cabeça bagunçada

Eu tenho pressa

16:23


verbo ser/ver você – Enquanto você não vem - Larissa Adur



Leia ouvindo: A Palo Seco - Belchior

Existem coisas que já fazem parte de mim há tanto tempo que eu nem tento resignifica-las. Na maioria das vezes, apenas as troco de lugar na esperança de se sentirem mais confortáveis sendo sentimentos invasivos e desesperadores que nunca foram bem-vindos, mas existem e me bagunçam. Faz uns anos que vivo na correria - não na correria do sistema, mas sim, na correria de ser eu mesma, o que é muito pior. Como se a vida fosse acabar antes dos 30 e eu tenho que sair de casa o mais rápido possível pois não quero ser ruim, não quero perder tempo. O complexo é profundo o suficiente para me fazer pensar que não vivemos tempo o bastante para passar por todos os processos da biologia - nascer, crescer e morrer. E ao longo da vida, quantas vezes nós morremos e nos reinventamos em um corpo com células diferentes? Não dá tempo. Não dá tempo de ser tantos tecidos divergentes e tantas personas em um só amontoado de pele.

Daqui algumas semanas eu faço 19 anos. Aos 19, Adele lançava seu primeiro álbum que levava o nome da sua idade. Quando ela lançou isso ainda era muito distante para mim. E hoje, que eu finalmente tenho 19, me pergunto o que eu fiz de grande para levar minha idade como nome. Na minha idade, Taylor Swifit namorava John Mayer, na época, com 32 anos - isso, de certa forma, explicou minha estranha atração por pessoas que nunca vou conseguir alcançar. Sei que não posso transformar em regras as exceções, porém, não consigo deixar de pensar quanto tempo eu dormi para me considerar um peso morto num mundo onde, convenhamos, existe Bolsonaro como presidente do Brasil. Eu sou tão melhor que ele assim?

A resposta é óbvia e negativa. Mas ao invés de me sentir deprimida e preocupada, eu reescrevi minha história e coloquei num caderno novo os sonhos que eu tinha medo até de escrever. Coisas como publicar um outro livro (um que mude algo na história), receber um prêmio, comprar um apartamento. Sonhos que, há algum tempo, não mereciam sequer serem ditos em voz alta por serem audaciosos demais. "Sonhar" é um daqueles verbos que perdem o sentido quando são falados muitas vezes, mas eu até que gosto diss0. Significa que já faz parte da gente e daqui um tempo o sonho não será mais sonho - apesar de nunca, repito, nunca ser do jeito que a gente espera. Isso não é incrível? Uma surpresa nova a cada piscada!

Continuo me sentindo insignificante. E sim, escolhi voltar a morar com minha mãe depois de 2 meses morando em uma república que meu corpo repudiava. Tento não ver isso como um retrocesso, mas sim, como um progresso interno que simboliza a priorização da saúde mental ao invés das conquistas que sempre quis ter e que nunca serão aproveitadas se eu não estiver saudável o bastante para respirar ar puro. Foi legal, obviamente, mas eu não conseguiria viver mais um segundo naquele lugar que não tinha sentido nenhum para o meu corpo e, muito menos, para o meu coração. E daqui um tempo, quando eu estiver curada o suficiente e minimamente certa da minha grandeza, vou repor esse passo que dei para trás e dar um puta salto enorme para frente pois, apesar de ter 19 anos e não ter gravado nenhum álbum vencedor de todos os prêmios possíveis nem namorar um cara incrível de 30 e poucos, tenho bons anos pela frente. E se eu não tiver, digo, se eu morrer, também é um presente tão bom quanto a vida.

My inner moonlight ✨ Insta@mirenalos

Tento não me sentir tão péssima igual me sentia uns meses atrás. Sabe, o ócio me fez um bem que provavelmente eu só vou entender quando estiver entupida de sonhos - eles de novo - que almejei mas não medi as consequências. Quando eu perceber que meu corpo não é de lata e eu deveria ter dado mais valor ao vazio quando ele existia porque eu não vivo no meio termo. Eu sou demais, tudo demais, isso inclui existir tanto que tudo o que acontece no mundo, de alguma forma, é meu. Mas agora, nesse momento, eu sinto falta de me sentir sufocada pelo problemas do universo e pelos caminhos que quero traçar - e não pelo meu próprio quarto que, apesar das zombarias da minha mãe que me chama de mimada, parece me engolir por não ter um mísero espelho.

Outro dia minha mãe, esta que mencionei acima, me xingou quando eu me referi a meu sofrimento como "minha síndrome do pânico". A energia é a mesma da minha médica quando chamei a doença que nasceu comigo de "meu tumor". Não entendi a revolta. Sempre tive pra mim que aceitar certas coisas as tornam, inevitavelmente, menos doloridas. Isso significa que nem tudo que é meu é lindo e isso inclui as faltas de respostas que tenho ainda pela vida e vou ter enquanto respirar. Eu estou doente, de todas as formas, e não tenho vergonha nem medo das palavras visto que elas só têm o poder que você dá a elas. Para mim, a palavra "desgraça" tem o mesmo poder que a palavra "buceta" ou qualquer coisa do gênero. Não me sinto menos ou mais por viver em hospitais que não existem de verdade, nem me sinto pior por falar meticulosamente o que foi feito para ser falado. Palavras.

