O Medo

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O medo, que entra pela janela no inverno de junho junto com o vento frio que bate a porta e estremece a casa. A casa que é meu corpo e meu corpo que guarda todos os sentimentos que eu tive vergonha de sentir. Vergonha de mostrar pro mundo que meu coração não pulsa apenas palavras bonitas que poetas românticos inventaram em meados do século 19 para descreverem mulheres jeitosas e perfeitas, com corações puros e sentimentos claros. E eu tenho medo de assumir meu lado escuro, obscuro e sujo, de não ser tão empoderada e tão nobre quanto a Aurélia, idealizada por José de Alencar. E é justamente nesse "esconder" luz e escuro que eu encontro todos os motivos de anteriores frustrações.
A aceitação de mim mesma tem sido o maior monstro que eu já tive que enfrentar. Não apenas aceitar meu peito pequeno, separado e caído, minha cicatriz na bunda ou meu cabelo cacheado. Não aceitar que eu não vivo sem um bom vinho, sem um chocolate depois do almoço e que eu sempre vou ter uma pancinha aqui e umas gordurinhas ali. Mas aceitar o meu próprio coração, que nunca vai bater no ritmo que eu quero, que nunca vai pulsar as palavras que eu quero, que nunca vai amar a pessoa que eu quero.
Desde que eu descobri o amor-próprio, eu percebi que não é tão simples e romântico quanto parece. Pode até ser síntese de crônicas de revistas de moda da atualidade, mas a parte que rasga ninguém te conta. Amar cada detalhe do seu corpo, ou amar a sua voz, ou amar o seu cabelo quando você acorda não é a parte mais difícil do processo. O amor-próprio é enxergar a inteireza do seu ser e se amar como um ser humano completo, não querendo romantizar os seus defeitos ou transforma-los em qualidades, mas sim, amar o seu lado mais ridículo e tosco pelo simples fato de que ele é seu.
Não estou escrevendo isso para que, a partir de hoje, a babaquice seja autorizada. Eu continuo defendendo que o estado de natureza do homem é a bondade e que a gente deve sempre procurar voltar para isso. Mas o que eu estou dizendo é que, para que a bondade seja mútua de coração pra coração, a empatia deve ser indispensável e o pensamento sempre direcionado no fato de que estamos todos na mesma missão: ir embora da Terra melhor do que chegamos.
Mas ok, onde está o medo?
Ora, meus amigos, o medo está em toda parte. O medo está no "eu te amo" não dito, no beijo não dado, na mensagem não enviada. Mas em síntese, o medo é a parte mais obscura da gente. E não adianta negar, até o melhor soldado de Esparta sentiu medo da sua primeira à sua última batalha. Mas a questão é saber até onde o medo é questão de sobrevivência ou questão de barreira de sentimentos. E é nessa barreira que a gente acaba escondendo o nosso pior lado. Lado esse que é tão importante quanto o bom. A gente não cresce com elogios. E eu vou te contar um segredo: ninguém é bom o tempo todo, você também não precisa ser.
Está com medo de que?
Aceitar a escuridão e não se entregar a ela pode ser o passo mais bem dado para o auto-conhecimento (o amor próprio é consequência). Tente não se amar da boca pra fora, mas de lixo pra dentro. Você não precisa ser de todo incrível para ser incrível, você não precisa ser feliz o tempo todo para ser feliz. Acho que impuseram uma cultura de eternidade muito forte nas nossas vidas de que qualquer coisa boa tem que durar pra sempre, e não é bem assim. Tudo dura o tempo necessário para você levar alguma coisa com isso.
E hoje, o medo ainda é o nosso maior obstáculo e talvez, o mal de todos os séculos. Mas também é a nossa melhor ferramenta para a plenitude.

Leia ouvindo: It's hard to get around the wind - Alex Turner 


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2 comentários:

  1. Adorei o texto, lindo demais! Medo é um negócio muito pessoal, e acho corajoso comentá-lo. Parabéns... mycutebubble.wordpress.com

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  2. Belo texto! Amor próprio deveria ser uma coisa que todos deveriam sentir, pena que existe o racismo, a não aceitação de si próprio,etc

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