila. Já faz algum tempo que eu percebi que eu venho perdendo as esperanças e Baco só me trouxe pro lado certo: não desista, apenas jogue o mesmo jogo que eles. 

Mas agora falando sobre o aspecto que está florescendo na minha vida agora. O aspecto que não tem nome, nem cor, nem cheiro. O aspecto que apenas Baco conseguiu traduzir perfeitamente bem em algumas músicas. É sabido que ele fala bastante sobre doenças mentais. Achei que esse fato era de senso comum até eu ver que ele precisou explicar ao seu público o que estava escondido nas entrelinhas. Nossa sociedade está tão iludida assim?, pensei. Esses sentidos e sensações são mais presentes no nosso dia a dia do que a gente gostaria, e fatalmente não é tão simples falar sobre eles mesmo sendo tão inerente. E mesmo sendo tão inerente, a gente ainda precisa decifrar os versos pois nada está claro o bastante para falar sobre isso. Apesar de algumas músicas estarem disfarçadas de uma grande homenagem pra ex - eu sei bem o que é isso -, não precisa reouvir muitas vezes o álbum pra perceber que Baco é gente como a gente - e está perdido. Mas a solidão não precisa ser tratada como aquela calcinha suja que a gente taca pra debaixo da cama. Muito pelo contrario, a gente deve transforma-la em arte.  O álbum, em determinados momentos, me lembrou uma instalação de Tracey Emin que chama "My Bed", em que ela reproduziu sua cama na qual passou vários dias deitada, cercada por garrafas de bebida e embalagens de comida, mergulhada numa tristeza profunda, indescritível, porém, bastante comum a todos nós. Essa paisagem não me é estranho, por exemplo. Isso, pra mim, é lindo e provavelmente é uma das instalações que eu mais amo no mundo pois retrata de uma maneira nada glamourosa um sentimento que não precisa de glamour pra ser retratado. E quando eu ouvi Bluesman pela primeira vez eu só consegui visualizar esse cenário pois, apesar de ser lindo, existe uma dor profunda que fez Baco rabiscar palavras por dias, sem sentido, com raiva, como um desabafo, com medo ou até mesmo sem medo algum, apenas mordendo a pele pra abafar seu maior grito. A gente que está por fora nunca sabe o sofrimento que envolve produzir arte. 

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                                        "Me deixe viver ou viva comigo 
                                         Me mande embora ou me faça de abrigo" 


Esses primeiros versos de Flamingos refletem bem o que tenho vivido nesses últimos meses. Uma vontade imensa de viver, mas, ao mesmo tempo, uma preguiça de fazer dar certo. Fazer o que dar certo? Não faço ideia. Mas temos preguiça. Temos saudade e a certeza de que não se pode banhar duas vezes no mesmo rio, ou seja, por mais que um momento se repita, ele jamais será o mesmo. Reparei também que nessa música a simplicidade é tão presente que podemos enxergar com clareza todas as descrições cronológicas que são feitas. Conseguimos nos imaginar usando camisas suadas estampadas de flamingo, ouvindo exalta na quebrada, gritando: eu me apaixonei pela pessoa errada. De todas, essa é a música mais confortável do álbum. No meio de tantos sentimentos que se confundem com os sonhos eróticos com a Beyoncé, existe uma batida tão leve que traz uma mensagem profunda durante um sono de quase dias. Um sono esse que eu preciso, inclusive, e acredito que Baco também. Portanto, o conforto vem como uma brisa de verão. É possível sentir o vento batendo e o cheiro do mar quase que te enrolando, te convidando pra entrar - como uma boa mineira, eu nem lembro mais o que é isso, mas sei o que é nostalgia. E nostalgia é um sentimento horrível. Se a vida fosse aquele filme do Adam Sandler, "Click", os momentos nostálgicos seriam aqueles que a gente com certeza voltaria para viver de novo. Mas o que mais aprendemos nesse filme? O tempo fica no seu tempo e a gente lamenta, mas segue em frente.


Eu não ficaria confortável comigo mesma se eu não mencionasse aqui a música "Girassóis de Van Gogh". No fundo, esta é a que eu menos tenho o que falar pois nem eu entendi os impactos que ela teve sobre mim. Só sei que eu não sou mais a mesma. Entretanto, quando falamos de depressão, os girassóis de Van Gogh propriamente ditos são um símbolo bastante comum e representativo pois este era um artista bastante complexo e que deixou muitas marcas para a história da arte relacionadas a esse assunto. Falei apenas mais do mesmo, né? Não importa. A arte visual é um assunto bastante delicado pra mim, que eu busco, até hoje, me encontrar e não me envolver mais do que eu preciso com isso. Van Gogh, ao contrário de várias outras pessoas, não é um artista tão importante pra minha vida - quem sabe, um dia, eu escreva sobre os pintores que me pintaram. Mas o que eu acho interessante no álbum do Baco é como ele trata essa questão da tinta em suas músicas, explorando outros aspectos da arte, falando, inclusive, sobre Basquiat, que começou a chegar nas escolas agora. E se vamos falar de tinta, quero ressaltar um dos versos mais lindos do álbum que, não por coincidência, eu espero, finalizam esse simbolismo em forma de música.

