Sorte

07:56



Eu estava lavando louça, ouvindo música, quando o shuffle tocou aquela. Aquela que eu sabia que faria parte da trilha sonora da minha vida. Aquela que traduz tão bem tudo que eu estou sentindo, mesmo eu não sabendo bem o que é. Mas eu só sei que foi essa música que fez eu conseguir exemplificar os nós que estão na minha garganta e que nem as palavras que eu inventei sozinha conseguem externar isso.

Já passou da hora de eu repetir pra mim mesma as mesmas palavras que você usou para se despedir. Acabou. Eu não faço mais parte da sua vida. E enfim, o nosso fim chegou. Enfim, o nó desamarrou. E a gente poderá ser mais feliz. E, ao mesmo tempo que eu tento tão fortemente te esquecer, eu quero estampar seu rosto nas paredes da minha memória para não deixar passar em branco toda a nossa história. Tenho oscilado muito entre as extremidades de te apagar e sentir sua falta. O meio termo ainda é utópico. O meio termo ainda é como se você nunca tivesse entrado. Por que raios eu fui abrir meu coração pra você? 

No meio do caminho eu até acreditei que a gente era de verdade. Eu conseguia te tocar, conseguia te sentir, você aqueceu a parte mais fria do meu peito. Mas nessas últimas semanas, as pessoas tem deixado suas máscaras caírem e isso me ajudou a perceber que a gente nunca conhece ninguém por completo. Eu pensei que te conhecia quando analisei cada detalhe do teu corpo e me encontrei nas suas estrias, nas suas falhas no cabelo, na profundeza do seu olhar. Me encontrei até mesmo na sua paixão estranha por futebol e cerveja e achei que isso bastava para acreditar que o amor estava bem diante dos meus olhos. Oh céus, como eu queria estar errada nesse momento.

Eu já sou crescida o bastante para aprender que reciprocidade não é o suficiente para manter um relacionamento. Entendo que não foi por falta de amor que você foi embora. Mas o que eu não entendo é porque você repete tanto que quer me esquecer, mas continua grafando no vento que amor ainda é inerente entre a gente. Eu nem sei mais o que amor significa. Não sei se eu te amo, não sei se um dia amei porque eu realmente não entendo nada. Onde você estava quando dizia que tudo ia passar? Onde você estava quando me fazia cafuné e pedia mais um tempo pra tudo se ajeitar? E, de repente, todo nosso esforço não foi o bastante porque você não dava conta. Desculpa, mas eu não entendo.


Me arrependo tanto em ter associado a sua imagem á essa palavra que, agora, até as músicas tem seu nome. Meu outro ex tem seu nome. Tudo tem seu nome. Como é que você pode estar tão longe e ainda assim se fazer tão presente numa vida que não é mais nossa? Eu sinto tanta raiva e ao mesmo tempo tanta saudade que, se misturar as duas coisas, dá um sentimento que também vai ter seu nome. A minha cidade tem seu nome. A sua cidade tem seu nome. Tudo o que eu queria é não ter deixado você crescer tanto assim dentro de mim. É não ter acreditado em você quando você disse que a gente era infinito. É não ter confiado na sua paz quando, na verdade, havia uma guerra fria dentro de você.

Eu tento não me culpar. Diariamente, eu repito pra mim mesma que eu te amei o bastante pra você saber disso. Mas quando eu pego todos os desenhos que fiz da arquitetura do nosso futuro, é impossível não pensar num lugar onde nada disso aconteceu. Onde foi que eu errei? Na realidade, eu nem me faço essa pergunta mais porque meus erros são muito claros. "Como eu pude ser tão burra? Nunca vou ser o suficiente pra ninguém. Todo mundo sempre vai embora". Chega. Hoje não. Eu sei que tô aqui por mim.

Da mesma maneira que você não faz ideia de como eu estou, eu vou fragmentar você em todas as partes que eu construí pra te fazer inteiro. É dolorido demais te manter nessa estática infinita que nunca tem uma resposta, que sempre espera dois ou mais meses para começar a arrumar a bagunça, como se o tempo fosse te esperar resolver sua vida. Eu não te julgo e respeito cada passo que você dá pois sei que você tem plena noção do que está fazendo - mesmo estando confuso e cheio de demônios etc e tal. A única finalidade desse texto é, na verdade, externar e eternizar a minha saída do seu peito. Da sua cama, da sua sala, do Terminal Rodoviário do Tietê.  

Da próxima vez que eu voltar, será pra ficar. Mas não com você. Não dessa vez. 

Leia ouvindo: Sorte - Ana Muller 

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