Levamos os sonhos a sério demais

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Leia ouvindo: Explodir - Rubel

Há uns anos [atrás] eu criei um sonho pra mim. Li num livro, vi alguns vídeos, achei que seria uma boa ideia deixar tudo pra trás e começar do zero - eu mal sabia que eu estava no -2 nessa cronologia toda. Um dia, a angústia bateu mais forte que o sono e eu passei a madrugada pensando: "e se esse sonho não for real?". Nesse dia, alguém me disse que levamos nossos sonhos a sério demais. Eles, de fato, merecem nossa energia integral para que possam deixar de serem sonhos. Mas uma parte de mim está em jogo. Uma parte das minhas lágrimas que derramo no banho, de saudade antecipada, provavelmente vão cair por mais alguns anos. Quanto tempo eu aguento?

Não tenho conseguido escrever. Estou lutando contra as minhas pálpebras pesadas e a vontade de deitar para colocar pra fora um pouco, nem que seja uma gota de suor, do que tanto ocupa meus pensamentos e faz com que eu me sabote de vez em quando. As coisas se superam, cada vez mais. E com coisas eu quero dizer raiva. Quando eu achava que eram as provas - muito além das escritas, eu digo, as provas diárias -, eu percebo que meu cansaço está encrustado, como uma joia bem feia, bem barroca, numa pedra de mármore escura. Cansei de escrever, eu acho. Cansei da arte porque a arte me abandonou, tornou-se apenas teoria e perdeu o seu sentido de me tirar do fundo do poço. Eu cansei de tentar.

Ás vezes, eu pinto. Minha aquarela mais recente foi um peixe. Pintei-o pois senti uma compaixão enorme por esse ser que nasceu para desbravar seu ecossistema, mas que, na maioria das vezes, vai parar num prato de sushi. Seria insuportável, pra mim, se eu tivesse o dom da liberdade e me tirassem apenas para servir, com base na dor e num sofrimento que, apenas pelo fato de não ser expressado por palavras, as pessoas acham que não existem. Existe um peixe dentro de mim que eu mesma devoro. Corto as branquias, tiro os órgãos, fico apenas com o que é saboroso pra mim mesma - mas o resto, não importa.


Quando, raramente, escrevo, é sobre ela: ah, meu deus, ela. Não diria que estou apaixonada, longe de mim entrar nesse abismo de novo. Mas é que, nos raros momentos em que eu não me sinto cansada a ponto de parecer que se eu encostar a cabeça eu vou dormir, ela sempre está ali para afirmar que a única pessoa que me impede de realizar meus sonhos sou eu mesma. Me bate uma raiva quando alguém me fala isso. Ah, então quer dizer que a culpa é minha se Deus me odeia?, penso. Na verdade, é sim. Levei meus sonhos a sério demais, e agora não consigo me desprender da história perfeita que criei pro meu futuro. Tomara que tudo dê certo, mas se der errado, que dê errado com glamour. Aquele errado digno de livros e filmes e, nesses tempos, seriados,

Voltando aos sonhos: os tenho. Tenho tantos mas que, no frigir dos ovos, se resumem a um só. E esse um só que me impede de realizar todos. E esse um só é meu maior empecilho entre mim e eu mesma. Essa pequena Bárbara que, aos 12 anos, achou que seria tudo bem sonhar demais, provavelmente não sabia dos efeitos colaterais. Não sabia que ela não estaria sozinha - nunca esteve - e que, no fim, se sentiria amada. Tão desapegada, coitada, não imaginou que daria seu primeiro "adeus". Os laços, no fim, são reais, e como é bom ter amigos.

As coisas ainda estão muito confusas pra mim porque eu deixei a intensidade de lado - mas isso não significa que estou mais racional, muito pelo contrário. Se eu pensar demais, eu surto, eu desisto, sei lá. Mais uma vez, eu repito, o cansaço me pegou e eu não consegui fugir. Só quero que tudo acabe e que eu possa deixar pra trás um pouco do passado que me estressa e um pouco do futuro que me impede de aceitar o que tiver que vir. Um recado eu deixo, para eu mesma, caso eu tenha partido: faça valer a pena. Você deixou que você mais ama pra trás.

Mas, como eu ainda não sou a mulher mais forte que pretendo ser, preciso pisar no meu orgulho e pedir ajuda Àquele que, provavelmente, é único que não vai me chamar de fraca se eu me perder no caminho, visto que nem eu me escapo desse rótulo. Portanto, querido Deus, por favor, não me abandone. Não agora.

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