Minha casa

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Leia ouvindo: Baleia - Casa

Alguma parte de mim, mesmo que bem instintiva, gosta de quem eu sou. Depois de muito tentar apaziguar a briga interna entre o sol em câncer e o vênus em leão que interfere diariamente na minha vida, eu decidi sempre me olhar no espelho e abrir as minhas próprias portas. Todo dia eu descubro uma coisa diferente, uma rachadura, uma mancha, uma goteira. Esses dias eu percebi que tenho duas pintas perfeitamente simétricas, uma em cada lado do meu rosto. Acabei aprendendo que não preciso gostar de cada espaçamento do meu corpo - inclusive, acho realmente estranho que meus seios se separam por, literalmente, um palmo de distância. Mas amo o fato de que todos esses defeitos são meus e só meus. A união de todos eles, a fórmula química que me transforma na única pessoa existente no mundo que possui exatamente essa sequência de predicados.

A luta meu pelo auto-conhecimento não começou quando eu descobri o feminismo, por exemplo - começou bem antes. Começou quando eu, com dois dias de vida, tive que lutar para continuar viva e mudar o mundo. Eu me prometi - sim, eu lembro disso - que, se eu vivesse, eu iria fazer o mundo valer a pena. E hoje eu valido cada conquista que eu fiz nesses anos que parecem séculos pra mim - será que, a medida que a gente cresce, o tempo passa mais rápido? Estranhamente, sim. Aqueles dois dias entre a vida e morte duraram mais que esses 18 anos que eu carrego nas costas e esses 18 anos que eu carrego nas costas são eternidades quando comparados à meu futuro idoso e tedioso que eu espero ter assim que eu falar: "Pronto, eu fiz o que eu podia para tornar o mundo habitável".

Nisso, entre uma risada e outra, uma perna bamba e choro livre, entendi que eu sou minha própria casa - provavelmente, daqui alguns anos, quando minha literatura tornar-se didática, alguém vai fazer uma apresentação de slides sobre mim e colocar nas características gerais que eu só falo clichês óbvios, mas importantes. Eu cuido de mim, varro sempre depois do almoço, lavo a varanda, decoro as paredes e me deixo extremamente confortável para eu possa descansar em mim mesma sempre que o mundo lá fora fica pesado demais. No fim de tudo, eu me tenho. E isso basta de uma maneira absurda e inexplicável.



Ás vezes eu recebo visitas que me desarrumam. Tiram os móveis do lugar, inundam o banheiro, deixa tudo fedendo e cheirando a desgosto - já escrevi sobre isso algumas vezes, e tudo bem quando isso acontece. Mas na maioria das vezes, recebo visitas incríveis que sempre trazem um vasinho de planta que eu deixo pegando Sol na janela da cozinha. Eu amo o fato de que minha vida é um livro aberto e eu posso contar pra todo mundo que passa o que tá acontecendo aqui dentro, sem sentir que alguém vai me invadir a qualquer hora pois eu tenho as proteções necessárias para dizer: "Pera lá! Aqui não!".

No fim, eu amo cada pedaço do meu corpo e cada parte da minha personalidade que faz com que todas as pessoas que, por algum motivo, vão se referir a mim em uma conversa de bar, digam: "Você conhece a Bárbara? Aquela lá, a louca e estranha". Gosto da minha barriga que já absorveu tanta carne que cansou. Gosto do meu sangue que escorre palavras e dores, mas sabe a hora certa de estancar. Gosto dos meus olhos que se fecham a cada sorriso, para guardar bem guardadinho aquela memória que me fez rir. Gosto da nudez e da arte que é escrevível em cada centímetro quadrado do meu corpo. Gosto do jeito que eu flerto e transo e amo e me apaixono comigo mesma, a cada dia, de um jeito diferente e sempre falo: "Oi... você vem sempre aqui?".

Sei que ainda preciso aprender a cuidar um pouco melhor de mim - eu não sei comer direito e muito menos sei a hora de parar de beber -, mas sei que tudo isso é um livro inteiro que preciso escrever para aprender a lidar com essa casa que ainda falta umas partes para serem cobertas de gesso. Sou simples, mas cheia de significado subjetivo que precisa de um dicionário próprio para entender cada vírgula, cada filosofia mau-dita que, vira e mexe, saem da minha boca durante uma discussão. Odeio isso e aquilo, mas, num geral, eu consigo me reconhecer no espelho.



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