Apesar da pressa, que acabei percebendo, é bastante comum em alguns dos meus amigos também, eu vou caminhando já que o tempo é um tempo bem diferente do meu. Não tenho muito o que fazer e, visto que já escrevi muita a palavra "esperar", vou fingir que ela não existe e viver como em Jumanji - apenas procurando a sobrevivência e rezando para tudo isso acabar logo. O que é triste e pessimista, mas enquanto eu não encontrar minha linha de chegada, meu Everest, meu grande propósito e clichês e tal, vou apenas abrir os olhos todos os dias me agradecendo por estar viva. "Consegui", eu digo, não me olhando no espelho pois não tenho um.

cabeça bagunçada

O Buraco

08:18



𝓟𝓲𝓷𝓽𝓮𝓻𝓮𝓼𝓽 | Ludic Life



Leia ouvindo: Violent Crimes - Kanye West

Me olhei no espelho durante bons minutos, até perceber que eu não me reconheço mais. Não reconheço os cabelos curtos que eu sempre gostei, não reconheço meu rosto, diferente do que me parecia e, olha, é a única coisa que está comigo desde o início. Minha inconstância se baseia em me sentir exatamente onde deveria estar e ficar desesperada para sair daqui logo - saudade de quando o futuro era só uma ideia e tudo me parecia tão delicioso só de imaginar. Mas hoje não tenho muito o que fazer a não ser esperar pois quanto mais fundo eu cavo, mais coisas vou descobrindo e, consequentemente, visto que nenhum ser humano é isento de desgraças, pior vou ficando.

Há anos escrevo sobre crescer e mudar - não é atoa que tenho essas duas palavras tatuados nos pulsos porque não é fácil mesmo - e eu sempre acho que já aprendi de tudo. Obviamente, estando errada, abro mais uma porta que me leva à imperfeição de ser humana e angústia de nunca chegar a lugar algum. Ano passado, um hora dessas, eu estaria, talvez, me declarando para o que eu acreditava ser o amor da minha vida e hoje não estou muito melhor que isso. Imaginar é mais divertido do que viver porque não existem obstáculos na nossa imaginação. Nós nunca vamos prever que existem outras inúmeras possibilidades para tudo ser diferente. Quando fiz meus mil e quinhentos planos para me mudar para São Paulo, não estava no roteiro que, no final, eu ia simplesmente não querer e me apaixonar pelo meu próprio estado. Minas Gerais é minha casa, mas o mundo ainda é meu destino.

As coisas mudaram, isso é fato e inevitável. Eu mudei, o clima mudou, meu corpo mudou e eu continuo mudando todos os dias já que enfrento uma batalha singular sempre que pisco. E dói, continua doendo mesmo depois de todas as anestesias que tomei para tentar atravessar esse processo menos dolorosamente. Acabei mexendo demais no cabelo e exagerando um pouco no que chamamos de 'self care' e, no final, deu nisso: perdição total e choros no banheiro da academia. Me pergunto, agora que não tenho mais espelho no quarto, como eu vou sobreviver sem conseguir olhar para mim mesma num reflexo que não é nem perto da realidade mas serve para me distrair? Talvez seja por isso que eu goste tanto do dadaísmo. "Ceci n'est pas une Bárbara Morais" porque a Bárbara Morais é muito mais do que o espelho mostra - é muito pior.

Eu ainda tenho a sorte de conseguir encontrar palavras para o que eu sinto e o privilégio de saber o que eu faço muito bem. Minha falta de auto estima ultrapassa a minha própria alma e chega num ponto de acreditar que até Deus está decepcionado comigo porque eu durmo demais e como demais. Mas o que eu deveria fazer? Não é sobre estar parada, é sobre não ter para onde ir porque as portas estão fechadas - eu as fechei e perdi as chaves lá em São Paulo, naquele quarto de hotel, nas lágrimas que derramei no avião pois, por Deus, amo aquele lugar mas não consigo me imaginar vivendo cercada por restaurantes e museus. Eu preciso de espíritos. Eu preciso de literatura viva. Eu preciso das pessoas que eu amo me fazendo acreditar que eu vou chegar onde eu quiser, mas quando for a hora certa. Não, nem eu acredito nisso.

â—€@naturalheartsâ–¶

A questão é parar de culpar o destino por estar infeliz visto que a decisão de desistir foi minha. E, modestamente, eu desisti de uma forma muito glamourosa e sensata tendo em vista que minha saúde mental está melhor do que estaria se eu estivesse longe ou até mesmo nem tão longe assim, mas ainda, longe. A vida é dar um passo para trás para, posteriormente, dar dois pra frente. São aqueles clichês que você lê quando ganha seu primeiro livro 12+ mas que quando você faz 18 fazem um sentido absurdo. Eu ainda tenho a perigosidade de estar presa num corpo que não é meu, mas fazer bom uso dele. Ainda tenho algumas coisas que eu amo e algumas outras coisas que me amam de volta, mas para ser bem sincera, no fundo, eu acho que isso não importa muito.

Escrevo e escrevendo vou entendendo que tenho uma função nesse mundo - sem querer ser chata, mas não aprendi isso escrevendo, mas sim, bêbada, na casa de uma amiga, em que minha professora de Teoria da Poesia estava presente e disse que leria um livro meu, mas talvez eu não gostaria do que ela falasse. Não me importando, Aline, minha artista favorita, me convenceu que meu destino mesmo é ser escritora, e não professora. "Como eu vou fazer isso?", perguntei, obviamente, sem querer saber a resposta. "Eu não sei, mas pelo menos agora você sabe o que quer fazer", ela respondeu, sendo tão sincera que me fez chorar no dia seguinte, no banho, enquanto lembrava que bebi vinho demais e não devia ter dormido tão cedo. Isso me fez refletir: quando eu posso me considerar escritora?

