A Solitude

08:03



Leia ouvindo: Vermelho - Marcelo Camelo

De uns tempos pra cá, como é perceptível, eu venho tentado descobrir como lidar com uma saudade que precisa ser acumulada. Tento escrever, de vez em quando, mas nem tudo parece se resolver com palavras. Estou cada vez mais próxima de encerrar uma fase da minha vida e, ao mesmo tempo que fico feliz em pensar num recomeço, eu fico assustada. Um pouco apavorada, até. Sempre tive a sensação de que a vida é vazia e sem significado - sem querer parecer niilista ou algo do tipo, é só um sentimento frequente - e não têm sido diferente agora que tudo (tudo? quase tudo) mudou. Me parece mais uma luta constante, uma batalha sem fim. Pra quê? Pra nada. Entendo meu niilismo, na realidade, não me culpo.

Então, desde que eu fui obrigada a me restabelecer no mundo - esporadicamente a gente se balança e se acha de novo - tenho sido completamente intolerante às coisas. Sempre escrevi muito sobre a solidão e sobre como eu não a suporto. Parecia um peso, uma dor, um castigo da igreja católica por ser mais do que eles esperam de mim. Mas agora, agora que troquei a solidão por solitude, não suporto ficar perto tempo demais de pessoas que, antes, me faziam tão bem. Aparentemente me faziam bem. São poucas pessoas que eu ainda tolero, mas, mesmo assim, me sinto sufocada pela perda de espaço. Então é esse o amor próprio que as pessoas tanto me falavam sobre? Essa falta de paciência constante com a humanidade das pessoas?

Eu gosto de me relacionar com os seres humanos - apesar de não saber, sou tão inconstante quanto a física, a química (ciências, até então, exatas) - e sempre foi meu fascínio buscar a sociologia dentro de cada um. A psicologia. O espiritismo. Qualquer matéria não-material que me prove que, no fundo, o mundo ainda tem salvação. Mas por algum motivo, por mais que eu queira, por pura e extrema vontade, conhecer a profundidade de outros alguéns, agora, eu tenho pavor em pensar que esse meu espaço possa ser invadido e tomado - de novo, como já fizeram antes.


Talvez eu seja só um desses cachorros abandonados que, de tanto apanhar, saem correndo quando alguém levanta a mão. Depois que conheci a imensidão da minha alma e como ela é aconchegante sendo solita - esse adjetivo, infelizmente, não existe, mas de tanto pensar nessa palavra eu mesma acabei inventando graças à licença poética -, pelo menos por enquanto, quero agradar minha casa e me arrumar bonitinha para, adivinhe só, mim mesma. O silêncio nunca foi tão precioso para mim e para os meus pensamentos que não param um minuto se quer. Agora eu consigo ver as montanhas - montanhas não, serras - da minha cidade e pensar: elas sempre estiveram aqui? nunca as vi.

Tudo é mais simples do que parece: eu sempre repeti e repeti que preciso de um tempo mas eu mesma nunca me dei esse tempo, oh, tão necessário. E meu coração, gentil e carismático do jeito que ele é, me obrigou e tirar esse tempo e, por isso, agora, eu tenho preferido muito mais meus filmes e livros do que relacionar com pessoas que mais me parecem uma ameaça para minha paz. Obviamente, não vivo numa bolha que me possibilita fingir que nada está acontecendo e que não vou ter que viver em sociedade pelos próximos, se eu tiver sorte, 60 anos da minha vida. Essa bolha interna que eu mesma criei é o motivo pelo qual eu chego em casa exausta e dando graças às Deus todos os dias às 12h30min. Mas, paciência. Não acaba nunca.

É um processo de transição que explora os extremos para encontrar o equilíbrio. Minha terapeuta insiste em dizer que existem várias possibilidades entre um polo e outro, mas, para eu escolher onde quero ficar, preciso caminhar por toda essa linha imaginária que pode, no final, nem existir - olha só o meu niilismo novamente. Sinto saudades, sinto falta, mas depois de alguns minutos, sinto preguiça. Sinto um vazio profundo, como se eu estivesse sendo invadida. Então, logo em seguida, coloco os rabos entre as pernas, a cabeça entre os braços e finjo que minha cama é feita pra você também, fique à vontade, você não atrapalha. Sinto muito, mas você atrapalha sim. Me deixe em paz, por favor?

No fim das contas, eu gosto de mim mas não muito. Gosto de quem eu me tornei nesses últimos três meses: alguém quase independente, que se contenta com o simples e gosta de dar umas risadas às vezes. Mas não gosto dessa fase cíclica irritante que, ora eu gosto de estar sozinha, ora eu tenho pavor de ficar sozinha mas não chegue muito perto senão eu me quebro. Não que eu seja frágil, longe disso. Meu casco nunca foi tão duro. Acontece que, até que eu tome posse real dessa minha força que, aparentemente, nasceu comigo, preciso que fiquem longe. Sou uma obra de arte - sem flashes, não me toque. A arte se basta por si só.


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