Eu quero que o tempo passe

08:40


Eu só quero deixar o tempo passar. Quero que entre o outono, quero que as provas acabem, quero minha inscrição pro vestibular. Quero crescer, quero rir, chorar, sair, beijar. Esquecer. Será que eu quero, de fato, esquecer? Depois de tanta dor e decepção, criei aquela casca que todo mundo cria aos 17, 18 anos. Aquela que te faz pensar que todo mundo é suspeito. Mas eu nunca fui de me esconder atrás de cascas. Sempre tive esperanças que me fizeram ir até o fim por algo que eu queria muito, mesmo que não tenha valido tanta a pena depois. Ralei os joelhos, quebrei a cara, rasguei meu short. Mas agora é diferente. Agora não depende só da minha esperança e perseverança. Depende de um coração alheio que também quer assistir o tempo passar, mas que precisa fazer isso longe de mim. Não sei. Só quero que o tempo passe. 

Quero voltar a sentir fome, quero voltar a beber, quero voltar a ter amigas. Quero deixar de ter o reflexo de mexer na aliança - que não esta mais entre meus dedos - e de bate-la no metal para causar algum barulho que preenche aquele silêncio que, antes, era ensurdecedor. Essas manias chatas que as pessoas deixam em nossas vidas e vão embora. Essas palavras novas que a gente inventa pra alguém e desaprende logo em seguida. 




Ai ai... Só sei suspirar e respirando eu vou acalmando todo esse oceano que, ocasionalmente, descobri que sou. O ar que entra é amarelo. O ar que sai é azul. Nem todo mundo que arruma a casa espera visita - eu, por exemplo, me aguardo chegar em casa todos os dias. Quero deixar tudo pronto. Cama arrumada, roupa lavada, pia limpa... Mas tudo isso porque quero gostar de onde eu moro. Quero gostar de mim. Quero gostar das paredes arranhadas de poemas que nunca se terminaram. Quero gostar das manchas que as gotas de café deixaram no tapete. Quero gostar do vazio. Sim, quero gostar do vazio. Porque quando você gosta do vazio, você está preenchido de amor próprio.

E com o tempo passando, o relógio tic-tac-eando eu vou percebendo que, de hora em hora, eu não sou mais quem eu era uma hora atrás. Estou mais forte, mais bonita, com cabelos mais cacheados e volumosos e, agora, ate consigo me olhar no espelho sem fechar os olhos. Olhos esses que ja viram tanta coisa. Olhos esses que são inesquecíveis na vida de tantas pessoas. Olhos esses que são a porta de entrada pro meu universo particular tão denso e colorido. E eu quero que o tempo passe não só pra tirar a incerteza do peito - deixo a porta aberta? E se mais alguém entrar? E se o vento bater? -, mas também, para que eu possa me rodear de certezas sobre mim mesma. Sobre minha força, minha beleza, minha clareza, minha verossimilhança estrondosa com o mundo. 

O tempo que passe! Tire as folhas dos galhos, pingue as chuvas no asfalto, crie espinhas no meu rosto. O tempo trabalha tão duro... e de graça! Primeiro comunista da história chama-se: tempo. E ó, quanta ironia os que dizem que tempo é dinheiro. Nunca paguei pela cura da minha alma. O tempo faz isso por solidariedade. Quer dizer, é uma troca: eu lhe dou confiança e ele me devolve paz.

Leia ouvindo: About You - San Cisco 

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