Não sou o tipo de pessoa que é apaixonada pela vida e nem me sinto obrigada a isso, apesar de acreditar que tudo seria tão mais fácil se houvesse um sentido. Sou o tipo de pessoa que não acredita em nada, mas ama Jesus Cristo incondicionalmente porque, em algum momento, ele disse que é isso aí mesmo. Isso o que? Não sei. E é isso. Sou o tipo de pessoa que, sem nenhum tipo de auto destruição, preferia não estar viva, mas também eu não sou niilista o suficiente para acreditar que a morte é a solução da vida. Complexos demais para caber em 1,56 de altura, dor o suficiente para me assombrar durante meus 18 anos de vida.

Ode ao verme que primeiro comeu meus ossos para depois engolir o que restou do meu peito. Ainda bem que eu faço Letras porque se eu estivesse escolhido Psicologia eu teria desistido da arte e a arte ainda é minha salvação.

Meu recado final para mim mesma, que talvez seja a única pessoa que lê esse blog, - sem desmerecer meus 10k de leitores mensais, sinto muito por isso - é: arrume seu quarto, organize as coisas, se apresse um pouco mais, mas o suficiente para você não se perder dentro da sua própria vida. Equilíbrio é tudo e, como diriam nossos mestres, é só usar um pouco de droga e depois comer salada. Desculpem pela comédia sem graça, mas eu tenho visto muito Friends e me identificado mais do que eu deveria. Agora sim, meu recado final é:

continue não fazendo nada.

cabeça bagunçada

Liberdade mesmo que tardia

16:32





Leia ouvindo: listen before i go - Billie Eilish

Há um dia eu parti. Comprei uma mochila maior que meu corpo nada saudável, coloquei umas blusas e umas calcinhas lá dentro, comprei as passagens, na hora mesmo, só de ida, e fui, rumo ao que, até hoje, eu não sei. Fiz as contas e vi que não vai sobrar uma moeda para o fim do mês - tive que abrir mão de saborear um bolinho de abóbora porque esqueci que preciso voltar pra casa. Isso me obriga a ficar na estrada até que eu encontre uma outra casa ou, pelo menos, até eu conseguir arrumar uma forma de comer.

No momento, escrevo em um caderno que está em minha vida desde que fiz minha viagem internacional mais simbólica. Visto que isso faz tanto tempo, meu caderno ameaça acabar, mas eu sinto que preciso registrar o que essas 30 e poucas horas longe de casa já fizeram comigo. É pouco tempo, comparado com os dias que ainda ficarei de ônibus em ônibus que partem uma vez ao dia procurando um lugar pra dormir. "Ei, tem quarto vago?", eu pergunto. "Não menina, tá lotado!". E lá fui eu caçar a cama quente que desejei durantes as cinco horas de viagem. Cheguei com febre e dormi a tarde toda pois estava doente de saudade de casa - desejei voltar, como desejei! Mas eu já tinha chegado longe demais para voltar atrás. Acho que, cedo ou tarde, talvez quando eu tiver uns 50 anos, vou entender um pouco melhor o que essa viagem pra dentro de mim fez comigo.

Sou de Minas. Minas Gerais é minha casa há 18 anos, mas eu só conheço, digamos, o meu quarto. E hoje, conheci a sala. Daqui uns dias, vou pra cozinha. Depois, quem sabe, vou conhecer as entranhas do estado que foi tão gentil comigo, mas que, por ignorância e comparação, eu não sabia que ver montanhas todo dia era um privilégio. Eu tenho adorado sentir o cheiro da história, passar pelas ruas e me sentir em outro século. Pra quem só via carros e asfalto, um bequinho de paralelipípedos soa tão poético quando está meio chuvoso.

Não viajei para Minas para me convencer de que gosto daqui - talvez até seja um pouco disso, mas acredito que posso escolher transformar essa informação em algo mais dramático. Disse o filósofo: "conheça-te a ti mesmo". Era isso mesmo? Então assim fiz. Inconscientemente, comprei as passagens para meu próprio estômago. Acontece que amar o que vem de fora é fácil porque é desconhecido, é novo e óbvio. Mas desde que me joguei nessa de desbravar as vísceras de tudo o que é meu, percebi que existem coisas sobre mim que, além de eu não conhecer, estavam cobertas por camadas nojentas de orgulho.

Acho que não sei escrever mais. Passei tanto tempo sentindo e apenas isso que agora todas as palavras me parecem um diário horrível e mal escrito ou um desabafo vomitado. Se vocês querem um vômito que eu não consigo tirar da barriga, lá vai: não suporto criar paranoias que não fazem sentido. Meu corpo fala e eu sou uma boa ouvinte. Ele falaria se eu não estivesse sozinha. Mas alguma parte minha não quer que o passado vá embora tão prontamente ou acha que o universo se preocupa demais comigo para me dar algo especial, digo, diferente.

Negativo;
afirmativo;
positivo.

Viajei, então, sem sair de casa pois, citando o óbvio, casa é onde nosso corpo está. Quem sabe minha relação com as cidades não se projete nas artérias e correntes que habitam minha pele? Se libertar de cicatrizes é algo dolorido e eu sempre falei sobre isso, até enquanto dormia. Eu tenho muitos medos e traumas que me perseguem mas que, por motivos claros, eu fujo. Mas agora estou me construindo, tijolo por tijolo, para aguentar o que estiver lá fora. Ó céus, eu pareço uma adolescente clichê aprendendo a viver! - alguém me avisa que é exatamente isso o que sou?

Fique inteira. Se esforce para viver. Tem alguém te dizendo algo. Escute..

Escuto.



