O Paulista

12:42



Leia ouvindo: A Cidade - Cícero
Um dia, quando eu estava no metrô de São Paulo, provavelmente em janeiro ou fevereiro - não me lembro bem, apaguei parte das minhas memórias dessa época -, enquanto eu descansava meu pescoço no ombro de Matheus Cardoso, eu estava cansada. Por algum motivo, eu estava cansada, mas isso não é noticia, eu estou sempre cansada. Porém, ao mesmo tempo em que fechei meus olhos, entrou no vagão, um homem. Um homem machucado, com o braço engessado, os olhos caídos e cheios de bolsas. Mal cuidado, tadinho. Eu admito, esperei que ele entrasse e se aquietasse, ficasse calado. Mas ele fez um escândalo tão silencioso que quase não ouvi - mas talvez, eu tenha sido a única que ouviu alguma coisa. Não com os ouvidos, é claro. Ultimamente minha audição tem falhado muito - dádiva divina pra não ouvir tanta porcaria por aí.

Em um tom baixo, como se estivesse com vergonha de estar ali, ele contava que estava desde manhã cedo entre um trem e outro pedindo dinheiro para comprar leite para seus filhos. O vagão não estava vazio, havia uns gatos pingados, uns casais que conversavam, outros, como eu, cochilavam mas ouviam bem. Ele dizia como as pessoas estavam cada vez mais ignorando umas as outras e que, provavelmente, naquele momento, ele era invisível. Não pra mim, homem. Você existiu. Eu sei que você está aí. Eu olhava pra Matheus, na esperança de que ele falasse algo ou, no minimo, compartilhasse comigo daquele sentimento de existência. Daquela pena por ainda existir tanta dor no mundo. Porém ele continuava vidrado na tela do telefone jogando futebol, atingindo um novo estágio do seu vicio, mas tudo bem, o mundo precisa de espelhos.

Olhei ao redor, na esperança de cruzar com alguém que sentia o mesmo que eu - todos bem devaneiados, preocupados e despreocupados demais para se preocupar com a fome ou com o braço quebrado alheio. Depois de uns dias eu entendi que paulista é frio e cético assim mesmo, a culpa não é deles, é só o modo de sobrevivência. Pra viver numa terra tão gelada tem que ter peito e coragem - coisa que meu coração mineiro e mole não tem nem um pouco. Enfim. Eu continuava encarando Matheus na esperança de respostas, mas ele só preenchia o silêncio com um beijo. Quando ele vai aprender que eu gosto do silêncio? Gosto da dor que o silêncio deixa e gosto da energia potencial que ele carrega.



O homem, por sua vez, continuava suplicando seu capitalismo monetário, num infinito pleonasmo, e eu não podia, na verdade, não queria ajudar. Não sei ao certo o motivo, talvez por puro egoísmo, mas eu não fiz questão de dar a ele aqueles dois reais guardados que provavelmente, posteriormente, virariam kit kats. Continuei encarando o metrô e a cada pessoa que entrava, eu rezava para que elas me ouvissem. Rezava para que elas ouvissem o pedido do homem e se sensibilizassem com a realidade, que eu não era capaz de me sensibilizar a ponto de passar por cima do meu orgulho - por isso, escrevi. Eu sou escrota e possessiva, bem mais do que defendo ser.

No fundo alguma parte minha sente demais e não quer admitir isso - porque, afinal de contas, eu queria fazer parte do grupo de paulistas frios e ignorantes daquele vagão. Talvez eu que seja a idiota que acredita na comoção. Talvez nada seja real e eu não esteja acostumada com o cotidiano paulista. Talvez o mundo seja muito pior do que eu plasmei - talvez. Mas isso não me impede de que, apesar das súplicas, eu transforme o discurso em palavras. Transforme o silêncio em palavras. Não sei muito bem, ainda, o que aquele homem me ensinou. Não sei ao menos se ele me ensinou alguma coisa. Mas sei que ele me disse algo que eu não entendi muito bem; mas ouvi.

São Paulo, Tarsila do Amaral (1924). Queria enxergar tão colorida igual Tarsila pintou.

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