Por onde você anda?

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Isso não foi uma pergunta retórica. Eu realmente quero saber como você está. Quero saber o que aconteceu com esse seu cabelo que você nunca mais cortou. Quero ouvir sua voz contando todos os casos que aconteceram nesse tempo em que você esteve ausente. Quero saber dos seus planos pro futuro. Você ainda os tem? E eu nem estava pensando tanto assim em você, sabia? Nem sei, ao certo, o porquê de eu estar atormentando minha mente com isso. Mas sei lá, acho que linhas tênues e flexíveis são difíceis de quebrar, ainda mais quando ficaram tanto tempo amarradas.

 Algumas vezes, a rádio do carro toca uma música que você odeia. Eu aumento o volume. Dei apenas uma estrela para aquele filme da Netflix que você amou. Não consegui terminar de ler o livro que você deixou. Não passei da segunda música do álbum que você indicou. E eu não consegui desviar um dia se quer do seu olhar, que insiste em cruzar com os meus de maneiras tão frias e cruéis. Talvez eu os procure. Talvez eu tenha acostumado a te olhar e pensar em você como um refúgio fixo onde, agora, o forte desabou. E você não está lá. Mas já que não está, porque esses olhares continuam perturbando minha retina como se fossem parte da melanina que preenche os meus olhos castanhos e grossos?

Isso não é sobre você. Isso não é sobre mim, muito menos sobre a gente. Isso é sobre tudo o que eu deixo guardado há tanto tempo, esperando sei lá o que, que vai acontecer com sei la quem em sei lá quando. Mas a verdade é que palavras são muito fáceis de serem escritas quando a dor é que inspira o papel e a caneta. Nunca escrevi sobre seu romance, sobre seu tato, sobre seu sexo. Nunca gostei do jeito que me abraçava porque recuava tão rapidamente que era impossível de criar raiz alguma ali. 

Talvez seja isso que você queria. Me florescer e me deixar murchar, esquecendo de regar-me com a saliva dos beijos molhados que nós nunca trocamos da maneira correta. Isso é sobre as reticências que você deixou na última mensagem que me enviou. Aquela em que você dizia, tão claramente, que não via motivo algum em me manter na sua vida. Concordei plenamente. Sempre fui aquele item de decoração, meio feio, meio cinza, que não combina com seu sofá. E por isso, você esconde atrás da televisão, junto com as outras coisas das mesmas cores, sabores, curvas. E tudo bem, eu entendi. Hoje eu entendo que fui inconsequente demais em me apaixonar pelo coração mais verde da região. Não que não tenha valido a pena. Mas sim, que certas coisas a gente poderia evitar.

Eu poderia escrever mais setecentas linhas sobre você, mas não sobre o seu lado bom. Vou economizar palavras para a próxima vez que eu te encontrar, sentado no fundo do bar, bebendo a cerveja mais barata por lá - ouvi dizer que você começou a gostar. E se eu nunca te encontrar, melhor pra mim. Bom que eu não desgasto minha sanidade com um passado tão esdrúxulo assim.  

Leia ouvindo: Cold Cold Cold - Cage The Elephant

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