Quando acaba

13:19




A gente nunca está pronto pro fim. Na verdade, a gente nunca acha que o fim vai, de fato, chegar. É como uma bala perdida que encontra o peito e rasga, rasga tudo. Todas os tecidos, todas as veias. Não gosto de me passar por escritora romancista que odeia a vida e escreve tanto sobre a bile negra que esquece de escrever sobre a divindade da mudança. Eu aprendi muito bem a lidar com o fim. Tive que obter forças que eu não tinha para sobreviver e, quando eu percebi, eu nasci de novo. De repente, o silêncio me parece pertinente. Tão bem adequado que nem a melhor música do Bon Iver parece melhor. Eu, que nunca gostei de quietude, agora, tudo o que eu mais quero é a estática. Imobilidade, só ouvindo o som do meu suspiro. Ai, ai... 

Fico meio sem reação, mas no fim, acaba. No fundo eu sabia, entende? Mentia pra mim mesma, fazia promessas pro universo e achava que estava tudo bem. Era só questão de tempo até o relógio apitar e a assadura fazer cicatriz. Não sarou, na verdade, mas eu fingi que sim. Eu tentei tanto, eu sacrifiquei tanta coisa, subi muros eternos. Não foi o bastante. Aprenda, Bárbara, nós não nascemos pra ser o bastante pra ninguém. "Deveria ter tentado mais dessa vez. Deveria ter ficado calada nesse dia. Se eu tivesse dormindo, nada disso teria acontecido". Não.  Merda. Nem sei escrever mais sobre o que eu mais sinto- dor. No fim a gente percebe que a dor só serve pra te fazer lembrar que você ja sentiu dor pior. 

Cada lágrima que derrama faz sentido quando você para e pensa que tem apenas 18 anos. 17 anos. Quando acaba, você não pode fazer nada além de dizer pra si mesmo que acabou. Não volta. É tudo mais um capítulo daquele livro que fez você passar raiva, mas que fez toda a diferença pro livro fazer sentido. Dói pensar que vou ter que aprender a dormir sozinha de novo. Dói lembrar que nunca mais vou sentir aquele frio na barriga pra pegar um ônibus. Dói olhar pros dedos e ver o branco pálido da minha pele. Dói agora, mas sei que amanhã não vai doer mais. O mundo está cheio de palavras novas e eu estou ansiosa para descobrir o que o futuro preparou pra mim a partir de agora. Dói pensar que poderíamos ter sido muito mais bonitos quanto fomos na teoria, mas o que importa? Acabou. E quando acaba, não há nada mais justo do que respirar o fim e conversar com ele. Dói a voz, dói o cheiro das camisas, dói as marcas na parede. Tudo dói. Eu meio que também não sei bem o que fazer já que pensei nunca mais precisar passar por isso. 



Talvez agora volte toda aquele lereia de conversar com Deus, procurar sinais em placas, colocar máscaras e mais máscaras. Mas pode ser que não. Pode ser que eu cresça muito mais do que cresci em um ano. Pode ser que eu me reencontre no meio disso tudo que eu criei dentro de mim. Esse país das maravilhas que só existe na minha cabeça. Pode ser que nós dois nos reencontremos muito mais maduros, muitos mais prontos do que agora. Com o coração mais aberto, com a cabeça mais crescida. Mas tambem, pode ser que não. 

Talvez eu deva, de fato, ir embora e abrir essas portas que eu fechei. Eu fechei pra mim mesma por acreditar não saber como abrir sozinha. E por mais que eu não goste muito de despedidas, eu acabei por ter que aprender a dizer adeus da pior forma possível - não dizendo. Mas eu vou ficar bem. Hoje é só o primeiro dia do resto da minha vida. Como diria Drummond, Bandeira, Andrade ou qualquer outro poeta modernista da época que eu não me lembro agora: foi infinito enquanto durou. Mas, infelizmente, alguns infinitos são maiores que os outros.

Leia ouvindo: Indestrutível - Pabllo Vittar

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