O buraco é mais embaixo

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Não sei exatamente quando as coisas começaram a dar errado. Não sei quando foi que a última folha caiu da árvore, ou quando a última gota de chuva secou da janela. Não sei quando foi que o café esfriou, o disco acabou ou meu coração parou de bater.
De repente, tudo ficou escuro. Tudo começou a se apagar, e essa luz interna que ainda brilhava em mim, acabou. Eu virei uma grande estrela morta, que depois de anos iluminando outros corpos celestes, se apagou, por simplesmente estar cansada demais para continuar.
É difícil escrever sobre o que acontece dentro de mim. O que passa na minha cabeça ou o que eu ando sentindo. Eu simplesmente não consigo sentir nada. Sinto que meu coração está pendurado em alguma linha imaginária, e ele fica ali, balançando de um lado para o outro. De vez em quando bate nas paredes, isso machuca um pouco. Mas depois, ele volta a ficar nessa monotonia sem fim. Pra lá e pra cá, pra lá e pra cá...
Às vezes essa dor invade meu peito e decide se instalar por alguns dias. Alguns meses. Eu cansei de lutar contra esse sentimento, então eu só deixo ele entrar. Não é uma dor igual a bad que bate domingo a tarde ou aquela tristezinha de levar um fora. Não. Essa dor chega a doer fisicamente. É como se existisse algum mecanismo dentro de você que fizesse questão de te lembrar todos os dias que você não está bem.
Mas afinal, o que aconteceu com a Bárbara? A Bárbara que andava tão feliz, tão apaixonada. Ela simplesmente morreu?
Ela simplesmente desistiu. Desistiu de tentar lutar contra as partes ruins da vida, e começou a dar mais valor para as partes boas. Ela está numa montanha-russa meio complexa, que não fica em parque de diversão algum. Às vezes ela está mais em cima, às vezes o buraco é mais embaixo. 
Eu continuo a mesma. Quero que vocês entendam, eu não estou morrendo. Eu só estou mal pra caralho. Algumas coisas simplesmente não tem cura, e a gente precisa enfrentar isso de peito aberto. Está doendo? Deixa doer. Uma hora vai passar, e se não passar, eu pelo menos tentei. O mundo não vai acabar amanhã, e se acabar, que sorte a nossa.
Não consigo escrever, não consigo desenhar, não consigo produzir. Minha cabeça só consegue pensar no tempo que estou perdendo tentando ser alguém, e consequentemente, sendo ninguém. O relógio faz esse barulho estrondoso com seus ponteiros, o calendário passa suas páginas com voracidade. E quando mais o tempo passa, menos eu sei o que eu quero da minha vida. O fracasso me sobe a cabeça, sinto que perdi tudo, tento recomeçar. 
Acho que é por isso que eu nunca vou pra frente. Porque eu estou sempre recomeçando. 
Admito, às vezes esqueço minhas dores para tentar acolher a dor dos outros. Isso é um erro enorme, mas infelizmente eu possuo esse coração imenso que acaba acolhendo qualquer lágrima. Vai ver é por isso que eu esteja tão vazia; por estar cheia demais. E até eu conseguir me esvaziar...
Resumo da ópera: Me deixem em paz. Eu só preciso de um tempo, até perceber que as coisas estão dando certo de novo e eu conseguir sair desse buraco escuro e profundo, que poucos conhecem a profundidade, mas parece que todos querem conhecer. E, até eu melhorar, parem de cobrar tanto assim de mim. 
Eu não aguento mais. 



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Um comentário:

  1. Poxa vida,eu estava há dias tentando descrever,descobrir o que esta sentindo e esse texto,meu Deus...descreveu e esclareceu um bocado de coisas.

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