Escolhas

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Era tarde. Ela acordou desesperada, com e medo e suava frio. Seus olhos cinzas ficaram pretos por causa da dilatação de sua pupila. Seus lábios estavam ressecados e se mordiam. E suas mãos, coitadas, tremiam com o frio. 
— Que pesadelo estranho. - ela disse - Até pareceu real.
Ela desceu as escadas no meio da escuridão e acendeu a luz. Notou a bagunça que estava a sua sala e colocou as coisas em ordem. Ou pelo menos, tentou. Se dirigiu para a cozinha e abriu a geladeira. Cheia de energéticos, bebidas e doces. Em cima da mesa, via suas drogas da noite passada e fingiu que não as viu.
Pegou um copo de vodca, um pouco de seus remédios e sentou ao lado das siringas e da cocaína. Engoliu o primeiro comprimido, e tomou um gole. Engoliu o segundo, e tomou outro gole. Fechou os olhos.
—Escola a sua morte. - ouviu alguém dizer
A voz parecia bem próxima. Olhou ao seu redor para ver se encontrava alguém e avistou uma mulher de vinte e poucos anos. Um pouco mais velha que ela. E ela ficou ali, em pé do lado do sofá.
— Quem é você? - ela perguntou
—A morte. - a mulher respondeu
—Mas já?
—A vida passa rápido, minha querida. - a morte disse, em um tom irônico.
Sim, passa bem rápido. Um filme passou em sua cabeça com todos os momentos de sua vida. Os bons, e os ruins. As risadas, as lágrimas, os sonhos. Todas as coisas que ela deixou passar e as coisas que ela se arrepende. "É o fim", ela pensou.
—Quais são minhas opções?- ela perguntou
—Todas.
—Todas?
—Sim, todas. Você pode morrer de qualquer coisa.
—Até de amor?
—Principalmente de amor.
Ela se levantou da mesa, passou a mão no rosto e em seus cabelos loiros.
—Se eu vou morrer de qualquer jeito, por que devo escolher? 
— As escolhas tem consequências.
— Como assim?
—Quem morre de overdose, vira pra sempre um viciado. Quem morre de aids, fica vulnerável.
[silêncio]
—E quem morre de amor? - ela perguntou
A morte ficou em silêncio. Deu um gole no copo de vodca e acariciou a gata da moça. Sentou-se no sofá e disse:
—Vira um eterno apaixonado. Paranoico, e se alimenta de um sentimento que nunca teve. Amor.
Ela pensou. Pensou mesmo e pensou muito. De qualquer jeito, ela iria morrer. Ficou tão confusa e indeterminada que qualquer resposta era válida.
—E morrer de vida? - ela perguntou
—Ora, menina. Todos morrem de vida!
—Ah, é?
—Claro. É a vida que nos mata.
—Então, você também é a vida?
—Sou sim.
Ela estava tão confusa. Não tinha palavras no mundo que definia a sua confusão. A morte parecia algo horrível, mas nem tão ruim assim. E a vida é ainda pior que a morte. Mas o silêncio, ah o silêncio. Poderia curar toda essa confusão. Mas ele foi interrompido pela voz da morte - que estava cada vez mais perto.
—Escolha a sua morte.
Pensou e pensou. 
Nada.
—Não posso ter alguns dias para pensar? - perguntou
—Você teve a vida toda. Não posso te dar a morte também.
—Então acho que não tenho escolha.
A morte segurou sua mão e a deu um beijo na testa. Ela sabia o que aquele beijo significava. E em um sorriso, ela desapareceu.
Ela estava sozinha de novo. Com aquelas drogas e a pior droga de todas: a solidão. Visualizou suas drogas e as colocaram no sangue com uma força tão intensa, que sua visão se limitou. Não enxergou mais nada, até que não ouvia seus próprios pensamentos.
—Suicídio. - disse a morte - Uma péssima escolha
As cores do dia começaram a se apagar até que não restou mais cor nenhuma. O corpo dela caiu da mesa e se espalhou pelo chão. Sua gata deitou do seu lado, mexendo-se sem parar.
A morte veio busca-la.
—Suicídio. - pensei - Uma ótima escolha.




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