Me desculpa, Baco, queria ser você

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Sei que eu não sou muito de publicar textos que sobressaem meus sentimentos individuais e até um pouco egocêntricos. Sei que eu mais abandonei a escrita do que a fiz de refúgio nos últimos tempos. Mas quando aparece algo que te tira do rumo, te sacode e, até mesmo, te traz de volta a vida, chegar atrasada no ultimo dia de prova se parece justificável - visto que eu acordei de madrugada pra escrever isso e tive um devaneio, quase um sonho (não sei ao certo se eu estava dormindo). Acontece que passei as últimas semanas ouvindo o álbum do Baco Exu Do Blues, Bluesman, e já na primeira música eu me arrepiei da cabeça aos pés. É muito difícil expressar os sentimentos mais profundos que eu guardo dentro de mim, aqueles que, às vezes, a gente tem até vergonha de admitir que sente. Mas, entre eles, eu sempre me senti um pouco culpada por me identificar com músicas e artes em geral sobre o movimento negro. Sempre achei que eu não tinha o direito de cantar alto, de saber os ritmos - desde quando eu percebi que sabia cantar todas as músicas do Racionais mesmo não tendo vivido um quinto daquelas letras. O álbum do Baco me fez entrar nesse sentimento um pouco mais, um pouco mais intensamente,  mas me distanciando da culpa e entrando de cabeça na melodia e no embalo que todas as músicas têm a oferecer. Então, hoje, eu só reconheço o meu privilégio de ser uma pessoa branca e ter o espaço pra enaltecer essa obra que merece uma atenção enorme, entretanto, ainda com um pouco de receio de pisar onde não devo. Foi quando eu entrei no ônibus e vi um homem que vendia capinhas de celular para ajudar uma clinica de reabilitação. Mas a capinha era tão barata que é sabido que o trabalho escravo estava inerente naquilo. E aí ficou a pergunta. Qual mundo eu vou salvar hoje: o mundo das drogas ou a exploração laboral? E então eu percebi, minha finalmente ficha caiu. Não importa se começarmos a fazer tudo perfeito a partir de agora, nada vai dar certo. Ou não certo o suficiente para que a gente possa presenciar o bem se alastrando, quebrando prédios e libertando os presos. O que isso tem a ver com Bluesman? Bluesman me fez perceber que a gente não precisa mudar o mundo, mas aprender a viver nesse mundo meio bosta. O que não é necessariamente ruim, mas é o que tem pra hoje. Não sei se foi a intenção de Baco fazer-nos refletir sobre isso, mas se a questão social dentro do álbum está presente - e está -, eu consegui aplica-la de uma maneira abrangente e que, sinceramente, ao mesmo tempo que me deixou pessimista, me deixou mais tranquila. Já faz algum tempo que eu percebi que eu venho perdendo as esperanças e Baco só me trouxe pro lado certo: não desista, apenas jogue o mesmo jogo que eles. 

Mas agora falando sobre o aspecto que está florescendo na minha vida agora. O aspecto que não tem nome, nem cor, nem cheiro. O aspecto que apenas Baco conseguiu traduzir perfeitamente bem em algumas músicas. É sabido que ele fala bastante sobre doenças mentais. Achei que esse fato era de senso comum até eu ver que ele precisou explicar ao seu público o que estava escondido nas entrelinhas. Nossa sociedade está tão iludida assim?, pensei. Esses sentidos e sensações são mais presentes no nosso dia a dia do que a gente gostaria, e fatalmente não é tão simples falar sobre eles mesmo sendo tão inerente. E mesmo sendo tão inerente, a gente ainda precisa decifrar os versos pois nada está claro o bastante para falar sobre isso. Apesar de algumas músicas estarem disfarçadas de uma grande homenagem pra ex - eu sei bem o que é isso -, não precisa reouvir muitas vezes o álbum pra perceber que Baco é gente como a gente - e está perdido. Mas a solidão não precisa ser tratada como aquela calcinha suja que a gente taca pra debaixo da cama. Muito pelo contrario, a gente deve transforma-la em arte.  O álbum, em determinados momentos, me lembrou uma instalação de Tracey Emin que chama "My Bed", em que ela reproduziu sua cama na qual passou vários dias deitada, cercada por garrafas de bebida e embalagens de comida, mergulhada numa tristeza profunda, indescritível, porém, bastante comum a todos nós. Essa paisagem não me é estranho, por exemplo. Isso, pra mim, é lindo e provavelmente é uma das instalações que eu mais amo no mundo pois retrata de uma maneira nada glamourosa um sentimento que não precisa de glamour pra ser retratado. E quando eu ouvi Bluesman pela primeira vez eu só consegui visualizar esse cenário pois, apesar de ser lindo, existe uma dor profunda que fez Baco rabiscar palavras por dias, sem sentido, com raiva, como um desabafo, com medo ou até mesmo sem medo algum, apenas mordendo a pele pra abafar seu maior grito. A gente que está por fora nunca sabe o sofrimento que envolve produzir arte. 