"Sou meu próprio Deus, meu próprio santo, meu próprio poeta
Me olhe como uma tela preta, de um único pintor
Só eu posso fazer minha arte
Só eu posso me descrever
Vocês não têm esse direito
Não sou obrigado a ser o que vocês esperam
Somos muito mais!
Se você não se enquadra ao que esperam
Você é um Bluesman"




Mas no fim das contas, há uma música, entre as nove, que me chamou mais atenção. Talvez pela verossimilhança com minha própria vida e com esses sentimentos que eu anteriormente citei por serem vergonhosos demais. Não estou apaixonada, mas mandei essa música para umas três pessoas que eu queria queimar a pele, bem de perto. Portanto, o que mais me chamou atenção nessa música foi a intertextualidade - talvez meio despretensiosa, mas foi exatamente isso que fez com a música me levasse - que ela faz com um poema de Manoel de Barros que chama, justamente, "Difícil é fotografar o silêncio". E não é que é difícil mesmo? 

                                                       "Fotografar o silêncio é tão difícil
                                                        Fotografar o meu medo é tão difícil
                                                        Fotografar a insegurança é tão difícil
                                                        Eu disfarço tudo com cigarro, cerveja e sorriso"

                                                       




O meu problema sempre foi a intensidade. Isso é muito claro nas coisas que escrevo e pinto. E senti, portanto, uma compaixão enorme por essa obra de arte que, com toda certeza, será conteúdo obrigatório nas minhas aulas. A maneira como ele esclarece as questão pessoais que ficam entre a vida e a morte, e até mesmo entre a vida e a pior parte da vida, é única e são poucas pessoas que conseguiram fazer isso. Além do mais, a bagagem que deve se carregar para se manter sensível num mundo de pedra é gigante e tem que ser reconhecido. Baco, meus alunos irão te conhecer. Farei uma prova sobre seu álbum daqui alguns anos. Suas músicas, com tantas referências e figuras de linguagens, variedades, poesias, métricas desleixadas e, além de tudo, arte para fora e para dentro, devem, sim, sair do palco e ir para o peito, assim como foi pro meu. Saio de Bluesman uma pessoa nova. Uma pessoa que não sentiu tanto impacto em ESÚ - mas que deveria - e que, agora, para todo lugar que eu olhar, aceitarei as pessoas como Bluesman, Blueswoman, em potencial. 

Amor

A vida dos sentimentos

15:35



Leia ouvindo: Cecília - Anavitória

Escrever para você é até mais fácil do que escrever sobre você. Mas, alguma coisa dentro de mim, algum bicho que cruza essas veias precisa ser defenestrado - tomei a liberdade de substituir a janela por boca e espero que você entenda que, na verdade, o bicho são palavras e que as palavras são tudo o que eu gostaria que você entendesse. Não sou nem um pouco didática, o que, provavelmente, seja o principal empecilho entre a gente. Você dá aula de geografia e tudo é tão milimetricamente calculado entre escalas e proporções. Enquanto eu, que dou aula de alma, ou seja, de poesia, viajo até no ponto torto dos poemas dadaísta. Isso me impede de te amar? De amar sua objetividade e, quem sabe, amar até a raiva que você me faz passar por não ler minhas entrelinhas?

Infelizmente, matérias escolares não são nossa única diferença. As diferenças, que se resumem em falhas comunicativas e uma visão divergente do futuro, podem ser apenas um teste divino que me faz querer, cada dia mais, lutar contra os demônios e abrir as portas do paraíso, onde você me espera(ria). Mas ao invés de falar sobre as coisas que nos distanciam, decidi escrever sobre as outras mil coisas que nos fizeram chegar até aqui. As outras mil coisas que eu penso quando deito a cabeça no travesseiro e tento refazer meu dia só pra passar mais tempo com você. O seu sorriso, por exemplo, quando qualquer pessoa fala qualquer coisa. E até quando você ri de nervoso e finge que tá tudo bem só pra não piorar mais a situação. Sempre foi assim. Sempre gostei que fosse assim.

