A festa da democracia

14:38


Leia ouvindo: Apesar de você - Chico Buarque

Para quem não me conhece, eu sou muito mais que uma blogueira que escreve textos de amor ou de auto ajuda para um blog na internet. Sou mais do que essa pessoa que vocês acompanham superficialmente nas redes sociais. E hoje, eu decidi honrar todos os caminhos que as mulheres abriram até o dia de hoje e gritar, com a voz que ainda resta, as dores e as conquistas que residem em mim. Não é por quê o que eu sinto não envolve um terceiro romanticamente que vou ficar calada ou vou guardar esse sentimento da maneira mais silenciosa que eu conheço - em 18 anos sendo cidadã, essa é a primeira vez que posso usar meu espaço da maneira mais sábia que eu consigo. Espero estar fazendo certo.

A festa da democracia, no Brasil, nunca esteve tão lotada. É lindo ver tanta gente gritando e fazendo barulho, seja de qualquer um que seja dos lados, é pra isso que nós lutamos - no passado e vamos continuar lutando no futuro. Lutamos para que você pudesse falar os seus ideais pela rua, usando verde, amarelo, roxo ou vermelho, qualquer cor, qualquer camisa, sem que sua opinião fosse condenada. Passamos 24 anos sem ler o que queríamos, sem ouvir o que queríamos e acho lindo que podemos usufruir disso ainda. "Posso não concordar com uma palavra do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de expressa-la", disse Voltaire há dois séculos atrás. Por que, logo hoje, essa frase me parece tão estranha?

Apesar do panelaço e do uso frequente da voz individual - é lindo, de verdade, ver tanta gente nas ruas defendendo o que acredita -, eu faço um trabalho árduo para continuar amando o Brasil, sem querer deixa-lo. Eu não o entendo. Não entendo 46% dele, pra ser mais específica. Sou professora de literatura, não ganho um centavo por isso e meu nacionalismo nunca esteve tão a flor da pele - já até aceitei que a identidade do Brasil é não ter identidade, é ser a casa-da-mãe-joana do mundo e ser feliz assim, arrastado, às avessas, indo até onde dá. Mas eu ainda assim, não entendo como os argumentos de união nacional podem se opor à própria unificação.


Ás vezes, dentro da minha família - e com família eu não quero dizer parentes, mas sim, pessoas que estão no meu círculo e querem me ver viva -, eu sou chamada de louca por acreditar tão arduamente no país. Por acreditar que a educação muda o mundo, por me espelhar na história e fazer de tudo para não repetir-la. Meu cristianismo nunca foi colocado tanto á prova, logo agora, que eu me coloquei disposta a amar a incompreensão brasileira. Mas eu ainda assim te amo, Brasil. E estou aqui e vou ficar aqui enquanto eu puder. E se não puder, eu volto.

Acredito que está na hora de usarmos o "complexo de vira-lata", aquele que Nelson Rodrigues falou na copa de 1950 após a derrota traumatizante para o Uruguai, ao nosso favor. Olhemos para os países mais experientes, que passaram pela dor que a gente nunca passou, que sofreram com a fome, com a morte, com a insegurança e vamos ouvir o que eles têm a dizer. O progresso não precisa ser sanguinário - mas será enquanto houver teimosia, orgulho e falta de empatia. Os livros de história não mentem, a literatura não mente e muito menos os sobreviventes do caos. Agora, mais do que nunca, é tempo de fazermos diferente. E diferente não significa necessariamente eleger um candidato novo - significa não repetir a história mais violenta que o país já passou. Ou você só vai perceber isso quando a dor bater na campainha do seu condomínio?

A ferida do Brasil é mais profunda. Somos um país que cresceu por conta de golpe atrás de golpe e nunca tivemos tempo de sofrer o luto dessas demagogias. Não existe gaze que estanque esse buraco. Não existe agulha que costure a falta de amor. E dói. Dói porque aconteceu. Dói porque não foi com você, mas foi com outras centenas de pessoas que falaram alto, que gritaram demais, que usaram vermelho. Dói porque é uma vergonha que nosso país não precisava ter enfrentado - mas enfrentou, e não aprendeu. Sinto muito se seu preconceito fala mais alto que seu caráter ou, no mínimo, que a sua consciência de que você precisa esconder isso pra ser uma pessoa sensata. Sinto muito que o ódio tenha dominado seu peito e que a esperança, pra você, tenha se tornado o simbolo de uma arma e não de uma pomba branca gloriosa. Sinto muito, mesmo, mas eu não te entendo.



Mas não te entender não impede que eu te respeite. Eu respeito seus gritos de guerra, ouço em silêncio, absorvo e até tento me colocar no seu lugar. Jesus, meu querido amigo santo que esteve comigo durante todo esse processo, sabe quantas vezes eu tentei pensar como você para tentar me aproximar, estabelecer algum laço e enxergar o mundo através do seu ponto de vista. Mas isso, infelizmente, é impossível. Não vivi suas experiências, não tive seus pais, não estudei com os mesmos professores. Mas no fundo, eu fico extremamente feliz que essas divergências ideológicas existam e que ainda somos autorizados a falar sobre elas em público. Voltei nesse assunto de novo, né? Desculpe. Mas eu já falei sobre como eu sou feliz por viver numa democracia?

Para encerrar, eu quero dizer que tenho medo. E não tenho vergonha em falar que estou com medo pois foi exatamente o medo que me tirou da estática e me reergueu, sussurrando, com aquela voz rouca e quase apagada: "amanhã há de ser outro dia". E não é que foi? Se as lágrimas escorreram de madrugada, hoje de manhã, o Sol nasceu e iluminou o futuro que eu, você e todo o resto podemos mudar. Entretanto, espero não dar mais força pro medo do que ele merece pois tenho medo - sim, eu tenho- de quem eu posso me tornar. Usarei do medo para dar meu último suspiro de resistência e se não for o suficiente, eu grito. Morro, mas grito.


You Might Also Like

0 comentários