Enigma

15:28



Juro que eu não te entendo. Passei alguns meses tentando por em ordem todas as suas palavras, mas tudo que eu consegui visualizar foi um monte de vírgulas, interrogações, algumas exclamações. Mas sem ponto final algum. Em todas as vezes que nós eventualmente nos separamos, eu sempre acabo me perdendo um pouco mais em relação à você. E eu me perco no meio dos seus pensamentos que eu nunca acessei, interpreto todas as suas atitudes de maneira equivocada. Quanto mais eu te descubro, menos eu sei sobre você.

E isso me intriga. Me intriga pois você é a parte da minha vida que eu nunca vou entender. Você sempre será aquela reticências no final da frase, que eu fico esperando ansiosamente a continuação, seja ela catastrófica que for, mas que tenha um final. Essa incerteza e esse desconhecimento do futuro é uma coisa que desafia as leis do meu coração, mas nem por isso eu deixei de sorrir quando você passava.

Eu ainda penso muito na gente. Penso no que fomos, no que não fomos e no que poderíamos ter sido, mas isso não significa que devemos ler a história toda de novo. Não. Você tem sido apenas um devaneio, daqueles que vem entre uma memória e outra, mas que vai embora em alguns poucos segundos. Você se tornou apenas um enigma, daqueles chatos e impossível que te prendem e te torturam. Quebram sua cabeça, sua lógica e sua sanidade até você encontrar uma maneira desumana de solucionar. Pois bem. Eu nunca te solucionei.

As nossas trocas de olhares entre uma aula e outra são meus enigmas favoritos. Gosto de imaginar no que você tá pensando, ou por qual motivo você estava sorrindo quando olhou pra mim. Além disso, todas as suas desculpas para pegar na minha mão mas, ao mesmo tempo, todas as suas repulsas quando eu me aproximo, foram tema de histórias e poemas que eu escrevi na última folha do caderno de física, aquele que tem o David Bowie na capa.

Eu não ligo de tentar solucionar seus mistérios. Por mais plena que seja minha consciência, eu gosto de ter na minha vida e de todo o bem que suas músicas me fazem. Gosto do som da sua voz, gosto da vibração da sua risada, gosto do seu sorriso. Eu só não gosto da incerteza que você me causa e de olhar nos olhos do meu passado todo dia de manhã. Não gosto de encarar meu erros de uma maneira tão fria e seca, que me faz gaguejar e levantar o tom da voz sempre que perguntam de você.

Eu só peço que você me guarde direitinho, ali, dentro do seu armário de quadrinhos e junto com as outras cartas que eu te escrevi. E por falar nisso, quantas restaram?

Eu também sempre vou te manter na minha caixinha de memórias, como sendo fruto de uma história que nunca consegui escrever. Te guardo com todas as playslists, todos os livros e todas as promessas de dedinho que fizemos, além de todo o resto que me fez te admirar por meses, talvez até alguns anos.
E por mais que eu não goste muito do nosso passado - ou do quase fim que ele acabou tomando -, eu espero que no futuro, eu consiga te decifrar para poder contar toda essa confusão típica de enredo de roteiro de filme de adolescente e poder encaixar todas as preposições possíveis nela.

Leia ouvindo: If you love me, come clean - Flatsound

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1 comentários

  1. Eu amei este, fala tudo friamente e no mesmo instante com gratidão ao relacionamento que se teve, faz ter um sentimento que nos conforte!

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