Entretanto, de uns tempos pra cá, eu venho me sentido fraca. Acordo cedo, coloco logo uma máscara que só cai de noite, no banho, quando o peso finalmente desaba pelas costas e eu não tenho mais força para sustentar tanta dor. Eu tenho me sentido fraca por ter medo de ser fraca, sendo que eu fui forte por tanto tempo. Mas agora tudo me parece uma ameaça; um teste constante. Tenho medo de usar as palavras e que você me olhe torto, como quem julga o livro pela capa - o que não faz sentido, sendo que sempre fui o mais aberta possível pro mundo inteiro. Crescer é difícil e crescer ao lado de quem ama pode ser um pouco menos penoso. Mas por que eu quero tanto que você suma? Por que, no meio da noite, eu penso tudo seria mais fácil se eu nunca tivesse te tocado? Algumas coisas são elásticas e nenhuma mola volta ao seu estado original. Somos molas e você me deformou de uma forma linda, porém, instável. Linda porque você virou minha poesia mais linda - e instável pois, bem... não me tornei mais consciente depois de você.

Sempre defendi que amor não sustenta nada nessa vida, nunca foi o bastante para carregar o ar que respiramos - é preciso ter firmeza. É preciso ter certeza. E por mais que eu queira me justificar por tudo o que eu falo, sinto que as palavras fazem mais sentido na minha cabeça mas deixariam de fazer sentido se você as interpretasse - por fim, eu prefiro o mistério. Prefiro que a interpretação vire um sonho lúdico e que a gente continue nessa sinestesia infinita, uma figura de linguagem muito mais bonita que a realidade; do que acabar com tudo por conta de uma vírgula - ou um ponto e vírgula, ou, no pior dos casos, um ponto final. Gosto do silêncio, raras vezes, mas principalmente quando você está deitada no meu colo e eu sinto a responsabilidade de permanecer imóvel - qualquer inspiração ou expiração é uma ameaça pra destruir o mundo que tanto penei pra construir. Do seu lado, mas paralelamente ao seu.



Falar sobre amizade, por fim, é mais difícil que falar sobre o amor - amizade é uma manifestação mais pura do amor, pois não tem o peso do orgulho, não tem a imundice da raiva. Um beijo na boca é mais tóxico do que um toque, talvez, quando o toque não vem carregado de paixão. E falar sobre o que a gente tem é confuso pois tenho privilégios demais dentro dos dois conceitos para reduzir em um só.  De qualquer maneira, espero que fique um pedaço de quem eu sou em todos os âmbitos pois não quero ter que ser outra pessoa para ficar perto de você. Quero poder me colar e descolar quando necessário. Quero poder virar seu travesseiro e você meu cobertor. Quero ter a liberdade de desligar o telefone quando me faltar palavras mas também de poder discar seu número quando a saudade transbordar. Quero ser, por fim, sua. Me deixa ser.

Quando eu, então, puder usar minha poesia sem medo, puder proliferar minha alma em forma de flor, eu sentirei conforto em ficar. O aconchego nem sempre vem em tsunamis e terremotos - na maioria das vezes ele vem num vento bem fininho. Nesses que até sussurram seu nome; e deita; e fica. Quando eu, por fim, puder soltar minhas asas ao teu lado e te convidar para voar comigo, saberei que nosso encontro é milenar e prometo nunca mais duvidar de uma palavra que disser - não se pode contrariar a voz dos anjos. E se um dia, daqui uns anos, a gente se reencontrar - pois nada deu certo e a gente precisou se separar para construir tudo de novo -, nada mudar, saberei que meu sorriso, no fundo, era seu e ele estava só esperando você chegar.

Talvez eu consiga escrever melhor do que acabei de fazer e com certeza você merece mais do que palavras abruptas num texto da internet que quase ninguém lê. Mas eu só queria que você soubesse que eu estou tentando. Tentando, além de ser forte, não deixar a fraqueza se tornar um problema. Tentando ser o melhor que posso ser pois você merece a parte boa que tenho a oferecer e não a confusão que se instala esporadicamente, sempre quando mercúrio está retrogrado, ou quando o sol está em um signo de água. Mas espero que você também tente me amar mesmo assim, mesmo eu sendo essa pessoa desconexa e sem coesão, porque infelizmente eu não posso ser melhor do que isso. Minha função é organizar o mundo mas o mundo não se preocupou em me organizar.

cabeça bagunçada

utopia

14:53



Leia ouvindo: Cartomante - Elis Regina

Esses dias eu não estou entendendo o mundo muito bem. Minha casa tá muito bagunçada, eu ando tendo sonhos estranhos, a desesperança que, até então, era um terreno inóspito pra mim, se tornou um lar quase que acolhedor. Além de não me reconhecer no espelho, não consigo me encontrar de tal modo que eu saiba o que fazer para recuperar o cansaço que deixei cair ao longo dos meses. Não tenho feito nada de útil além de ocupar minha mente sentindo raiva, nojo e um pingo de resto da fé que ainda tem aqui dentro. Talvez seja sintoma da mortalidade do ano, mas talvez seja apenas a carga que os anos pares trazem consigo - são superstições como estas que eu carrego comigo ao longo dos anos para acreditar que os sentimentos ruins são momentâneos. Mas a cada dia que passa eu percebo que não são.

