O mar e a paz

16:28

A grande onda - Kanagawa

Eu gosto do mar. Acho que ele (ou ela) é uma das poucas coisas que eu realmente gosto no mundo. Gosto de todo seu universo particular e todo o ecossistema desconhecido que existe lá dentro. A ideia de existir um lugar onde não exista barulho, não exista gritos diários nem reclamações me conforta. E essa distância entre a paz e a realidade tem me incomodado muito. Minha mente grita constantemente por silêncio, mas ninguém se esforça para me escutar. É tão contraditório, e eu não sou nem um pouco acostumada com paradoxos.

Já escrevi 3 livros inteiros sobre a solidão e as palavras bonitas que eu uso para falar sobre o assunto, eventualmente, vão acabar. E sobre o que eu vou escrever quando isso acontecer? Como é possível, um ser tão pequeno como eu guardar tantas lágrimas espalhadas pela corrente sanguínea? Sei que eu sinto demais e que, às vezes, tudo parece muito distorcido por trás dos meus olhos castanhos. Mas não me culpa. Não me culpe por absorver cada vírgula e cada exclamação que o universo pronuncia. E, infelizmente, por algum motivo, eu sou a única que está ouvindo (não que isso seja um mérito, até porque, é bem chato).

Talvez eu goste tanto do azul do oceano porque a paz que lá existe é inerente a paz do meu espírito. E talvez, mas só talvez, eu seja um pedaço desse azul que criou pernas para descobrir como funciona as coisas aqui do lado de fora. E desde que Talles de Mileto escreveu, eu acredito plenamente que, tudo o que conhecemos, um dia foi da mais pura transparente água.

E por falar em paz, eu acabei descobrindo que não dá para reconhecer algo que você nunca sentiu. E, por isso, minha ambição pelo sossego e pela alma aumentou significativamente. Não sei se vocês sabem, mas as coisas impossíveis me atraem de uma maneira inexplicável. E às vezes, eu me encontro tão perdida e tão sozinha que chego a me imaginar no fundo mar, onde minhas lágrimas se misturam como todo aquele azul celeste e, no final, tudo vira uma coisa só.

Em resumo, eu vivo uma utopia eterna em que eu quero o que não tenho e sonho com uma realidade completamente alternativa que só existe nos meus cadernos, na minha cabeça e na minha cama. E nessa realidade, quem sabe, eu possa ser um simples porífero ou um cnidário ou, se eu der sorte, um equinodermo. Não reclamaria. Seria tudo bem mais fácil. Mas enquanto eu não posso me regenerar e reproduzir por brotamento, eu tento trazer um pouquinho mar para meus cabelos, para dentro de minha e para todas as minhas metáforas apaixonadas.

"Eu te amo mais que o mar", eu disse.

Leia ouvindo: Oceans - Seafret

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