O Sufoco

14:30


Leia ouvindo: Changes - Seu Jorge

O universo se cria todos os dias e todas as noites ele se aborta. Assim, parece que essa é uma frase tirada de algum livro do Paulo Coelho ou algo do tipo. Mas não, isso é ciência. A física me faz pensar muito mais do que eletromagnetismo - coisa que eu só penso uns dias antes da prova. Me peguei, porém, refletindo sobre essa condição do universo durante algumas horas e tentei aplicar pra dentro de mim. Sempre pensei em como eu sou um reflexo direto de tudo o que acontece no mundo, mas, por incrível pareça, não encontrei resposta alguma sobre isso. Não consegui reconhecer meu aborto diário, não consegui aplicar meu redescobrimento periódico.

Eu tenho buscado um pouco mais o silêncio. Algo dentro de mim sempre pediu para preencher os espaço vazios com alguma coisas, qualquer coisa - qualquer coisa é melhor do que nada. Mas de uns tempos pra cá, com tantos espaços vazios pra preencher, eu comecei a sentir algo que nunca senti antes: sufoco. O sufoco é algo que, aos 9 anos, senti quando um amigo - hoje amigo, naquela época, inimigo mortal - tampou meu nariz e minha boca na esperança de que eu me calasse. Aos 13, perguntaram se eu era gestante quando cheguei ao hospital, enrolada em toalhas, sangrando, após ter sido estuprada - não consigo achar uma metáfora pra isso. Aos 16, quando percebi que minha adolescência e minha inocência se perdeu por completo no meio do caminho. E aos 18, quando dei um nome pra ele.

Ultimamente, o sufoco vem em forma de dor de cabeça, olhos pesados, lágrimas que seguro achando que, se eu começar a chorar, nunca mais eu paro. Acumulei tantos sufocos ao longo dos anos que hoje ele é uma parte de mim que tive que aprender a conviver, por bem ou por mal. Por isso sempre achei que ele não existia, que esse sentimento é inédito, confundia-o com cansaço. Eu sempre estou cansada, oh céus, quem eu quero enganar?

Mas eu estou sufocada. Sufocada pelas palavras horríveis que ouço durante o dia e tenho que fingir que elas não foram ditas. Sufocada pelas esperanças depositadas em mim, que na maioria das vezes eu mesma coloco, e eu não consigo me suprir. Sufocada pelo ambiente fechado e pelos litros de água que derramam enquanto eu busco, frequentemente, uma bolha de ar que me forneça um pouco do volume de oxigênio disponível em seu interior. Sufocada por não conseguir ler um livro por pura e simples vontade de ler um livro. Sem precisar entender nada, pensar, fazer resumo.



As palavras vem meio mortas, digo, tortas. Sinto, às vezes, que minha alma foi esquecida no mundo das ideias e tudo o que eu sou é pura matéria orgânica esperando o vencimento para entrar em decomposição. Onde ficou toda a profundeza do que eu sinto? Onde estão todos os meus sentimentos? O sufoco me sufocou tanto que eu me tornei o próprio demônio engolindo suas vítimas. Eu não sou a vítima, eu sou o demônio - sou os dois. O Sufoco - coloquei em letra maiúscula já que o personificamos - me fez acreditar que não olhar pros meus problemas iriam fazer com que eles não existissem.

Pois veja, Bárbara. Você tem dores. Você tem amores profundos os quais sente falta. Você tem sonhos e você tem um sonho gigante - mas pare de viver por ele, por favor. Você sente a dor física da angústia, e tem enxaqueca, não gosta de dipirona, sente cólicas, menstrua, tem TPM, inferno astral, o eclipse foi esses dias... Você, ainda, é um ser humano. Você ainda precisa da língua. Você ainda precisa do tempo. Você está dentro da caverna e acredita fielmente que as sombras são a única realidade que existe. O conceito de amor próprio é muito mais amplo do que sair de um relacionamento que não te faz bem, ou manter uma rotina semanal de hidratação no cabelo - mas que isso é um grande passo, é.

Tá na hora de tirar os chicotes nas costas e, no mínimo, acolher esse sufoco que tanto prende as lágrimas e as palavras dentro de uma caixa. Alguém, não sei quem, lhe obrigou a guardar essa sua essência intensa por muito tempo e agora você precisa gritar. Grite. Grite aqui mesmo que PUTA QUE PARIU, porra. Grite que você só quer dormir, só quer um tempo, quer que tudo acabe logo mas sabe que nunca vai acabar porque, vai tomar no cu, desgraça, a vida é um ciclo eterno de frustrações.

E tem algo de errado com isso? Não. Eu só não entendo o porquê.

No fim das contas, eu me reinventei hoje e durmo agoniada sabendo que, no final do dia, eu vou me abortar. Mas com um fio de esperança de que eu sangre até virar a única coisa que restou de mim, que minhas hemácias sobrevivam para contar a história. E que minhas palavras não sejam infinitas - mas que sejam eternas enquanto durem.

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