Daqui uns anos, provavelmente, eu vou me achar uma estúpida por gastar tanta energia me preocupando com algo que eu não tenho controle. Faço minha parte, é claro, mas será que dá para gritar tão alto a ponto de Deus ouvir? Olho para trás, na história, e me pergunto como tanta catástrofe foi permitida - e eu não sei. Não existe, sei lá, um juiz astral que analise a Terra e fale: "Opa, calma, agora eles foram longe demais"? Se eu falo de fé, eu falo disso. Falo de, um dia, descobrir que toda essa dor é, na verdade, um teste divino e que, cedo ou tarde, o julgamento final vai acontecer e só será salvo quem manteve seus valores na crise e na ascensão. Ao meu lado, tanta mentira e hipocrisia que apenas uma coisa se passa pela minha cabeça: nojo. Nojo e desistência, na verdade, pela vontade de entregar os pontos e perceber que nós, seres humanos, não merecemos a boa vontade dos anjos.

Entretanto, ultimamente eu tenho me sentido culpada por ser empática demais. Não querendo me vangloriar, na realidade, meu maior defeito é o egoísmo - mas sempre achei que meu egoísmo seria o nível máximo de egoísmo que o ser humano pode chegar. Feliz ou infelizmente, eu estava errada. Descobri que existem pessoas ruins dentro da minha própria casa. Pessoas que disseram me defender com unhas e dentes, mas não levantam o dedo para abandonar o universo paralelo que existe ao redor do umbigo. Não foram capazes de se colocar com o medo de andar na rua. Da incerteza de acordar vivo amanhã. E a tortura constante que é viver cercada por abutres que querem sua carne, seja a viva, seja sua alma, seja sua mão de obra, enfim, te querem inteira para poderem te usar inteira.


Esse texto não era pra ser sobre política. Eu estou meio cansada desse assunto visto que minha saúde mental está completamente comprometida. Mas eu não ligo. Não ligo porque fui muito bem ensinada de que nós fazemos política o tempo todo e é justamente agora que devemos expor nossas almas pra fora, em prol da liberdade - que pode ser a última. Eu não ligo porque lutei minha vida toda para conquistar o meu espaço e não é agora que apertou que eu vou desistir. Então sim, leitor, esse texto é sobre política e sobre como minha luta tem sido bem mais interna do que externa, até porque, não tem muito mais a se fazer a não ser rezar para que a dor dure apenas 4 anos, e não 24. E por falar nisso, tenho experimentado um tipo de dor que nunca experimentei antes: a dor em massa.

Pois então, falemos de política. O que será de nós agora que o apocalipse está instaurado? O que será de mim cujo maior sonho é ser professora de literatura, mas aqui, no Brasil, e não em outro país pois não seria tão desafiador e cativante como é nesse lugar? O peito grita socorro pela educação pois é ela e apenas ela que liberta o homem. A caverna contemporânea, simbolizada pelas realidades virtuais que nós mesmos criamos na esperança de aparentar muito melhores do que realmente somos, demorará séculos para ter seu primeiro habitante liberto? Que então, seja livre. E use o martelo para desmoronar as falsas convicções que criamos ao longo da vida.

Quando eu penso, então, que deveria ser mais egoísta para não sofrer tanto - preciso reconhecer o quão privilegiada eu sou por ser branca e não depender de serviços públicos, o que me dá uma vantagem nessa corrida -, com alguns chicotes, eu marco minhas costas pois, afinal, é impossível deixar de ser quem eu sou. É impossível escolher outra profissão apenas porque o mercado de trabalho é destrutivo e não importa para que lado eu corra, sempre vou terminar numa manifestação insatisfeita com algo. E eu te pergunto: não deveria? Não vou ficar mais egoísta, mas vou fingir que sim para me infiltrar e tentar salvar de mãos dadas todos aqueles que prometi mudança.

Espero que toda a opressão torne arte. Espero que todo sangue vire tinta. Espero que toda grade vire oportunidade de ver o mundo meio cubista. Apesar da pedra que virei, ainda tenho esperança de construir um mundo melhor, nem que isso custe minha vida e meu labor, nos quais eu dou com o maior prazer. E no fim de tudo, eu só espero que acabe.




Outros

A festa da democracia

14:38


Leia ouvindo: Apesar de você - Chico Buarque

Para quem não me conhece, eu sou muito mais que uma blogueira que escreve textos de amor ou de auto ajuda para um blog na internet. Sou mais do que essa pessoa que vocês acompanham superficialmente nas redes sociais. E hoje, eu decidi honrar todos os caminhos que as mulheres abriram até o dia de hoje e gritar, com a voz que ainda resta, as dores e as conquistas que residem em mim. Não é por quê o que eu sinto não envolve um terceiro romanticamente que vou ficar calada ou vou guardar esse sentimento da maneira mais silenciosa que eu conheço - em 18 anos sendo cidadã, essa é a primeira vez que posso usar meu espaço da maneira mais sábia que eu consigo. Espero estar fazendo certo.

