eu odeio poesia

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Leia ouvindo: Drive Darling - BOY

Aqui estou eu. Alguma parte de mim precisa voltar no tempo, antes de tudo isso virar "tudo isso" propriamente dito. Outra parte, por sua vez, tem uma preguiça imensurável de tentar e de viver. A mente humana sempre me fascinou, porém, a minha mente é a mais codificável que eu conheço pois, mesmo abrigando-a, eu não a entendo. Estou coberta de feridas e dores, machucados na pele e no peito - principalmente no peito - mas não existe nada externo que me chicoteia. Esse parágrafo é muito menos subjetivo do que parece, mas a verdade é que eu só estou tentando direcionar as melhores palavras para o que parece indecifrável.

Acho que em algum momento eu já mencionei a minha inevitável dificuldade em ficar feliz. Há alguns dias eu descobri que confundo perfeição com felicidade, o que me parece bastante justo visto que eu me cobro muito mais do que deveria - o que eu ainda não descobri é de onde vem essa cobrança imensa e exagerada. Essa dor e essa pressão me tiraram a leveza - fato que eu carrego há meses e não consigo me livrar. Perdi as palavras que costumava usar para tirar o pus do coração e das costas. Perdi a esperança de conseguir mudar.

Eu penso em desistir. Se eu disser que não, infelizmente, estarei mentindo. O que me mantém de pé - de pé eu quero dizer ainda tentando pois eu não consigo, ainda, ficar de pé - é me lembrar do porquê de ter começado. Mas eu me esqueci, acredita? Porque o porquê foi uma puta mentira. Uma mentira que eu inventei para dar algum sentido à minha existência que por si só não tem sentido. Quanta inutilidade para um amontoado de células e de carbono, um pó de estrela que no fundo só queria ter continuado sendo um pó de estrelas. Talvez, se eu só fosse, e parasse de tentar ser, eu seria mais útil.

Enfim, no meio desses pensamentos que mais me consomem do que me tiram da cama, eu me lembrei de uma cena de Guerra Infinita em que o Doutor Estranho - acho que foi ele mas se não foi, Teusão, me desculpa por falhar como sua ex namorada - visualiza todas as possibilidades possíveis para um final feliz e pleno daquela situação. Estou nesse dilema. Calculei, na minha mente nada robótica ou engenhosa, todos os cenários da minha vida e encontrei apenas um em que eu estaria feliz. Satisfeita. Sorridente no banho e grata. E adivinha qual é?

Subjetivo demais? Desculpa. Por mais que eu tenha perdido a prática da escrita eu ainda sou poeta. E preciso deixar de achar que se assumir poeta é prepotência pois não é privilégio algum sentir dor em toda folha que cai de uma árvore. Na realidade, é mais um castigo que o destino deu pois ser indiferente é muito menos penoso do que ser a intensidade em pessoa. No fim das contas, é isso. Ser poeta é um castigo e eu ainda possuo o castigo de não ser a melhor poeta de todas. Talvez, se eu fosse, as palavras fariam mais sentido do que fazem em minhas mãos. Talvez, se eu fosse, poesia seria meu propósito e eu viveria por ela - mas não é, eu odeio poesia, são sentimentais demais.



Sempre quando escrevo eu percebo que nasci pra isso. Não porque eu faço isso bem, longe disso. Mas sim porque é quando eu fico transparente, ou como meus amigos costumam dizer, eu viro filha de vidraceiro. É bom ter o peito aberto quando é necessário - mas eu costumo falar muito sobre medo, né? E o peito aberto dá um medo do mundo. Apenas para resumir a presença do medo: eu o tenho. Tenho muito. Tenho medo de realizar os sonhos que criei e os que não criei, mas que estão aqui e que existem mas eu não sabia. Os que não existem também. O quanto minha cabeça se perdeu é um mistério que precisa ser tratado com crisocolo e rivotril, quem sabe. Mas para ser sincera, eu só estou perdida - e sempre fui muito boa em me encontrar. Essa é só mais uma fase que vai virar ou só mais um livro que eu transformei numa história de merda e sem graça que absolutamente ninguém vai querer ler? Nunca fui boa escritora. Desculpa Clarice, desculpa Marina.

Perdi o fio da meada. Preciso voltar a sentir algo para escrever. Pronto. Lembrei que daqui alguns dias estarei partindo para a nova vida que nunca planejei. Isso dá um vazio, sabe? É como se todo esforço não serviu muito pra algo. Mas ainda assim é uma boa vida. O que é ruim é quem está cuidando dessa vida - eu. E a bendita solidão que já é minha velha amiga hoje nem me incomoda mais. No fundo, nós duas sempre fomos o complemento da outra e eu só aceitei. Aceitar é o melhor caminho para parar de doer algo profundamente.

Ainda me restam alguns parágrafos de poesia para que meu peito esteja livre. Vou falar de como eu sinto falta de ter 15 anos. Aos 15 anos eu ouvia Arctic Monkeys e só pensava na vida que poderia ser - porque sonhar é sempre mais fácil do que realizar e quando se tem 15 anos a gente acha que tudo cai do céu quando se completa 18. Eu sinto falta, sobretudo, das músicas que deixavam a minha vida igual a um filme do Wes Anderson. Sinto falta da chuva, do frio, da sensação de estar crescendo e de ser a pessoa que eu quisesse. Eu tenho 18 agora e acho que decepcionei a Bárbara de 15 - mas se ela estiver decepcionada de fato, que se foda, ela não sabia de nada, pirralha escrota. Acho que o único sonho que ela realizou mesmo foi conseguir comprar ingresso pra ver o tal do Arctic Monkeys. Valeu a pena? Ainda não sabemos.

Quanto mais escrevo mais percebo que sou uma bola de caos. E que bom, né? Me diz que isso é bom. Se não for, terei que repensar todo meu curso de letras - e trocar pra biologia pra procurar um sentido cientifico pra vida, e não tão lúdico quanto a poesia. É muita ilusão acreditar que a gente vive porque é bom - a gente vive porque somos apenas um erro que Deus cometeu e agora ele, com ódio da humanidade, tem que alimentar essa raça de corações barulhentos que, por puro orgulho e vaidade, acha que palavras são feitas para embelezar a alma. Fomos criados para destruir o mundo e o mundo foi criado para nos destruir. Talvez eu deva fazer filosofia.

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