Eu amei nós

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Não me lembro exatamente que dia era. Acho que era uma terça-feira, mas estávamos de férias. Estava ensolarado, quente. O dia e o horário não importam muito. Acho que nunca importou. O que eu estou querendo dizer é que cada segundo sempre pareceu eterno perto dele.
Sabe quando os relógios parecem não ter ponteiros?
Quando o pôr-do-Sol significa apenas a chegada da lua e não a hora de ir embora?
Quando o calendário parece não ter significado algum?
Se você nunca se sentiu assim, você "amou" a pessoa errada.
Talvez eu não tenha amado ele, do jeito que eu achei que amava de verdade. Por mais que eu escreva todos os dias da minha vida sobre o amor, ele me parece mais o final de um filme que eu espero ansiosamente para acabar.E exatamente assim como um filme, não é porque acabou que deu errado. Por mais que eu saiba o final, vale a pena viver cada pedacinho só pela aventura.
Ele me fez sentir assim. Como se o final não importasse tanto. Ele me fez sentir, por muito tempo, que eu estava dentro de um filme clichê do Wes Anderson. Um daqueles que tudo dá errado, mas de uma forma maravilhosa e poética, digna de filmes com fotografia e simetria perfeitas mesmo. Ele me fez sentir.
E talvez, ele tenha sido o erro mais maravilhoso que eu já cometi.
Gosto de falar sobre ele. Gosto de contar nossas histórias e de como ele ficou tão lindo ali, desenhando uma página de quadrinhos em cima da minha cama. Gosto de rir sozinha das vezes que fizemos algumas idiotices ao redor da cidade, e de como essas idiotices não eram tão idiotas assim. Gosto do jeito que eu me sentia infinita com ele, mesmo dentro de uma cidade tão limitada.
O abraço dele... Ah, abraço dele era a porta de entrada para a Babilônia. Era o gosto de um sorvete de caramelo salgado. Era a única coisa que fazia todas as minhas defesas irem para o espaço. Eu, literalmente, me desmontava e gostava disso. Ele me montava de novo, ele não ligava. O cheiro dele sempre ficou nos lençóis, todas as vezes que ele vinha na minha casa. E eu, obviamente, abraça os travesseiros e sorria sempre que isso acontecia.
Provavelmente, ele nunca vai saber disso. Nunca vai saber que eu guardo com tanto carinho cada olhar que ele direcionou à mim, ou cada palavra que meus ouvidos tiveram a honra de ouvir. Eu cheguei a acreditar que iriamos durar pra sempre. Mas ele acabou me ensinando que foi pra sempre enquanto durou.
Eu não o amo mais. Ele não me ama mais. Tudo o que eu sinto é gratidão por ter acrescentado tanta coisa boa na minha coleção de memórias. E tenho certeza que um dia eu vou contar sobre ele para os meus netos, e eles vão desejar uma história igual a nossa, mesmo sabendo que eles sempre vão me perguntar onde você está e eu nunca saberei responder.
E hoje, quando eu o vejo pela cidade usando uma camisa de banda (que eu provavelmente só conheço porque ele me mostrou) e uma bermuda preta, eu só tenho vontade de sentar e conversar com ele, por horas e horas, e voltar no tempo em que o tempo não existia. Será que ele se sente assim também?
Não me lembro exatamente que dia era. Acho que era uma terça-feira. Mas eu lembro que depois de alguns beijos e algumas doses a mais, ele foi embora. E me deixou de presente um arsenal de histórias, que agora, só precisa de alguém pra ouvi-las.

Leia ouvindo: Oceans - Seafret


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