A festa da democracia, no Brasil, nunca esteve tão lotada. É lindo ver tanta gente gritando e fazendo barulho, seja de qualquer um que seja dos lados, é pra isso que nós lutamos - no passado e vamos continuar lutando no futuro. Lutamos para que você pudesse falar os seus ideais pela rua, usando verde, amarelo, roxo ou vermelho, qualquer cor, qualquer camisa, sem que sua opinião fosse condenada. Passamos 24 anos sem ler o que queríamos, sem ouvir o que queríamos e acho lindo que podemos usufruir disso ainda. "Posso não concordar com uma palavra do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de expressa-la", disse Voltaire há dois séculos atrás. Por que, logo hoje, essa frase me parece tão estranha?

Apesar do panelaço e do uso frequente da voz individual - é lindo, de verdade, ver tanta gente nas ruas defendendo o que acredita -, eu faço um trabalho árduo para continuar amando o Brasil, sem querer deixa-lo. Eu não o entendo. Não entendo 46% dele, pra ser mais específica. Sou professora de literatura, não ganho um centavo por isso e meu nacionalismo nunca esteve tão a flor da pele - já até aceitei que a identidade do Brasil é não ter identidade, é ser a casa-da-mãe-joana do mundo e ser feliz assim, arrastado, às avessas, indo até onde dá. Mas eu ainda assim, não entendo como os argumentos de união nacional podem se opor à própria unificação.


Ás vezes, dentro da minha família - e com família eu não quero dizer parentes, mas sim, pessoas que estão no meu círculo e querem me ver viva -, eu sou chamada de louca por acreditar tão arduamente no país. Por acreditar que a educação muda o mundo, por me espelhar na história e fazer de tudo para não repetir-la. Meu cristianismo nunca foi colocado tanto á prova, logo agora, que eu me coloquei disposta a amar a incompreensão brasileira. Mas eu ainda assim te amo, Brasil. E estou aqui e vou ficar aqui enquanto eu puder. E se não puder, eu volto.

Acredito que está na hora de usarmos o "complexo de vira-lata", aquele que Nelson Rodrigues falou na copa de 1950 após a derrota traumatizante para o Uruguai, ao nosso favor. Olhemos para os países mais experientes, que passaram pela dor que a gente nunca passou, que sofreram com a fome, com a morte, com a insegurança e vamos ouvir o que eles têm a dizer. O progresso não precisa ser sanguinário - mas será enquanto houver teimosia, orgulho e falta de empatia. Os livros de história não mentem, a literatura não mente e muito menos os sobreviventes do caos. Agora, mais do que nunca, é tempo de fazermos diferente. E diferente não significa necessariamente eleger um candidato novo - significa não repetir a história mais violenta que o país já passou. Ou você só vai perceber isso quando a dor bater na campainha do seu condomínio?

A ferida do Brasil é mais profunda. Somos um país que cresceu por conta de golpe atrás de golpe e nunca tivemos tempo de sofrer o luto dessas demagogias. Não existe gaze que estanque esse buraco. Não existe agulha que costure a falta de amor. E dói. Dói porque aconteceu. Dói porque não foi com você, mas foi com outras centenas de pessoas que falaram alto, que gritaram demais, que usaram vermelho. Dói porque é uma vergonha que nosso país não precisava ter enfrentado - mas enfrentou, e não aprendeu. Sinto muito se seu preconceito fala mais alto que seu caráter ou, no mínimo, que a sua consciência de que você precisa esconder isso pra ser uma pessoa sensata. Sinto muito que o ódio tenha dominado seu peito e que a esperança, pra você, tenha se tornado o simbolo de uma arma e não de uma pomba branca gloriosa. Sinto muito, mesmo, mas eu não te entendo.



Mas não te entender não impede que eu te respeite. Eu respeito seus gritos de guerra, ouço em silêncio, absorvo e até tento me colocar no seu lugar. Jesus, meu querido amigo santo que esteve comigo durante todo esse processo, sabe quantas vezes eu tentei pensar como você para tentar me aproximar, estabelecer algum laço e enxergar o mundo através do seu ponto de vista. Mas isso, infelizmente, é impossível. Não vivi suas experiências, não tive seus pais, não estudei com os mesmos professores. Mas no fundo, eu fico extremamente feliz que essas divergências ideológicas existam e que ainda somos autorizados a falar sobre elas em público. Voltei nesse assunto de novo, né? Desculpe. Mas eu já falei sobre como eu sou feliz por viver numa democracia?

