Pedra

09:13



Isso é sobre mim. Sobre minha inconstância frequente e inerente que me deixa feliz de manhã e angustiada de noite. É sobre minha vontade incontrolável de querer sair da sua vida sem dar tchau porque dar tchau é dolorido demais pra mim. É sobre tudo o que eu tive que jogar fora para conseguir reconstruir o que você destruiu, mas que eu até gostei disso. Gostei de entender minhas paredes, reorganizar os quadros e até pintar alguns novos. E tudo é sobre como eu não faço ideia do que fazer.

Eu virei uma pedra. Uma das piores. Daquelas que não servem nem para construir casa, ou esfoliar os pés na areia. Eu sou, literalmente, uma pedra imóvel e estática com a única função de não sentir nada.  Eu até tento mudar e ser uma pessoa diferente. Até tento escrever com palavras e estruturas novas, como se eu fosse muito mais inteligente do que eu, de fato, pareço ser. Mas quando eu penso que, ah, pronto, me tornei uma pessoa forte o bastante para enfrentar a vida, alguma coisa coloca em prova toda minha força. E adivinha? Eu falho.

Não sei lidar com você. Com sua voz, com suas lágrimas, com suas promessas de que a gente vai se reencontrar na paulista e que tudo vai ser diferente. Você, com sua blusa verde militar. Eu, com minha camisa preta listrada - tudo bem, essa parte fui eu que inventei. Eu quero tanto que isso acabe, por Deus, como eu quero ir embora. Mas ao mesmo tempo, sua cama ainda tem meu cheiro, nossas fotos ainda estão na sua escrivaninha e cada carta ainda está guardada na gaveta. Como eu posso ir embora assim? Como eu posso me deixar ser esse fantasma que ficou preso no seu banheiro e que aparece sempre que você fala "eu te amo incondicionalmente" três vezes na frente do espelho?

Muitas vezes eu pensei em apagar cada vestígio seu na minha vida. Seu número. Suas fotos. Suas roupas. Seus textos. Muitas dessas coisas viraram uma contribuição para o buraco da camada de ozônio e aquecimento global. Mas eu não me importo em te queimar. Não me importo em colocar todo nosso passado na fogueira porque fazer isso é muito menos dolorido do que tentar ser madura o bastante pra encarar que o que aconteceu faz parte da minha vida e não é uma coisa que eu consigo destruir. Ao invés disso, eu virei pedra. Deixei as lágrimas secarem e tudo o que restou foi: pedra.



Você, querendo ou não, sempre vai estar ali. Na mensagem do telefone. Nas músicas. Nos quadros, na arte que eu faço o tempo inteiro. E no fundo eu sei que não quero me despedir de você porque, se eu fizer isso, vai ser como se eu estivesse me despedindo de um pedaço de mim. E eu, que nunca te entendi muito bem, te entendo completamente quando você diz que não foi embora por falta de amor. Eu te amo tão profundamente. Cada palavra que eu disse é a verdade mais pura que eu guardo dentro de mim e sempre vou ter o prazer de lembrar dela quando falarem de você. Mas até isso acontecer, eu vou ter que achar um meio termo entre te odiar completamente e não te deixar ir embora.

Talvez eu só precise de um tempo. A gente sabe o quanto esse ano vai ser difícil e que a gente já não se encaixa mais na vida um do outro. Por mais que a gente tente. Por mais que derrame cada vez mais sangue para dar continuidade pra algo que passou da hora de acabar. O problema é encarar isso como realidade. Enquanto a gente está em estado de choque, fazemos de tudo pra fingir que nada aconteceu. Mas aconteceu. E o que a gente faz agora?

Agora, eu vou fazer o que eu já venho fazendo há muito tempo. Deixo o tempo passar, vivo um dia após o outro e me aproveito do benefício da dúvida. Querendo ou não, pra mim, essa é a saída mais saudável, já que meu ascendente em libra esqueceu a certeza no churrasco. E talvez seja a incerteza que me mantenha respirando. É assim que eu tenho sobrevivido e não tem nada de errado em estar errada. Ou em, simplesmente, não estar. Não estar de fato, não estar nada. Não ser. Ou, quem sabe, ser pedra.

Eu não quero resolver nada. Não quero dizer adeus, não quero que você fique, mas também não estou te pedindo para tomar qualquer providência. Desculpe se isso tudo te pareça apenas mais do mesmo, mas pra mim, ser pedra é tão dolorido quanto ser arte. Ou rio. Ou qualquer coisa figurativa que você consiga pensar agora. E, assim como você disse, eu tenho, de fato, um plano de me instalar em cada lugar que eu passo. Deixo um pedaço de mim em cada matéria prima que eu toco. Deve ser por isso que você ainda tem essa cor dourada quando sai ao Sol. E brilha, e reluz e permeia uma energia que, convenhamos, é linda do mesmo jeito.

Eu poderia ficar aqui, durante horas a fio, te escrevendo sobre isso de escolher não ter certeza, mas acho que a tese principal você já entendeu. E se não entendeu, eu deixo aberto para a interpretação que lhe convier, independente do fato de que você é gelo, e eu sou fogo. Oh não, espere. Eu sou pedra. E sendo pedra eu vou terminar esse ano da maneira mais digna possível e, apenas quando eu colocar o meu último ponto final naquela ilegítima folha de papel, eu vou poder desabar no alívio de, que merda, sentir a sua falta.

Leia ouvindo: Too Late To Say Goodbye - Cage The Elephant

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