Amor não é o bastante

14:06


Um dia eu acordei de madrugada reclamando de sede e ele levantou, desceu até a cozinha e buscou uma garrafa gelada pra mim. Ontem ele me pediu para que eu o deixasse dormir a noite toda - já que eu sempre chuto, falo, cutuco ele enquanto durmo. Eu deixei, mas mesmo assim, ele acordou a noite toda para me cobrir achando que eu estava passando frio. Ele faz piadas com minha braveza, descruza meus braços, rouba beijos e é assim que eu sei que é amor. Mas amor não é o bastante. Amor não deveria bastar. 

O que importa é o infinito que criamos para nós dois e vivemos nele coberto por olhares e vozes que são singulares, únicas. A junção dos nossos dedos e nosso suor que resulta num novo elemento químico capaz de se auto destruir, mas sempre se reinventar. Eu cansei de tentar sincronizar nossa respiração enquanto estamos deitados e agarrados, mas eu acho que entendi que essa alternância é o que realmente mantém a gente vivo. 

Se os chineses não tivesse inventado o ying e o yang antes, com certeza, teriam descoberto na gente. Essa pulsação do quente e do frio, a linha tênue entre a raiva e o perdão. A certeza de que nada é motivo o bastante para ir embora. É amor, eu sei que é. Mas amor não é o bastante. O bastante pra nós dois é conseguir dividir uma cama de solteiro no calor de fevereiro e visualizar em cada lágrima que derrama, ali, um ser humano. 

Descobri, por fim, que amor incondicional é muito maior do que a teoria pode explicar. Do que a própria prática pode explicar. Mas que é explicável sempre que ele faz aquela voz que ele sabe que me irrita até o último fio do meu cabelo, mas que eu não me importo nem um pouco em ouvir aquilo pelo resto da minha vida. O sorriso, a cor do cabelo, o brilho... Tudo isso é muito pouco. Ele não responde minhas mensagens, nunca entra em desespero, é a pessoa mais fechada que eu conheço. 
E eu amo, mesmo sabendo que comprei esse karma na promoção pelo Mercado Livre. 



Eu amo tão profundamente que nem a força de todos os deuses seria capaz de mexer um milímetro se quer nesse nosso amor - que não, ainda não é o bastante. E acho que nunca vai ser o bastante porque seres humanos são complexos, muito mais complexos do que uma palavra que perde o significado tão facilmente. Talvez nada seja o bastante e talvez seja justamente essa a missão quando amamos alguém - se contentar. Crescer é complicado e duas pessoas crescendo juntas pode ser catastrófico. Mas eu não ligo. Não ligo de devastar todas as esperanças que depositei, não ligo de perder todas as fichas em um único jogo. A única coisa que eu espero é poder me reencontrar nos seus braços sempre que tudo estiver perdido; poder me jogar no brilho dos seus olhos sempre que o meu corpo não for o suficiente para segurar minha alma, e então, eu me entrego ao dele.

Cada pedaço, cada detalhe, cada espaço daquele ser é um motivo para continuar vivendo. Eu, que sempre fui meio egoísta em relação à vida, nunca pensei que daria tanto valor a minha respiração. Nunca pensei que me preocuparia tanto com alguém que está tão longe. Nunca pensei que seria tão feliz com alguém que, simplesmente, existe. É surreal poder confiar em alguém que mais parece uma extensão de mim - mesmo eu não gostando de admitir isso. É surreal ter moradia dentro de outro coração que tem a temperatura certinha pra me receber. Mas eu ainda sinto que falar "eu te amo" é vasto e vazio demais perto de tudo que eu realmente sinto por ele. 

Não sei porque eu estou falando na terceira pessoa sendo que estou falando diretamente com você. Acho que estou tão acostumada a citar seu nome para outras pessoas que, um simples caso, pode se tornar uma declaração de amor que foi jogada aos ares e soprada pelos ventos, procurando seus ouvidos. Espero que você receba todas. De coração. Cada suspiro meu, é teu. E cada palavra de gratidão que eu solto, eu dedico a ti.

Eu fico aqui, aflita, te esperando chegar. Esperando para ouvir sua voz e apenas descansar meu cansaço em você. Essa vida ainda não é o bastante para tudo o que ainda temos para viver e o tanto que eu quero te amar. O mundo é muito pequeno para conhecer com você, acho que vamos ter que criar um diferente. Só nosso, com as nossas sete maravilhas que se resumem em comida e filmes bestas. E uma cama bem grande para caber nós dois. Mas mesmo assim, acho que nada será o bastante.

De qualquer forma, eu sei que essa é sua última reencarnação aqui na Terra. Mas será que você pode voltar só mais algumas vezes? Só pra me ver? Eu vou sentir saudade. Muita.

Leia ouvindo: Without You - Oh Wonder

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