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                                        "Me deixe viver ou viva comigo 
                                         Me mande embora ou me faça de abrigo" 


Esses primeiros versos de Flamingos refletem bem o que tenho vivido nesses últimos meses. Uma vontade imensa de viver, mas, ao mesmo tempo, uma preguiça de fazer dar certo. Fazer o que dar certo? Não faço ideia. Mas temos preguiça. Temos saudade e a certeza de que não se pode banhar duas vezes no mesmo rio, ou seja, por mais que um momento se repita, ele jamais será o mesmo. Reparei também que nessa música a simplicidade é tão presente que podemos enxergar com clareza todas as descrições cronológicas que são feitas. Conseguimos nos imaginar usando camisas suadas estampadas de flamingo, ouvindo exalta na quebrada, gritando: eu me apaixonei pela pessoa errada. De todas, essa é a música mais confortável do álbum. No meio de tantos sentimentos que se confundem com os sonhos eróticos com a Beyoncé, existe uma batida tão leve que traz uma mensagem profunda durante um sono de quase dias. Um sono esse que eu preciso, inclusive, e acredito que Baco também. Portanto, o conforto vem como uma brisa de verão. É possível sentir o vento batendo e o cheiro do mar quase que te enrolando, te convidando pra entrar - como uma boa mineira, eu nem lembro mais o que é isso, mas sei o que é nostalgia. E nostalgia é um sentimento horrível. Se a vida fosse aquele filme do Adam Sandler, "Click", os momentos nostálgicos seriam aqueles que a gente com certeza voltaria para viver de novo. Mas o que mais aprendemos nesse filme? O tempo fica no seu tempo e a gente lamenta, mas segue em frente.


Eu não ficaria confortável comigo mesma se eu não mencionasse aqui a música "Girassóis de Van Gogh". No fundo, esta é a que eu menos tenho o que falar pois nem eu entendi os impactos que ela teve sobre mim. Só sei que eu não sou mais a mesma. Entretanto, quando falamos de depressão, os girassóis de Van Gogh propriamente ditos são um símbolo bastante comum e representativo pois este era um artista bastante complexo e que deixou muitas marcas para a história da arte relacionadas a esse assunto. Falei apenas mais do mesmo, né? Não importa. A arte visual é um assunto bastante delicado pra mim, que eu busco, até hoje, me encontrar e não me envolver mais do que eu preciso com isso. Van Gogh, ao contrário de várias outras pessoas, não é um artista tão importante pra minha vida - quem sabe, um dia, eu escreva sobre os pintores que me pintaram. Mas o que eu acho interessante no álbum do Baco é como ele trata essa questão da tinta em suas músicas, explorando outros aspectos da arte, falando, inclusive, sobre Basquiat, que começou a chegar nas escolas agora. E se vamos falar de tinta, quero ressaltar um dos versos mais lindos do álbum que, não por coincidência, eu espero, finalizam esse simbolismo em forma de música.

"Sou meu próprio Deus, meu próprio santo, meu próprio poeta
Me olhe como uma tela preta, de um único pintor
Só eu posso fazer minha arte
Só eu posso me descrever
Vocês não têm esse direito
Não sou obrigado a ser o que vocês esperam
Somos muito mais!
Se você não se enquadra ao que esperam
Você é um Bluesman"




Mas no fim das contas, há uma música, entre as nove, que me chamou mais atenção. Talvez pela verossimilhança com minha própria vida e com esses sentimentos que eu anteriormente citei por serem vergonhosos demais. Não estou apaixonada, mas mandei essa música para umas três pessoas que eu queria queimar a pele, bem de perto. Portanto, o que mais me chamou atenção nessa música foi a intertextualidade - talvez meio despretensiosa, mas foi exatamente isso que fez com a música me levasse - que ela faz com um poema de Manoel de Barros que chama, justamente, "Difícil é fotografar o silêncio". E não é que é difícil mesmo? 

                                                       "Fotografar o silêncio é tão difícil
                                                        Fotografar o meu medo é tão difícil
                                                        Fotografar a insegurança é tão difícil
                                                        Eu disfarço tudo com cigarro, cerveja e sorriso"

                                                       




O meu problema sempre foi a intensidade. Isso é muito claro nas coisas que escrevo e pinto. E senti, portanto, uma compaixão enorme por essa obra de arte que, com toda certeza, será conteúdo obrigatório nas minhas aulas. A maneira como ele esclarece as questão pessoais que ficam entre a vida e a morte, e até mesmo entre a vida e a pior parte da vida, é única e são poucas pessoas que conseguiram fazer isso. Além do mais, a bagagem que deve se carregar para se manter sensível num mundo de pedra é gigante e tem que ser reconhecido. Baco, meus alunos irão te conhecer. Farei uma prova sobre seu álbum daqui alguns anos. Suas músicas, com tantas referências e figuras de linguagens, variedades, poesias, métricas desleixadas e, além de tudo, arte para fora e para dentro, devem, sim, sair do palco e ir para o peito, assim como foi pro meu. Saio de Bluesman uma pessoa nova. Uma pessoa que não sentiu tanto impacto em ESÚ - mas que deveria - e que, agora, para todo lugar que eu olhar, aceitarei as pessoas como Bluesman, Blueswoman, em potencial. 

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