Sinto muito, mas não sinto nada

08:34



Leia ouvindo: Hiding Tonight - Alex Turner

Eu acho que escritor, de um modo geral, tem a mania de adiar o fim. Não sei exatamente o porquê, mas se despedir de uma história e matar para sempre as personagens - me incomoda muito esse artigo - é sempre dolorido e mancha o peito com todo um futuro que poderia ter sido, mas não foi. Por isso não culpo J.K Rolling pelas infinitas continuações de Harry Potter. Para mim, ela é exatamente o que todo escritor quer ser: eterno. Não em si, como pessoa ou como autor, mas sim, como criador. Como uma mãe que dá a luz á um filho e que, porra, é difícil pra caralho se despedir de um filho. (Não se engane, eu detesto Harry Potter).

Usando essas analogias, eu até que consigo me perdoar por ter demorado tanto tempo para te deixar ir embora. De certa maneira, você foi essa personagem que eu sempre escrevi e descrevi nos livros e contos que nunca apareceu. E então, apareceu. E o que eu faço agora? Talvez seja por esse motivo que você tenha nunca existido pra mim. Sua companhia sempre foi um sonho, um devaneio, não sei. Você nunca me pareceu real e, hoje, quando olho suas fotos, você me parece apenas um livro que eu li e gostei, mas tive que deixar de lado. Me dói muito escrever essas palavras porque não é fácil pra mim expressar que uma das pessoas que eu mais amei, na realidade, só existiu nas histórias que eu escrevi. Quero muito descobrir onde você estava esse tempo todo que me trazia a sensação de que você nunca estava por perto. E, quando estava, era tudo uma distração que, cedo ou tarde, ia acabar mesmo. Você sempre pareceu bom demais para ser verdade.

E acabou. E, sinceramente, eu fico feliz que tenha acabado. A culpa por admitir que você é só uma personagem é gigante, mas eu não consigo te definir de uma maneira melhor. A verdade é essa, você nunca existiu. Você sempre foi um trailer, uma sinopse, eu não sei. Mas eu sei que você nunca foi real.  E justamente por esse motivo, o tempo costumava passar mais rápido do que o normal quando a gente estava se colidindo, se pertencendo e tendo todos esses sentimentos cósmicos que, sim, foram reais. Eu só não sabia exatamente por quem eu estava sentindo aquilo tudo - não se confunda com outra pessoa, eu sou alheia demais para amar dois alguéns ao mesmo tempo. O que eu quero dizer é que, no fundo, eu amei alguém que, talvez, eu não conheça. Você conhece?



Eu odeio a solidão, mas preciso aceitar ela como parte de mim. Preciso reconhecer que todo mundo precisa um pouco de si e, meu deus, eu preciso desesperadamente de mim mesma. Me parte o coração te enxergar como um simples fator que contribuiu para a continuidade da minha história, mas eu não posso deixar isso prolongar mais do que o necessário. Deixei de acreditar em destino aos 16, quando você apareceu, porque eu aprendi que nada acontece só porque tem que acontecer. A gente se mereceu e se nutriu desse merecimento por muito tempo. Continuo não acreditando em destino, e justamente por esse motivo, eu digo: eu me mereço. E me merecendo eu te digo adeus, por um tempo infinito e indeterminado porque, esse livro, precisa ser escrito sem você.

E quando eu acho que não consigo sentir mais nada, que meu coração virou um puro lago de mágoas e feitiços, eu acabo descobrindo que sou a mesma de quando eu tinha 15 anos e escrevi, então, minha primeira obra. Minha primeira arte. Sobre a primeira pessoa que me fez descobrir que todos são, na verdade, meros personagens - por mais que eu só tenha percebido isso bem posteriormente. E você, meu bem, foi tão especial para fazer minha história ter sentido. Foi um catalisador fundamental nas minhas reações. Mas do mesmo jeito que você entrou, você terá que ir embora do jeitinho que eu não consegui fazer com ninguém até agora. E se quiser voltar, volte quando eu estiver branca, completa e sorridente, quando eu não for mais apenas fragmentos do meu passado que me impedem de escrever algo diferente.

Talvez você não seja igual aos outros justamente porque eu consegui deixar você partir e não deixei essa infantilidade de escolher não lidar com o fim me consumir. E é por isso que meus livros não têm fim. Por isso que meus poemas não têm pontuação. Por isso que, no final, eu não consigo ser amiga de quem "partiu meu coração" - uso aspas porque corações não se partem, se contraem, apenas. Dessa maneira, com essa despedida concreta - por favor, não volte, não agora - eu consigo me inteirar e morrer no meio fio para que, depois de morta, eu possa nascer para o abraço da morte.

Até tu, Brutus?! É com essa expressão que eu me declaro morta para que eu possa, assim, ir em busca da minha verdade. De quem sou. De quem nunca serei. De quem eu não quero ser. Te escrevo para contar o que descobri.


You Might Also Like

0 comentários