A vida dos sentimentos

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Leia ouvindo: Cecília - Anavitória

Escrever para você é até mais fácil do que escrever sobre você. Mas, alguma coisa dentro de mim, algum bicho que cruza essas veias precisa ser defenestrado - tomei a liberdade de substituir a janela por boca e espero que você entenda que, na verdade, o bicho são palavras e que as palavras são tudo o que eu gostaria que você entendesse. Não sou nem um pouco didática, o que, provavelmente, seja o principal empecilho entre a gente. Você dá aula de geografia e tudo é tão milimetricamente calculado entre escalas e proporções. Enquanto eu, que dou aula de alma, ou seja, de poesia, viajo até no ponto torto dos poemas dadaísta. Isso me impede de te amar? De amar sua objetividade e, quem sabe, amar até a raiva que você me faz passar por não ler minhas entrelinhas?

Infelizmente, matérias escolares não são nossa única diferença. As diferenças, que se resumem em falhas comunicativas e uma visão divergente do futuro, podem ser apenas um teste divino que me faz querer, cada dia mais, lutar contra os demônios e abrir as portas do paraíso, onde você me espera(ria). Mas ao invés de falar sobre as coisas que nos distanciam, decidi escrever sobre as outras mil coisas que nos fizeram chegar até aqui. As outras mil coisas que eu penso quando deito a cabeça no travesseiro e tento refazer meu dia só pra passar mais tempo com você. O seu sorriso, por exemplo, quando qualquer pessoa fala qualquer coisa. E até quando você ri de nervoso e finge que tá tudo bem só pra não piorar mais a situação. Sempre foi assim. Sempre gostei que fosse assim.

Entretanto, de uns tempos pra cá, eu venho me sentido fraca. Acordo cedo, coloco logo uma máscara que só cai de noite, no banho, quando o peso finalmente desaba pelas costas e eu não tenho mais força para sustentar tanta dor. Eu tenho me sentido fraca por ter medo de ser fraca, sendo que eu fui forte por tanto tempo. Mas agora tudo me parece uma ameaça; um teste constante. Tenho medo de usar as palavras e que você me olhe torto, como quem julga o livro pela capa - o que não faz sentido, sendo que sempre fui o mais aberta possível pro mundo inteiro. Crescer é difícil e crescer ao lado de quem ama pode ser um pouco menos penoso. Mas por que eu quero tanto que você suma? Por que, no meio da noite, eu penso tudo seria mais fácil se eu nunca tivesse te tocado? Algumas coisas são elásticas e nenhuma mola volta ao seu estado original. Somos molas e você me deformou de uma forma linda, porém, instável. Linda porque você virou minha poesia mais linda - e instável pois, bem... não me tornei mais consciente depois de você.

Sempre defendi que amor não sustenta nada nessa vida, nunca foi o bastante para carregar o ar que respiramos - é preciso ter firmeza. É preciso ter certeza. E por mais que eu queira me justificar por tudo o que eu falo, sinto que as palavras fazem mais sentido na minha cabeça mas deixariam de fazer sentido se você as interpretasse - por fim, eu prefiro o mistério. Prefiro que a interpretação vire um sonho lúdico e que a gente continue nessa sinestesia infinita, uma figura de linguagem muito mais bonita que a realidade; do que acabar com tudo por conta de uma vírgula - ou um ponto e vírgula, ou, no pior dos casos, um ponto final. Gosto do silêncio, raras vezes, mas principalmente quando você está deitada no meu colo e eu sinto a responsabilidade de permanecer imóvel - qualquer inspiração ou expiração é uma ameaça pra destruir o mundo que tanto penei pra construir. Do seu lado, mas paralelamente ao seu.



Falar sobre amizade, por fim, é mais difícil que falar sobre o amor - amizade é uma manifestação mais pura do amor, pois não tem o peso do orgulho, não tem a imundice da raiva. Um beijo na boca é mais tóxico do que um toque, talvez, quando o toque não vem carregado de paixão. E falar sobre o que a gente tem é confuso pois tenho privilégios demais dentro dos dois conceitos para reduzir em um só.  De qualquer maneira, espero que fique um pedaço de quem eu sou em todos os âmbitos pois não quero ter que ser outra pessoa para ficar perto de você. Quero poder me colar e descolar quando necessário. Quero poder virar seu travesseiro e você meu cobertor. Quero ter a liberdade de desligar o telefone quando me faltar palavras mas também de poder discar seu número quando a saudade transbordar. Quero ser, por fim, sua. Me deixa ser.

Quando eu, então, puder usar minha poesia sem medo, puder proliferar minha alma em forma de flor, eu sentirei conforto em ficar. O aconchego nem sempre vem em tsunamis e terremotos - na maioria das vezes ele vem num vento bem fininho. Nesses que até sussurram seu nome; e deita; e fica. Quando eu, por fim, puder soltar minhas asas ao teu lado e te convidar para voar comigo, saberei que nosso encontro é milenar e prometo nunca mais duvidar de uma palavra que disser - não se pode contrariar a voz dos anjos. E se um dia, daqui uns anos, a gente se reencontrar - pois nada deu certo e a gente precisou se separar para construir tudo de novo -, nada mudar, saberei que meu sorriso, no fundo, era seu e ele estava só esperando você chegar.

Talvez eu consiga escrever melhor do que acabei de fazer e com certeza você merece mais do que palavras abruptas num texto da internet que quase ninguém lê. Mas eu só queria que você soubesse que eu estou tentando. Tentando, além de ser forte, não deixar a fraqueza se tornar um problema. Tentando ser o melhor que posso ser pois você merece a parte boa que tenho a oferecer e não a confusão que se instala esporadicamente, sempre quando mercúrio está retrogrado, ou quando o sol está em um signo de água. Mas espero que você também tente me amar mesmo assim, mesmo eu sendo essa pessoa desconexa e sem coesão, porque infelizmente eu não posso ser melhor do que isso. Minha função é organizar o mundo mas o mundo não se preocupou em me organizar.

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