utopia

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Leia ouvindo: Cartomante - Elis Regina

Esses dias eu não estou entendendo o mundo muito bem. Minha casa tá muito bagunçada, eu ando tendo sonhos estranhos, a desesperança que, até então, era um terreno inóspito pra mim, se tornou um lar quase que acolhedor. Além de não me reconhecer no espelho, não consigo me encontrar de tal modo que eu saiba o que fazer para recuperar o cansaço que deixei cair ao longo dos meses. Não tenho feito nada de útil além de ocupar minha mente sentindo raiva, nojo e um pingo de resto da fé que ainda tem aqui dentro. Talvez seja sintoma da mortalidade do ano, mas talvez seja apenas a carga que os anos pares trazem consigo - são superstições como estas que eu carrego comigo ao longo dos anos para acreditar que os sentimentos ruins são momentâneos. Mas a cada dia que passa eu percebo que não são.

Daqui uns anos, provavelmente, eu vou me achar uma estúpida por gastar tanta energia me preocupando com algo que eu não tenho controle. Faço minha parte, é claro, mas será que dá para gritar tão alto a ponto de Deus ouvir? Olho para trás, na história, e me pergunto como tanta catástrofe foi permitida - e eu não sei. Não existe, sei lá, um juiz astral que analise a Terra e fale: "Opa, calma, agora eles foram longe demais"? Se eu falo de fé, eu falo disso. Falo de, um dia, descobrir que toda essa dor é, na verdade, um teste divino e que, cedo ou tarde, o julgamento final vai acontecer e só será salvo quem manteve seus valores na crise e na ascensão. Ao meu lado, tanta mentira e hipocrisia que apenas uma coisa se passa pela minha cabeça: nojo. Nojo e desistência, na verdade, pela vontade de entregar os pontos e perceber que nós, seres humanos, não merecemos a boa vontade dos anjos.

Entretanto, ultimamente eu tenho me sentido culpada por ser empática demais. Não querendo me vangloriar, na realidade, meu maior defeito é o egoísmo - mas sempre achei que meu egoísmo seria o nível máximo de egoísmo que o ser humano pode chegar. Feliz ou infelizmente, eu estava errada. Descobri que existem pessoas ruins dentro da minha própria casa. Pessoas que disseram me defender com unhas e dentes, mas não levantam o dedo para abandonar o universo paralelo que existe ao redor do umbigo. Não foram capazes de se colocar com o medo de andar na rua. Da incerteza de acordar vivo amanhã. E a tortura constante que é viver cercada por abutres que querem sua carne, seja a viva, seja sua alma, seja sua mão de obra, enfim, te querem inteira para poderem te usar inteira.


Esse texto não era pra ser sobre política. Eu estou meio cansada desse assunto visto que minha saúde mental está completamente comprometida. Mas eu não ligo. Não ligo porque fui muito bem ensinada de que nós fazemos política o tempo todo e é justamente agora que devemos expor nossas almas pra fora, em prol da liberdade - que pode ser a última. Eu não ligo porque lutei minha vida toda para conquistar o meu espaço e não é agora que apertou que eu vou desistir. Então sim, leitor, esse texto é sobre política e sobre como minha luta tem sido bem mais interna do que externa, até porque, não tem muito mais a se fazer a não ser rezar para que a dor dure apenas 4 anos, e não 24. E por falar nisso, tenho experimentado um tipo de dor que nunca experimentei antes: a dor em massa.

Pois então, falemos de política. O que será de nós agora que o apocalipse está instaurado? O que será de mim cujo maior sonho é ser professora de literatura, mas aqui, no Brasil, e não em outro país pois não seria tão desafiador e cativante como é nesse lugar? O peito grita socorro pela educação pois é ela e apenas ela que liberta o homem. A caverna contemporânea, simbolizada pelas realidades virtuais que nós mesmos criamos na esperança de aparentar muito melhores do que realmente somos, demorará séculos para ter seu primeiro habitante liberto? Que então, seja livre. E use o martelo para desmoronar as falsas convicções que criamos ao longo da vida.

Quando eu penso, então, que deveria ser mais egoísta para não sofrer tanto - preciso reconhecer o quão privilegiada eu sou por ser branca e não depender de serviços públicos, o que me dá uma vantagem nessa corrida -, com alguns chicotes, eu marco minhas costas pois, afinal, é impossível deixar de ser quem eu sou. É impossível escolher outra profissão apenas porque o mercado de trabalho é destrutivo e não importa para que lado eu corra, sempre vou terminar numa manifestação insatisfeita com algo. E eu te pergunto: não deveria? Não vou ficar mais egoísta, mas vou fingir que sim para me infiltrar e tentar salvar de mãos dadas todos aqueles que prometi mudança.

Espero que toda a opressão torne arte. Espero que todo sangue vire tinta. Espero que toda grade vire oportunidade de ver o mundo meio cubista. Apesar da pedra que virei, ainda tenho esperança de construir um mundo melhor, nem que isso custe minha vida e meu labor, nos quais eu dou com o maior prazer. E no fim de tudo, eu só espero que acabe.




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