Amor

Livramento

16:09



Morning sunshine




Leia ouvindo: Depois - Tribalistas

Hoje eu me lembrei o motivo pelo qual não escrevo sobre você há tanto tempo - porque eu sempre escrevi para você. Mas agora eu estou determinada em encerrar esse ciclo vicioso entre achar que você é o cara certo e ter certeza que eu não quero te ver nunca mais. Então, por isso, hoje, eu pedi esse computador emprestado para escrever sobre/para você, sem que você ouça de mim, necessariamente. É estranho, sinto que eu perdi o jeito com as palavras, mas sei que logo tudo volta a ser bem familiar. Então não estranhe se eu não parecer eu mesma, estou apenas conversando com essa velha amiga que eu chamo de "eu".

É engraçado como a gente só aprende determinadas coisas apenas olhando para trás; olhei hoje e vi que, por Deus, como eu arrisquei tudo por você. Isso, com certeza, é algo que você não vai entender ou reconhecer, mas que é tão claro pra mim. O tempo todo eu estava numa linha tênue entre ser quem você precisava que eu fosse e surtar completamente por não conseguir. Hoje eu tenho uma cama de casal e durmo sozinha - sei que á te convidei algumas vezes mas, sinceramente, não me vejo dividindo essa vida caótica com mais ninguém além de mim. O que estou querendo dizer é que me esqueci por uns dias e não pensei no que eu realmente queria. Acessar esse "realmente" é meio chato e dolorido e eu ainda não tenho a resposta certa, mas olha só a vida que vivemos. Extremos opostos e eu não posso viver a mercê desse jeito.

Aprendi comigo mesma que eu sou um paradoxo: preciso de segurança mas não quero estar presa. É como um seguro de viagem. A segurança que eu sentia em você era única e especial, mas em algum momento isso passou a ser minha corda bamba. Você pulou fora antes que eu percebesse a dor que eu sentia no peito. Voltou antes que eu pudesse me costurar. Depois foi embora, de novo, antes que eu pudesse me lembrar de  como era seu rosto. Você iniciou um ciclo que eu, quase um ano depois de ter quebrado um anel de coco de péssima qualidade, não consegui encerrar. Me coloquei em risco confiando que você sabia o que estava fazendo. E não sabia. Ainda não sabe porque tenho certeza que quando você sentir miserável de novo, é a mim que você vai mandar mensagem pedindo aquela massagem no ego que eu me recuso a te dar.

De certa forma, eu sinto que você me deve algo. Você me deve submissão. Amor eterno. Gratidão profunda. Todas as suas histórias de bar. Você me deve ser sua dor mais horrorosa e terrível porque é exatamente o que você é pra mim: uma decepção típica de um relacionamento adolescente demais para sequer dividir uma cama visto que a gente não tem responsabilidade para cuidar do coração um do outro - se fosse só sexo, estava fácil. Você me deve um pedido de desculpas por ter entrado na minha vida e bagunçado o que havia de mais certo em mim. Talvez seja por sua causa, por medo de te encontrar no metrô ou qualquer coisa do tipo, que eu ainda estou presa nesse passado que não me parece certo. Desculpa se te carreguei de culpa, mas agradeço por ter estrago tudo pois eu precisava muito de um tempo pra pensar.



Hoje eu me livro, ou no minimo aceito que você foi mais um erro maravilhoso que cometi, para buscar um propósito que não envolva eu e você tendo uma filha no final. Eu quero que você seja feliz, eu juro que quero. Mas do mesmo jeito que te falei naquele quarto de hotel, não quero estar perto para ver isso. Provavelmente porque eu queria ser parte da sua felicidade, mas não suportaria a sua inconstância. Te juro que estarei sendo feliz daqui, de Belo Horizonte ou talvez de outro lugar, mas não sei como ainda. Sozinha é tudo mais difícil, mas também é muito mais emocionante.

Perdi as contas de quantas vezes eu me despedi e acabei voltando para pedir algo. Eu sei que isso pode ser egoísta - e de fato é -, mas eu não estou questionando meus defeitos aqui, nunca disse que seria fácil ir embora ou que isso fosse uma vontade certa. Eu tenho muito medo do que a vida tem preparado para mim e você fazia tudo parecer leve. Mas agora é hora de eu mesma me fazer leve e levar leveza para onde eu for. Parto em alguns dias para um lugar que nunca fui e sozinha porque eu posso. Porque eu trabalho, porque eu tenho minha casa e tenho meu dinheiro. Tenho tempo - coisa que, convenhamos, você não tem nem para você mesmo. Isso significa que não vai ter mais espaço para você daqui pra frete porque preciso dos vagões vazios para a viagem não pesar e eu precisar parar ao longo do caminho para descarregar. E se eu chega sem nada, bom, pelo menos eu cheguei.

Peço, ritualisticamente, que você suma. Que você pegue todas as dores que me causou e leve com você como exemplo - essa sua namorada nova é incrível, por favor, não erre com ele de novo. Peço que você seja representante do meu passado e, em troca, eu prometo não te procurar para resolver qualquer assunto pendente. Algumas vezes, é preciso lidar com a dor não lidando com ela. E eu quero a leveza de poder deixar você ir embora, da mesma forma que você me assistiu saindo do metrô - foi tão bom, eu me senti tão bem sem sua energia no meu corpo (apesar de me sentir suja).