Para encerrar, eu quero dizer que tenho medo. E não tenho vergonha em falar que estou com medo pois foi exatamente o medo que me tirou da estática e me reergueu, sussurrando, com aquela voz rouca e quase apagada: "amanhã há de ser outro dia". E não é que foi? Se as lágrimas escorreram de madrugada, hoje de manhã, o Sol nasceu e iluminou o futuro que eu, você e todo o resto podemos mudar. Entretanto, espero não dar mais força pro medo do que ele merece pois tenho medo - sim, eu tenho- de quem eu posso me tornar. Usarei do medo para dar meu último suspiro de resistência e se não for o suficiente, eu grito. Morro, mas grito.


Texto

O Paulista

12:42



Leia ouvindo: A Cidade - Cícero
Um dia, quando eu estava no metrô de São Paulo, provavelmente em janeiro ou fevereiro - não me lembro bem, apaguei parte das minhas memórias dessa época -, enquanto eu descansava meu pescoço no ombro de Matheus Cardoso, eu estava cansada. Por algum motivo, eu estava cansada, mas isso não é noticia, eu estou sempre cansada. Porém, ao mesmo tempo em que fechei meus olhos, entrou no vagão, um homem. Um homem machucado, com o braço engessado, os olhos caídos e cheios de bolsas. Mal cuidado, tadinho. Eu admito, esperei que ele entrasse e se aquietasse, ficasse calado. Mas ele fez um escândalo tão silencioso que quase não ouvi - mas talvez, eu tenha sido a única que ouviu alguma coisa. Não com os ouvidos, é claro. Ultimamente minha audição tem falhado muito - dádiva divina pra não ouvir tanta porcaria por aí.

Em um tom baixo, como se estivesse com vergonha de estar ali, ele contava que estava desde manhã cedo entre um trem e outro pedindo dinheiro para comprar leite para seus filhos. O vagão não estava vazio, havia uns gatos pingados, uns casais que conversavam, outros, como eu, cochilavam mas ouviam bem. Ele dizia como as pessoas estavam cada vez mais ignorando umas as outras e que, provavelmente, naquele momento, ele era invisível. Não pra mim, homem. Você existiu. Eu sei que você está aí. Eu olhava pra Matheus, na esperança de que ele falasse algo ou, no minimo, compartilhasse comigo daquele sentimento de existência. Daquela pena por ainda existir tanta dor no mundo. Porém ele continuava vidrado na tela do telefone jogando futebol, atingindo um novo estágio do seu vicio, mas tudo bem, o mundo precisa de espelhos.

Olhei ao redor, na esperança de cruzar com alguém que sentia o mesmo que eu - todos bem devaneiados, preocupados e despreocupados demais para se preocupar com a fome ou com o braço quebrado alheio. Depois de uns dias eu entendi que paulista é frio e cético assim mesmo, a culpa não é deles, é só o modo de sobrevivência. Pra viver numa terra tão gelada tem que ter peito e coragem - coisa que meu coração mineiro e mole não tem nem um pouco. Enfim. Eu continuava encarando Matheus na esperança de respostas, mas ele só preenchia o silêncio com um beijo. Quando ele vai aprender que eu gosto do silêncio? Gosto da dor que o silêncio deixa e gosto da energia potencial que ele carrega.



O homem, por sua vez, continuava suplicando seu capitalismo monetário, num infinito pleonasmo, e eu não podia, na verdade, não queria ajudar. Não sei ao certo o motivo, talvez por puro egoísmo, mas eu não fiz questão de dar a ele aqueles dois reais guardados que provavelmente, posteriormente, virariam kit kats. Continuei encarando o metrô e a cada pessoa que entrava, eu rezava para que elas me ouvissem. Rezava para que elas ouvissem o pedido do homem e se sensibilizassem com a realidade, que eu não era capaz de me sensibilizar a ponto de passar por cima do meu orgulho - por isso, escrevi. Eu sou escrota e possessiva, bem mais do que defendo ser.

No fundo alguma parte minha sente demais e não quer admitir isso - porque, afinal de contas, eu queria fazer parte do grupo de paulistas frios e ignorantes daquele vagão. Talvez eu que seja a idiota que acredita na comoção. Talvez nada seja real e eu não esteja acostumada com o cotidiano paulista. Talvez o mundo seja muito pior do que eu plasmei - talvez. Mas isso não me impede de que, apesar das súplicas, eu transforme o discurso em palavras. Transforme o silêncio em palavras. Não sei muito bem, ainda, o que aquele homem me ensinou. Não sei ao menos se ele me ensinou alguma coisa. Mas sei que ele me disse algo que eu não entendi muito bem; mas ouvi.

