Não podemos ser só amigos

13:14


— Espero que um dia você consiga ser só minha amiga. - ele disse olhando para o chão, fechando a boca com firmeza como se estivesse certo do que falava.
Virou as costas sem falar uma palavra e foi embora. Eu fiquei ali, em pé e confusa, tentando entender o que estava acontecendo. As palavras entraram pelos meus ouvidos e se alojaram no meu cérebro. Mas de algum jeito, eu não entendia. Não fazia sentido. Fechei os olhos e pude sentir uma lágrima caindo pela minha bochecha esquerda. "Droga", pensei. "Aqui não".
O caminho de volta para casa foi solitário. O vazio que estava no meu coração se espalhou por todo o meu corpo, devorando os pequenos sinais vitais que ainda restavam em mim. As palavras que ele me disse foram como balas de prata, acertando em cheio meu peito, sem dó ou piedade. E sangrou. Ah, como sangrou...
"Espero que possamos ser só amigos". Poxa, achava que isso era coisa de filme. Parece mais ficção científica do que romance. Quero dizer, como dois amantes deixam para trás toda a história que um dia construíram, para começarem uma história nova de um gênero diferente? Juntos, porem tão distantes...
O que ele ainda quer comigo? Me mantendo em sua vida, me guardando como se eu fosse um pingente antigo de família. Aqueles que só se usa uma vez na vida outra na morte por ser muito caro ou especial. Não sei se sou tão especial assim. Me esquecer é mais fácil, sempre foi. Mas ele ainda quer ser só meu amigo, como se o que eu sentisse dentro de mim não fosse importante. Fosse inexistente.
E eu, infelizmente, não suporto isso. Não sei separar o passado do futuro e principalmente, não sei entender que o amor acaba. Prefiro acreditar nisso até que me provem o contrário.
Acabei pedindo para ele ir embora, mas ele sempre acaba voltando para dar umas facadas no meu coração, esfregar na minha cara que a vida dele tá muito boa, que isso ou aquilo. E claro, voltar com aquele velho e bom papo de que deveríamos ser só amigos.
Cheguei em casa e tranquei a porta do quarto. Coloquei The Pixies pra tocar, mas aquilo de alguma forma, começou a me irritar. Acho que minha mente já gritava o suficiente. O teto branco estava borrado de lágrimas. Enquanto tentava dormir para calar a boca dos meus próprios pensamentos, meu celular apitou como se não tivesse recebido notícia boa. Ah, lá vem problema...
"Chegou em casa bem?", dizia. Meu coração disparou e eu pude sentir novamente, o gosto salgado das minhas lágrimas passando pela minha boca. Não sabia o que responder, nem se eu queria responder. Mas a raiva tomou conta do meu corpo, como se eu e o ódio fossemos um só.
Não, nós não podemos ser só amigos. Nós não podemos ser mais nada.
Por favor, vá embora.

Quem de nós dois - Ana Carolina 



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