Esse não foi um bom texto pois estou guardando os melhores para o livro que publicarei em breve. Você não merece uma boa crônica, ou um bom poema, mas você merece respeito. E em respeito aos 2 curtos anos que compartilhamos a vida, encerro com todos os pontos que você quiser(!!!!!). Anuncio minha partida e anuncio a sua volta para ti mesmo. E apesar de sentir que você me deve todo o seu império, eu também só espero que você me respeite e reconheça o meu cansaço. Estou cansada de ser a amante, a estrangeira, o caos, seu ponto fraco. A partir de agora, eu sou problema meu. Me deixe comigo.

cabeça bagunçada

eu odeio poesia

13:25



Leia ouvindo: Drive Darling - BOY

Aqui estou eu. Alguma parte de mim precisa voltar no tempo, antes de tudo isso virar "tudo isso" propriamente dito. Outra parte, por sua vez, tem uma preguiça imensurável de tentar e de viver. A mente humana sempre me fascinou, porém, a minha mente é a mais codificável que eu conheço pois, mesmo abrigando-a, eu não a entendo. Estou coberta de feridas e dores, machucados na pele e no peito - principalmente no peito - mas não existe nada externo que me chicoteia. Esse parágrafo é muito menos subjetivo do que parece, mas a verdade é que eu só estou tentando direcionar as melhores palavras para o que parece indecifrável.

Acho que em algum momento eu já mencionei a minha inevitável dificuldade em ficar feliz. Há alguns dias eu descobri que confundo perfeição com felicidade, o que me parece bastante justo visto que eu me cobro muito mais do que deveria - o que eu ainda não descobri é de onde vem essa cobrança imensa e exagerada. Essa dor e essa pressão me tiraram a leveza - fato que eu carrego há meses e não consigo me livrar. Perdi as palavras que costumava usar para tirar o pus do coração e das costas. Perdi a esperança de conseguir mudar.

Eu penso em desistir. Se eu disser que não, infelizmente, estarei mentindo. O que me mantém de pé - de pé eu quero dizer ainda tentando pois eu não consigo, ainda, ficar de pé - é me lembrar do porquê de ter começado. Mas eu me esqueci, acredita? Porque o porquê foi uma puta mentira. Uma mentira que eu inventei para dar algum sentido à minha existência que por si só não tem sentido. Quanta inutilidade para um amontoado de células e de carbono, um pó de estrela que no fundo só queria ter continuado sendo um pó de estrelas. Talvez, se eu só fosse, e parasse de tentar ser, eu seria mais útil.

Enfim, no meio desses pensamentos que mais me consomem do que me tiram da cama, eu me lembrei de uma cena de Guerra Infinita em que o Doutor Estranho - acho que foi ele mas se não foi, Teusão, me desculpa por falhar como sua ex namorada - visualiza todas as possibilidades possíveis para um final feliz e pleno daquela situação. Estou nesse dilema. Calculei, na minha mente nada robótica ou engenhosa, todos os cenários da minha vida e encontrei apenas um em que eu estaria feliz. Satisfeita. Sorridente no banho e grata. E adivinha qual é?

Subjetivo demais? Desculpa. Por mais que eu tenha perdido a prática da escrita eu ainda sou poeta. E preciso deixar de achar que se assumir poeta é prepotência pois não é privilégio algum sentir dor em toda folha que cai de uma árvore. Na realidade, é mais um castigo que o destino deu pois ser indiferente é muito menos penoso do que ser a intensidade em pessoa. No fim das contas, é isso. Ser poeta é um castigo e eu ainda possuo o castigo de não ser a melhor poeta de todas. Talvez, se eu fosse, as palavras fariam mais sentido do que fazem em minhas mãos. Talvez, se eu fosse, poesia seria meu propósito e eu viveria por ela - mas não é, eu odeio poesia, são sentimentais demais.



Sempre quando escrevo eu percebo que nasci pra isso. Não porque eu faço isso bem, longe disso. Mas sim porque é quando eu fico transparente, ou como meus amigos costumam dizer, eu viro filha de vidraceiro. É bom ter o peito aberto quando é necessário - mas eu costumo falar muito sobre medo, né? E o peito aberto dá um medo do mundo. Apenas para resumir a presença do medo: eu o tenho. Tenho muito. Tenho medo de realizar os sonhos que criei e os que não criei, mas que estão aqui e que existem mas eu não sabia. Os que não existem também. O quanto minha cabeça se perdeu é um mistério que precisa ser tratado com crisocolo e rivotril, quem sabe. Mas para ser sincera, eu só estou perdida - e sempre fui muito boa em me encontrar. Essa é só mais uma fase que vai virar ou só mais um livro que eu transformei numa história de merda e sem graça que absolutamente ninguém vai querer ler? Nunca fui boa escritora. Desculpa Clarice, desculpa Marina.

Perdi o fio da meada. Preciso voltar a sentir algo para escrever. Pronto. Lembrei que daqui alguns dias estarei partindo para a nova vida que nunca planejei. Isso dá um vazio, sabe? É como se todo esforço não serviu muito pra algo. Mas ainda assim é uma boa vida. O que é ruim é quem está cuidando dessa vida - eu. E a bendita solidão que já é minha velha amiga hoje nem me incomoda mais. No fundo, nós duas sempre fomos o complemento da outra e eu só aceitei. Aceitar é o melhor caminho para parar de doer algo profundamente.

