Arru-inada

12:17


Peguei-me pensando no tempo e quanto tempo eu perdi. Perdi dando importância para as grandes coisas, quando na verdade, as pequenas coisas são maiores ainda.
Eu, por exemplo. Tenho um metro e cinquenta e oito de altura e quarenta e sete metros de imensidão. Imagina algo assim, tão grande, funcionar com apenas uma dízima de parafusos? Mas, com uma dízima a mais ou uma dízima a menos, eu sempre me desabo. Desabo em mim mesma.
Perdi uma sustentação importante, por dar importância aos motores turbinados e materiais enormes. Esqueci que nada disso seria do jeito que é, sem algo menor. E menor seria, se eu fosse grande. Grande o bastante para me aguentar. Maior que essa arruela que me prende.
Saí de casa e percebi que o céu desabava. Peguei todas as ferramentas e fui conserta-lo. Quanto mais eu apertava, mas ele se soltava.
E se soltou. 
Sentei-me no meio da rua e me questionei o que estava errado. Encarei aquele círculo com um furo no meio, e coloquei em minha mão. Me perguntei se aquilo era necessário e coloquei no bolso. Um bolso sem fundo.
Subi as escadas mais um vez e com uma única arruela, consertei aquele céu. E de roxo ficou verde.
Sustentada e acabada, fiquei olhando o céu verde. Bela cor, pensei. Mas algo estava errado. Minha insanidade e minha sanidade estavam equilibradas demais. Prendi o cabelo, peguei mais ferramentas, e lá fui eu de novo.
Prendi mais uns parafusos, arrumei as coisas. Organizei a vida. E de verde, ficou azul. Bela cor, pensei de novo.
Tudo em ordem, agora. Posso ir embora.
Mas uma parte de mim, não me deixava sair dali. Fiquei mais um tempo, na solidão e escuridão.
E assim, de azul ficou-se preto.
Cega, fui-me embora em busca de algo para me ocupar. Arruinada, levantei da cama assustada, já que tinha parado de sonhar. E sem sonhos, não tenho mais nada para arrumar.


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