São Paulo, Tarsila do Amaral (1924). Queria enxergar tão colorida igual Tarsila pintou.

cabeça bagunçada

Levamos os sonhos a sério demais

17:04



Leia ouvindo: Explodir - Rubel

Há uns anos [atrás] eu criei um sonho pra mim. Li num livro, vi alguns vídeos, achei que seria uma boa ideia deixar tudo pra trás e começar do zero - eu mal sabia que eu estava no -2 nessa cronologia toda. Um dia, a angústia bateu mais forte que o sono e eu passei a madrugada pensando: "e se esse sonho não for real?". Nesse dia, alguém me disse que levamos nossos sonhos a sério demais. Eles, de fato, merecem nossa energia integral para que possam deixar de serem sonhos. Mas uma parte de mim está em jogo. Uma parte das minhas lágrimas que derramo no banho, de saudade antecipada, provavelmente vão cair por mais alguns anos. Quanto tempo eu aguento?

Não tenho conseguido escrever. Estou lutando contra as minhas pálpebras pesadas e a vontade de deitar para colocar pra fora um pouco, nem que seja uma gota de suor, do que tanto ocupa meus pensamentos e faz com que eu me sabote de vez em quando. As coisas se superam, cada vez mais. E com coisas eu quero dizer raiva. Quando eu achava que eram as provas - muito além das escritas, eu digo, as provas diárias -, eu percebo que meu cansaço está encrustado, como uma joia bem feia, bem barroca, numa pedra de mármore escura. Cansei de escrever, eu acho. Cansei da arte porque a arte me abandonou, tornou-se apenas teoria e perdeu o seu sentido de me tirar do fundo do poço. Eu cansei de tentar.

Ás vezes, eu pinto. Minha aquarela mais recente foi um peixe. Pintei-o pois senti uma compaixão enorme por esse ser que nasceu para desbravar seu ecossistema, mas que, na maioria das vezes, vai parar num prato de sushi. Seria insuportável, pra mim, se eu tivesse o dom da liberdade e me tirassem apenas para servir, com base na dor e num sofrimento que, apenas pelo fato de não ser expressado por palavras, as pessoas acham que não existem. Existe um peixe dentro de mim que eu mesma devoro. Corto as branquias, tiro os órgãos, fico apenas com o que é saboroso pra mim mesma - mas o resto, não importa.


Quando, raramente, escrevo, é sobre ela: ah, meu deus, ela. Não diria que estou apaixonada, longe de mim entrar nesse abismo de novo. Mas é que, nos raros momentos em que eu não me sinto cansada a ponto de parecer que se eu encostar a cabeça eu vou dormir, ela sempre está ali para afirmar que a única pessoa que me impede de realizar meus sonhos sou eu mesma. Me bate uma raiva quando alguém me fala isso. Ah, então quer dizer que a culpa é minha se Deus me odeia?, penso. Na verdade, é sim. Levei meus sonhos a sério demais, e agora não consigo me desprender da história perfeita que criei pro meu futuro. Tomara que tudo dê certo, mas se der errado, que dê errado com glamour. Aquele errado digno de livros e filmes e, nesses tempos, seriados,

Voltando aos sonhos: os tenho. Tenho tantos mas que, no frigir dos ovos, se resumem a um só. E esse um só que me impede de realizar todos. E esse um só é meu maior empecilho entre mim e eu mesma. Essa pequena Bárbara que, aos 12 anos, achou que seria tudo bem sonhar demais, provavelmente não sabia dos efeitos colaterais. Não sabia que ela não estaria sozinha - nunca esteve - e que, no fim, se sentiria amada. Tão desapegada, coitada, não imaginou que daria seu primeiro "adeus". Os laços, no fim, são reais, e como é bom ter amigos.

As coisas ainda estão muito confusas pra mim porque eu deixei a intensidade de lado - mas isso não significa que estou mais racional, muito pelo contrário. Se eu pensar demais, eu surto, eu desisto, sei lá. Mais uma vez, eu repito, o cansaço me pegou e eu não consegui fugir. Só quero que tudo acabe e que eu possa deixar pra trás um pouco do passado que me estressa e um pouco do futuro que me impede de aceitar o que tiver que vir. Um recado eu deixo, para eu mesma, caso eu tenha partido: faça valer a pena. Você deixou que você mais ama pra trás.