Ainda me restam alguns parágrafos de poesia para que meu peito esteja livre. Vou falar de como eu sinto falta de ter 15 anos. Aos 15 anos eu ouvia Arctic Monkeys e só pensava na vida que poderia ser - porque sonhar é sempre mais fácil do que realizar e quando se tem 15 anos a gente acha que tudo cai do céu quando se completa 18. Eu sinto falta, sobretudo, das músicas que deixavam a minha vida igual a um filme do Wes Anderson. Sinto falta da chuva, do frio, da sensação de estar crescendo e de ser a pessoa que eu quisesse. Eu tenho 18 agora e acho que decepcionei a Bárbara de 15 - mas se ela estiver decepcionada de fato, que se foda, ela não sabia de nada, pirralha escrota. Acho que o único sonho que ela realizou mesmo foi conseguir comprar ingresso pra ver o tal do Arctic Monkeys. Valeu a pena? Ainda não sabemos.

Quanto mais escrevo mais percebo que sou uma bola de caos. E que bom, né? Me diz que isso é bom. Se não for, terei que repensar todo meu curso de letras - e trocar pra biologia pra procurar um sentido cientifico pra vida, e não tão lúdico quanto a poesia. É muita ilusão acreditar que a gente vive porque é bom - a gente vive porque somos apenas um erro que Deus cometeu e agora ele, com ódio da humanidade, tem que alimentar essa raça de corações barulhentos que, por puro orgulho e vaidade, acha que palavras são feitas para embelezar a alma. Fomos criados para destruir o mundo e o mundo foi criado para nos destruir. Talvez eu deva fazer filosofia.

cabeça bagunçada

Texto de despedida

12:52


Leia ouvindo: Last hope - Paramore

Dentre minhas limitadas qualidades, eu posso afirmar que sou uma pessoa de compromisso. O que, na maioria das vezes, me causa um estresse desnecessário porque hoje em dia ninguém faz questão de não ser egoísta e, consequentemente, ser gentil. Por isso, meu coração está partido. O ano de 2018 foi, de uma maneira resumida e sincera, um caos, talvez, mas um caos bonito de se ver. É tipo aquela cena em que está todo mundo se batendo e no fundo está tocando uma música clássica pois o caos também precisa ser apreciado e vivido. Entretanto, esse caos não me foi tão favorável assim pois, entre outras coisas, eu estava ocupada demais tentando não morrer. 2018 foi um ano que eu fiz muito esforço para me manter viva.

Mas calma. Esse texto de despedida não deveria ter teor melancólico porque, a boa notícia é que tudo melhorou - ou está tendenciando a melhorar. O que eu não terminei de falar no parágrafo anterior é o porquê de o meu coração estar partido. Ora, eu não tive compromisso algum comigo mesma. Nas poucas vezes que eu escrevi era um último suspiro de desespero, um sentimento intensificado de beatitude ou um grito de ajuda. Às vezes, os três juntos, talvez. Porém eu não tive tanto compromisso com as palavras igual eu gostaria de ter tido. Isso me deixa bastante cabisbaixa mas, ao mesmo tempo, me deixa animada para o próximo ano que é uma oportunidade de fazer melhor.

Não me julgo, de qualquer maneira. O caos instaurado me deixou na inércia e acabou que eu só vivi aquilo que escolhi viver. Tantos sonhos desmoronando ao mesmo tempo, tantos planos mudando de última hora e um coração nada preparado para abruptações, mas que teve que lidar com isso de um jeito ou de outro. O meu "outro", no caso, foi fingir que nada estava acontecendo - o que é bastante contraditório pois eu sou a pessoa que mais levanta a bandeira do auto conhecimento (depois da minha mãe, talvez, beijo Dona Angélica). Isso, portanto, trouxe consequências tais quais momentos intensos de paz e surto.

Paz. E surto. A paz, quando bem sentida, era preenchida pela beatitude anteriormente mencionada e eu, que não estava tão preocupada em registrar o momento, deixava passar e ficava apenas com a sensação. Sem palavras. O surto, por sua vez, era sofrido em silêncio pois as palavras apenas aflorariam a dor pré existente. Sem palavras também. Resultado - apenas consegui escrever últimas gotas de copos de água, poucos fluxos de consciência e muitos artigos de opinião que nunca postei aqui pois o medo esse ano também foi inerente. Paz, surto e medo. Desequilíbrio total.


Numa retrospectiva rápida eu: passei meu primeiro carnaval intenso, terminei meu namoro, descobri o que é amor próprio - e esqueci também -, fiz novos amigos, estudei até não aguentar ouvir palavras difíceis, me guardei dentro de uma gaveta, voei sem asas, voltei com meu namorado e terminei com ele no dia do meu aniversário - fiz uma festa de aniversário e me apaixonei uma semana depois, entrei num relacionamento nada sério - o que foi a experiência menos Bárbara Morais que Bárbara Morais já teve -, fiz quinhentos vestibulares e surtei por causa de todos. Passei em alguns, obrigada pelos parabéns, mas outros eu ainda estou esperando o milagre. Briguei com meus amigos, o que me fez perceber que eu também machuco as pessoas - e que eu realmente tenho amigos. Mudei o curso, a faculdade, voltei pra estaca zero e me questiono todo dia se essa é a escolha certa. Comecei a namorar. De novo. Com aquele meu relacionamento nada sério. E isso tudo foi ontem.

E hoje, estando sozinha nessas férias que não são férias pois tudo o que eu preciso fazer é estudar o que amo, me peguei refletindo quais são minhas metas para 2019. E minha meta é: ter mais compromisso. Compromisso não só com a certeza, pois isso é fácil. Mas, principalmente, compromisso com as coisas que ficam nas nuvens e que eu não tenho controle. E compromisso quer dizer deixa-las acontecer de maneira leve pois metas são, no fim das contas, especulações nada favoráveis do nosso futuro. Quero ter compromisso com meus caos, meu acaso, com minhas beleza e, sobretudo, com as folhas em branco que me aguardam - várias metáforas num parágrafo só, né?

