Carta Aberta

14:08



Faz tempo que eu venho tentando organizar os arquivos perdidos que existem dentro da minha cabeça. Quando crescemos, vamos percebendo e perdendo coisas que antes pareciam certas. Mas agora, eu aprendi que não dá pra confiar tanto assim nas certezas. Enquanto o tempo não passa e eu rezo para o mundo acabar amanhã de manhã, os ponteiros do relógio coincidem com minha caneta e escrevem no ar todos os traumas que eu ainda não vivi, mas estão com data marcada para acontecerem.

Influenciável. Você diz que eu sou louca, eu acredito. Me chama de incapaz, eu questiono, mas acredito. Minha costela dói a dor de quatro existências e não para de doer para me lembrar de um erro que eu não cometi. Nem tudo precisa ser culpa minha, nem tudo precisa de uma verdade concreta e absoluta.Alguns laço precisam ser rompidos com urgência, antes que eu me torne apenas mais um fruto dessa loucura que não é minha.

A sensação de não ter pra onde ir me faz direcionar meu futuro à algo que não é uma opção. Às vezes, eu só preciso confiar mais (em que? Eu não sei) e entender que, no final, todo mundo é inimigo de todo mundo, não importa se vocês moram na mesma casa ou trocam duas palavras por semana. Ou os dois. Ou se vocês são uma pessoa só. Ou se você só conhece o espelho. No final, a desgraça é a mesma para todos e, quando você vai ver, há pratos quebrados pela casa, lençóis rasgados, ossos estraçalhados.

No fundo esperava que esse desencanto chegasse, mas me surpreendi ao perceber que chegou tão cedo. Não queria que essa desconfiança se tornasse parte do meu dia-a-dia, mas eu deixei de ter controle da minha vida há muito tempo. E pra quem eu me entreguei? Desiludi-me da ideia de Deus, mas também não acho que Darwin explicaria minha evolução. Me tornei a razão frustrada com medo de assumir o que sente. Talvez não medo, talvez não. Mas depois de tantos tombos, comecei a selecionar melhor quais caminhos percorrer.



E por que eu sou assim? Agressiva, intensa, vazia e ingrata. É o que você diz. Uma merda. Ingrata pra caralho. Orgulhosa e hipócrita. Mas espero que você saiba que não é culpa minha. Desculpe se minha versão não te agrada mas essa é a única história que eu tenho pra contar. Não vivo e nunca vivi para alimentar seu ego ou para repetir frases que tem a função de se transformarem na sua verdade. Meu caos interno já me destrói todos os dias, quando o despertador toca, e eu não preciso de mais um egoísmo para agradar. Esse espaço é meu. Enquanto eu tiver autonomia sobre ele e sobre a minha mente, você jamais chegará mais perto do que está.

Antes que você diga o contrário e venha com um dicionário lotado de negações, eu posso. Eu posso tomar minhas decisões e controlar quem eu quero ser. Talvez eu sofra um pouco mais, te ligue de madrugada chorando, mas hora ou outra, eu não vou precisar mais de você. E talvez eu seja só mais uma poeta maldita, sem a parte das drogas ou do rock n' roll. Mas essa sou eu e eu me orgulho de falar que eu tenho a mente mais confusa que eu conheço e que eu posso ser triste, sim. Não vou deixar minha identidade se perder dentro dos seus padrões e religiões, até eu me internar por loucura. Ou falsa loucura. Ou ansiedade. Ou sanidade. 

Me desculpa a agressividade ou se eu disse algo que lhe ofendeu, me desculpe. Mas do fundo do meu coração, eu estou cagando para o que você pensa. E isso não significa que, ao tomar posse de mim mesma eu seja obrigada a te amar menos. Não que eu saiba se eu amo ou não, já que minha energia está péssima de tanto ódio e rancor que eu venho comendo com angu de uns tempos pra cá. Mas seja lá o que for que esteja acontecendo aqui dentro, eu sei que eu vou ficar bem pois eu me conheço melhor do que ninguém. E a melhor parte de crescer é que nada disso é da sua conta. 

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