Mas, como eu ainda não sou a mulher mais forte que pretendo ser, preciso pisar no meu orgulho e pedir ajuda Àquele que, provavelmente, é único que não vai me chamar de fraca se eu me perder no caminho, visto que nem eu me escapo desse rótulo. Portanto, querido Deus, por favor, não me abandone. Não agora.

cabeça bagunçada

O Sufoco

14:30


Leia ouvindo: Changes - Seu Jorge

O universo se cria todos os dias e todas as noites ele se aborta. Assim, parece que essa é uma frase tirada de algum livro do Paulo Coelho ou algo do tipo. Mas não, isso é ciência. A física me faz pensar muito mais do que eletromagnetismo - coisa que eu só penso uns dias antes da prova. Me peguei, porém, refletindo sobre essa condição do universo durante algumas horas e tentei aplicar pra dentro de mim. Sempre pensei em como eu sou um reflexo direto de tudo o que acontece no mundo, mas, por incrível pareça, não encontrei resposta alguma sobre isso. Não consegui reconhecer meu aborto diário, não consegui aplicar meu redescobrimento periódico.

Eu tenho buscado um pouco mais o silêncio. Algo dentro de mim sempre pediu para preencher os espaço vazios com alguma coisas, qualquer coisa - qualquer coisa é melhor do que nada. Mas de uns tempos pra cá, com tantos espaços vazios pra preencher, eu comecei a sentir algo que nunca senti antes: sufoco. O sufoco é algo que, aos 9 anos, senti quando um amigo - hoje amigo, naquela época, inimigo mortal - tampou meu nariz e minha boca na esperança de que eu me calasse. Aos 13, perguntaram se eu era gestante quando cheguei ao hospital, enrolada em toalhas, sangrando, após ter sido estuprada - não consigo achar uma metáfora pra isso. Aos 16, quando percebi que minha adolescência e minha inocência se perdeu por completo no meio do caminho. E aos 18, quando dei um nome pra ele.

Ultimamente, o sufoco vem em forma de dor de cabeça, olhos pesados, lágrimas que seguro achando que, se eu começar a chorar, nunca mais eu paro. Acumulei tantos sufocos ao longo dos anos que hoje ele é uma parte de mim que tive que aprender a conviver, por bem ou por mal. Por isso sempre achei que ele não existia, que esse sentimento é inédito, confundia-o com cansaço. Eu sempre estou cansada, oh céus, quem eu quero enganar?

Mas eu estou sufocada. Sufocada pelas palavras horríveis que ouço durante o dia e tenho que fingir que elas não foram ditas. Sufocada pelas esperanças depositadas em mim, que na maioria das vezes eu mesma coloco, e eu não consigo me suprir. Sufocada pelo ambiente fechado e pelos litros de água que derramam enquanto eu busco, frequentemente, uma bolha de ar que me forneça um pouco do volume de oxigênio disponível em seu interior. Sufocada por não conseguir ler um livro por pura e simples vontade de ler um livro. Sem precisar entender nada, pensar, fazer resumo.



As palavras vem meio mortas, digo, tortas. Sinto, às vezes, que minha alma foi esquecida no mundo das ideias e tudo o que eu sou é pura matéria orgânica esperando o vencimento para entrar em decomposição. Onde ficou toda a profundeza do que eu sinto? Onde estão todos os meus sentimentos? O sufoco me sufocou tanto que eu me tornei o próprio demônio engolindo suas vítimas. Eu não sou a vítima, eu sou o demônio - sou os dois. O Sufoco - coloquei em letra maiúscula já que o personificamos - me fez acreditar que não olhar pros meus problemas iriam fazer com que eles não existissem.

Pois veja, Bárbara. Você tem dores. Você tem amores profundos os quais sente falta. Você tem sonhos e você tem um sonho gigante - mas pare de viver por ele, por favor. Você sente a dor física da angústia, e tem enxaqueca, não gosta de dipirona, sente cólicas, menstrua, tem TPM, inferno astral, o eclipse foi esses dias... Você, ainda, é um ser humano. Você ainda precisa da língua. Você ainda precisa do tempo. Você está dentro da caverna e acredita fielmente que as sombras são a única realidade que existe. O conceito de amor próprio é muito mais amplo do que sair de um relacionamento que não te faz bem, ou manter uma rotina semanal de hidratação no cabelo - mas que isso é um grande passo, é.

Tá na hora de tirar os chicotes nas costas e, no mínimo, acolher esse sufoco que tanto prende as lágrimas e as palavras dentro de uma caixa. Alguém, não sei quem, lhe obrigou a guardar essa sua essência intensa por muito tempo e agora você precisa gritar. Grite. Grite aqui mesmo que PUTA QUE PARIU, porra. Grite que você só quer dormir, só quer um tempo, quer que tudo acabe logo mas sabe que nunca vai acabar porque, vai tomar no cu, desgraça, a vida é um ciclo eterno de frustrações.

E tem algo de errado com isso? Não. Eu só não entendo o porquê.

No fim das contas, eu me reinventei hoje e durmo agoniada sabendo que, no final do dia, eu vou me abortar. Mas com um fio de esperança de que eu sangre até virar a única coisa que restou de mim, que minhas hemácias sobrevivam para contar a história. E que minhas palavras não sejam infinitas - mas que sejam eternas enquanto durem.