Palavras

14:03


Escrever tem sido difícil. Não porque me faltam temas, não porque me falta vontade. Mas sim, porque me faltam palavras. Inédito. Uma escritora perder as palavras no meio-fio. Acontece que eu acabei adquirindo, de um tempo pra cá, um medo formidável de sucumbir no ofício de artista. Medo de não ser boa o suficiente, entende? Acho que esse medo chega para qualquer um, principalmente pra quem pincela corações com as próprias mãos. Graças à isso, eu acho, comecei a ter menos interesse no mundo. Não só no mundo real, mas naquele que eu criei sozinha como uma maneira de escapar dos gritos, da quebradeira, dos palavrões. Desanimei-me de uma maneira incrédula e instantânea, como se de repente, tudo o que fizesse sentido fosse a minha cama e os litros de água com gás que mantenho por perto.

Eu acho que tudo isso, toda essa preguiça, se resume ao medo de me entregar. Entregar aos textos, aos sentimentos e a tudo que meu coração tem a dizer. Ele quer me dizer muita coisa, sabe? Não acho que estou devidamente preparada para ouvir. Mas preciso reconhecer que não sou - nem quero ser - a mesma escritora de dois anos atrás. Aquele que vivia à base de decepções e rasgos no peito. A metamorfose interna acontece e, talvez, minhas entranhas estejam entupidas demais para deixa-la entrar. As asas que a borboleta quer bater estão encharcadas com todas as palavras molhadas e sujas que eu desejei soltar para alguém, em algum lugar, mas que eu acabei engolindo como se elas fossem minhas.

De repente, o mundo todo virou uma gaiola e eu perdi as chaves das minhas algemas. Ou, talvez, eu nunca as tive. Nunca fui tão livre quanto eu achei que eu era, mas, pelo menos, agora eu sei disso. E agora que isso clareou meu caminho, eu não quero ter que saber o que fazer. Quero sim entender melhor até que ponto eu sou prisioneira de mim mesma, mas pra isso eu preciso me desprender da arte parnasiana - ou nem tão poética assim - que precisa fazer sentido. Nem tudo é belo. Nem tudo é compreensível. E eu não estou aqui pra entreter ninguém. Não faço parte de um movimento e preciso colocar na minha cabeça que eu nunca serei especial, mas também nunca serei genérica.


Mas até que essa verdade faça parte de mim, pretendo continuar chorando no ônibus após as minhas sessões de terapia. E eles podem me chamar de dramática, não vou mais acusar minha TPM por cada lágrima sem rumo que eu derramo. Acontece que eu prefiro sentir dor do que não sentir nada. E ao contrário daqueles que pensam que felicidade é necessidade básica humana, eu estou bem sendo assim. Mesmo. E até que outra parte de mim - pois, até então, eu deixei claro que sou um quebra-cabeça descobrindo minhas peças - se revelar, eu vou continuar sendo invisível e inquieta, mas presente pra quem importa.

De qualquer maneira, eu vos-lhe apresento: Eu. Essa pessoa tão desorientada e desesperada, mas que não mudaria um centímetro se quer no tamanho dos peitos ou na largura dos quadris. Ou, quem sabe, no conhecimento geral em química. A questão é que amor próprio ainda é um corpo estranho dentro de mim, e isso causa alguns efeitos colaterais. Meu dicionário emocional ainda não tem um conceito exato para descrever a fase na qual estou entrando no momento. São ciclos. E ciclos não precisam ser bonitos. São só ciclos. Sobre a minha escrita, eu sei que em breve irá surgir um novo repertório de palavras que eu espero saber usar em textos que, não, eu não faço ideia sobre o que serão. Só sei que serão meus.

Leia ouvindo: Quente - Ventre 


You Might Also Like

0 comentários