Portanto, meu caro leitor, agora que você entende minha oscilação entre paz e surto, você percebe que meu caos não era eufemismo. Dessa forma, eu sou obrigada a me despedir da Bárbara que iniciou o ano de 2018 em São Paulo, com a certeza de que aquele seria seu destino e que as coisas a partir dali dariam certo - porra, deu tudo errado. Mas como dito anteriormente, de uma forma linda. Esse texto que, por sua vez, é um texto de despedida, significa o abandono conivente e quase maternal de alguém que não sabia muito bem o que fazer. Bom, eu ainda não sei, mas o que difere é que agora eu pelo menos vou tentar. E tentando eu consigo alguma coisa. Anos ímpares são meus anos da sorte.

PS: Eu não esperaria crônicas iguais as que vocês estão acostumados a ler. Vou mudar umas coisinhas.

Arte

Me desculpa, Baco, queria ser você

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Sei que eu não sou muito de publicar textos que sobressaem meus sentimentos individuais e até um pouco egocêntricos. Sei que eu mais abandonei a escrita do que a fiz de refúgio nos últimos tempos. Mas quando aparece algo que te tira do rumo, te sacode e, até mesmo, te traz de volta a vida, chegar atrasada no ultimo dia de prova se parece justificável - visto que eu acordei de madrugada pra escrever isso e tive um devaneio, quase um sonho (não sei ao certo se eu estava dormindo). Acontece que passei as últimas semanas ouvindo o álbum do Baco Exu Do Blues, Bluesman, e já na primeira música eu me arrepiei da cabeça aos pés. É muito difícil expressar os sentimentos mais profundos que eu guardo dentro de mim, aqueles que, às vezes, a gente tem até vergonha de admitir que sente. Mas, entre eles, eu sempre me senti um pouco culpada por me identificar com músicas e artes em geral sobre o movimento negro. Sempre achei que eu não tinha o direito de cantar alto, de saber os ritmos - desde quando eu percebi que sabia cantar todas as músicas do Racionais mesmo não tendo vivido um quinto daquelas letras. O álbum do Baco me fez entrar nesse sentimento um pouco mais, um pouco mais intensamente,  mas me distanciando da culpa e entrando de cabeça na melodia e no embalo que todas as músicas têm a oferecer. Então, hoje, eu só reconheço o meu privilégio de ser uma pessoa branca e ter o espaço pra enaltecer essa obra que merece uma atenção enorme, entretanto, ainda com um pouco de receio de pisar onde não devo. Foi quando eu entrei no ônibus e vi um homem que vendia capinhas de celular para ajudar uma clinica de reabilitação. Mas a capinha era tão barata que é sabido que o trabalho escravo estava inerente naquilo. E aí ficou a pergunta. Qual mundo eu vou salvar hoje: o mundo das drogas ou a exploração laboral? E então eu percebi, minha finalmente ficha caiu. Não importa se começarmos a fazer tudo perfeito a partir de agora, nada vai dar certo. Ou não certo o suficiente para que a gente possa presenciar o bem se alastrando, quebrando prédios e libertando os presos. O que isso tem a ver com Bluesman? Bluesman me fez perceber que a gente não precisa mudar o mundo, mas aprender a viver nesse mundo meio bosta. O que não é necessariamente ruim, mas é o que tem pra hoje. Não sei se foi a intenção de Baco fazer-nos refletir sobre isso, mas se a questão social dentro do álbum está presente - e está -, eu consegui aplica-la de uma maneira abrangente e que, sinceramente, ao mesmo tempo que me deixou pessimista, me deixou mais tranquila. Já faz algum tempo que eu percebi que eu venho perdendo as esperanças e Baco só me trouxe pro lado certo: não desista, apenas jogue o mesmo jogo que eles. 

Mas agora falando sobre o aspecto que está florescendo na minha vida agora. O aspecto que não tem nome, nem cor, nem cheiro. O aspecto que apenas Baco conseguiu traduzir perfeitamente bem em algumas músicas. É sabido que ele fala bastante sobre doenças mentais. Achei que esse fato era de senso comum até eu ver que ele precisou explicar ao seu público o que estava escondido nas entrelinhas. Nossa sociedade está tão iludida assim?, pensei. Esses sentidos e sensações são mais presentes no nosso dia a dia do que a gente gostaria, e fatalmente não é tão simples falar sobre eles mesmo sendo tão inerente. E mesmo sendo tão inerente, a gente ainda precisa decifrar os versos pois nada está claro o bastante para falar sobre isso. Apesar de algumas músicas estarem disfarçadas de uma grande homenagem pra ex - eu sei bem o que é isso -, não precisa reouvir muitas vezes o álbum pra perceber que Baco é gente como a gente - e está perdido. Mas a solidão não precisa ser tratada como aquela calcinha suja que a gente taca pra debaixo da cama. Muito pelo contrario, a gente deve transforma-la em arte.  O álbum, em determinados momentos, me lembrou uma instalação de Tracey Emin que chama "My Bed", em que ela reproduziu sua cama na qual passou vários dias deitada, cercada por garrafas de bebida e embalagens de comida, mergulhada numa tristeza profunda, indescritível, porém, bastante comum a todos nós. Essa paisagem não me é estranho, por exemplo. Isso, pra mim, é lindo e provavelmente é uma das instalações que eu mais amo no mundo pois retrata de uma maneira nada glamourosa um sentimento que não precisa de glamour pra ser retratado. E quando eu ouvi Bluesman pela primeira vez eu só consegui visualizar esse cenário pois, apesar de ser lindo, existe uma dor profunda que fez Baco rabiscar palavras por dias, sem sentido, com raiva, como um desabafo, com medo ou até mesmo sem medo algum, apenas mordendo a pele pra abafar seu maior grito. A gente que está por fora nunca sabe o sofrimento que envolve produzir arte. 

