Manifesto

08:47



Durante um tempo eu tentei entender qual é a minha relação com a arte. Afinal, a arte nunca chegou até mim ou se convidou para fazer parte da minha vida. Ela sempre esteve ali, se manifestando nos momentos mais cruciais. Por mais que ela só tenha começado a ser denominada "arte" quando eu conheci o sentido teórico da palavra, ou seja, deixei de lado a minha visão pessoal sobre o assunto, hoje eu tento organizar os padrões não pela ciência, mas sim, pela arte. Quantas vezes eu disse a palavra arte só nesse parágrafo? Preciso criar um sinônimo pra ela.

A gente tem a mania de enxergar a arte como uma coisa tão longínqua que desistimos de tentar entender. Muitas técnicas, muito conceito, muito tudo. Tanto exagero num quadro só, quantos significados num poema de dois versos. Eu entendo essa confusão, não julgo. Foi justamente essa despercepção - uma coisa que eu gosto muito na arte é o neologismo - que fez com que eu pensasse em desistir. Mas afinal, do que serei eu senão artista? Na realidade, eu queria ser arte. Não artista. Arte. Talvez, o simplesmente fato de cobiçar que eu seja arte já me torne arte. Se os dadaístas disseram que arte é o que está num museu, o que me impede de dizer que arte é o que anda, o que respira, o que come, o que fala? O que sente. A arte não é a representação da atividade humana? E do que é feito o ser humano além de sentimentos? Matéria orgânica, ligações de carbono e hidrogênio e sei lá o que? Vocês realmente acreditam que nós somos um monte de reações químicas?

A arte é minha amiga. Pedi ela em casamento uma vez, mas entendi que ela é autônoma demais e dona de si o suficiente para não se prender à uma pessoa só. Gosta das cores, dos sabores, de respirar ares interpessoais. Entendi-a e deixei-a ir embora como quem sai pra comprar cigarro e nunca mais volta. Mas a arte é assim mesmo. Ela precisa querer fazer parte de você e você precisa estar adepto para recebe-la. Interpretar a arte dentro da gente é a parte mais difícil no processo de ser artista. Sabe quando você sente que tem algo preso na garganta, mas não sabe exatamente o que é? Essa vontade de gritar, de falar, de segurar o choro. É isso. Isso é a arte se manifestando.


Óbvio, ninguém nasce com o privilégio de ser artista, dom não é uma questão divina. Mas se formos personificar a arte, o universo entraria em colapso. É impossível materializar o tudo e o nada. O visível e o invisível. O abstrato e o concreto. Sei que nem tudo o que eu falo faz sentido, mas meu manifesto não precisa ser realista. Sua interpretação não altera a obra. O que eu tô querendo dizer é que, nós, meros mortais, não estamos prontos para uma coisa que não entendemos. E, quando vemos um tanto de bolha colorida num quadro e achamos aquilo loucura, é porque, de fato é. A arte é o caminho mais próximo para a plenitude por um simples motivo: ela treina sua paciência. Fica mais fácil de entender com o tempo, mas quando você finalmente entende... Oh. Ela vai embora.

Sempre evitei me denominar artista porque acreditava que isso me dava um mérito que não era meu. Ora, eu não sou escritora, eu apenas escrevo. Eu não sou pintora, apenas arranho a aquarela no papel canson. Talvez a herança da arte seja a dúvida. Talvez a confusão seja consequência da beleza de conseguir traduzir o mundo na sua maneira mais natural e subjetiva. Quem quiser, que seja. Sou apenas uma receptora que tenta sensibilizar o que há de mais duro nas cidades. A minha arte é urbana, nem um pouco arcadista, talvez um pouco romantista mas que nega completamente o modernismo porque, ora, as vanguardas não copiavam ninguém, certo? Errado. Vai entender o que esse povo queria dizer com todos aqueles três dias que, num universo paralelo, durou uma semana inteira de carnaval.

"Conheça as regras como um profissional para quebra-las como um artista." - Pablo Picasso


Leia ouvindo: Whistle (While You Work It) - Katy Tiz

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