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                                        "Me deixe viver ou viva comigo 
                                         Me mande embora ou me faça de abrigo" 


Esses primeiros versos de Flamingos refletem bem o que tenho vivido nesses últimos meses. Uma vontade imensa de viver, mas, ao mesmo tempo, uma preguiça de fazer dar certo. Fazer o que dar certo? Não faço ideia. Mas temos preguiça. Temos saudade e a certeza de que não se pode banhar duas vezes no mesmo rio, ou seja, por mais que um momento se repita, ele jamais será o mesmo. Reparei também que nessa música a simplicidade é tão presente que podemos enxergar com clareza todas as descrições cronológicas que são feitas. Conseguimos nos imaginar usando camisas suadas estampadas de flamingo, ouvindo exalta na quebrada, gritando: eu me apaixonei pela pessoa errada. De todas, essa é a música mais confortável do álbum. No meio de tantos sentimentos que se confundem com os sonhos eróticos com a Beyoncé, existe uma batida tão leve que traz uma mensagem profunda durante um sono de quase dias. Um sono esse que eu preciso, inclusive, e acredito que Baco também. Portanto, o conforto vem como uma brisa de verão. É possível sentir o vento batendo e o cheiro do mar quase que te enrolando, te convidando pra entrar - como uma boa mineira, eu nem lembro mais o que é isso, mas sei o que é nostalgia. E nostalgia é um sentimento horrível. Se a vida fosse aquele filme do Adam Sandler, "Click", os momentos nostálgicos seriam aqueles que a gente com certeza voltaria para viver de novo. Mas o que mais aprendemos nesse filme? O tempo fica no seu tempo e a gente lamenta, mas segue em frente.


Eu não ficaria confortável comigo mesma se eu não mencionasse aqui a música "Girassóis de Van Gogh". No fundo, esta é a que eu menos tenho o que falar pois nem eu entendi os impactos que ela teve sobre mim. Só sei que eu não sou mais a mesma. Entretanto, quando falamos de depressão, os girassóis de Van Gogh propriamente ditos são um símbolo bastante comum e representativo pois este era um artista bastante complexo e que deixou muitas marcas para a história da arte relacionadas a esse assunto. Falei apenas mais do mesmo, né? Não importa. A arte visual é um assunto bastante delicado pra mim, que eu busco, até hoje, me encontrar e não me envolver mais do que eu preciso com isso. Van Gogh, ao contrário de várias outras pessoas, não é um artista tão importante pra minha vida - quem sabe, um dia, eu escreva sobre os pintores que me pintaram. Mas o que eu acho interessante no álbum do Baco é como ele trata essa questão da tinta em suas músicas, explorando outros aspectos da arte, falando, inclusive, sobre Basquiat, que começou a chegar nas escolas agora. E se vamos falar de tinta, quero ressaltar um dos versos mais lindos do álbum que, não por coincidência, eu espero, finalizam esse simbolismo em forma de música.

"Sou meu próprio Deus, meu próprio santo, meu próprio poeta
Me olhe como uma tela preta, de um único pintor
Só eu posso fazer minha arte
Só eu posso me descrever
Vocês não têm esse direito
Não sou obrigado a ser o que vocês esperam
Somos muito mais!
Se você não se enquadra ao que esperam
Você é um Bluesman"




Mas no fim das contas, há uma música, entre as nove, que me chamou mais atenção. Talvez pela verossimilhança com minha própria vida e com esses sentimentos que eu anteriormente citei por serem vergonhosos demais. Não estou apaixonada, mas mandei essa música para umas três pessoas que eu queria queimar a pele, bem de perto. Portanto, o que mais me chamou atenção nessa música foi a intertextualidade - talvez meio despretensiosa, mas foi exatamente isso que fez com a música me levasse - que ela faz com um poema de Manoel de Barros que chama, justamente, "Difícil é fotografar o silêncio". E não é que é difícil mesmo? 

                                                       "Fotografar o silêncio é tão difícil
                                                        Fotografar o meu medo é tão difícil
                                                        Fotografar a insegurança é tão difícil
                                                        Eu disfarço tudo com cigarro, cerveja e sorriso"

                                                       




O meu problema sempre foi a intensidade. Isso é muito claro nas coisas que escrevo e pinto. E senti, portanto, uma compaixão enorme por essa obra de arte que, com toda certeza, será conteúdo obrigatório nas minhas aulas. A maneira como ele esclarece as questão pessoais que ficam entre a vida e a morte, e até mesmo entre a vida e a pior parte da vida, é única e são poucas pessoas que conseguiram fazer isso. Além do mais, a bagagem que deve se carregar para se manter sensível num mundo de pedra é gigante e tem que ser reconhecido. Baco, meus alunos irão te conhecer. Farei uma prova sobre seu álbum daqui alguns anos. Suas músicas, com tantas referências e figuras de linguagens, variedades, poesias, métricas desleixadas e, além de tudo, arte para fora e para dentro, devem, sim, sair do palco e ir para o peito, assim como foi pro meu. Saio de Bluesman uma pessoa nova. Uma pessoa que não sentiu tanto impacto em ESÚ - mas que deveria - e que, agora, para todo lugar que eu olhar, aceitarei as pessoas como Bluesman, Blueswoman, em potencial.