Livramento

16:09



Morning sunshine




Leia ouvindo: Depois - Tribalistas

Hoje eu me lembrei o motivo pelo qual não escrevo sobre você há tanto tempo - porque eu sempre escrevi para você. Mas agora eu estou determinada em encerrar esse ciclo vicioso entre achar que você é o cara certo e ter certeza que eu não quero te ver nunca mais. Então, por isso, hoje, eu pedi esse computador emprestado para escrever sobre/para você, sem que você ouça de mim, necessariamente. É estranho, sinto que eu perdi o jeito com as palavras, mas sei que logo tudo volta a ser bem familiar. Então não estranhe se eu não parecer eu mesma, estou apenas conversando com essa velha amiga que eu chamo de "eu".

É engraçado como a gente só aprende determinadas coisas apenas olhando para trás; olhei hoje e vi que, por Deus, como eu arrisquei tudo por você. Isso, com certeza, é algo que você não vai entender ou reconhecer, mas que é tão claro pra mim. O tempo todo eu estava numa linha tênue entre ser quem você precisava que eu fosse e surtar completamente por não conseguir. Hoje eu tenho uma cama de casal e durmo sozinha - sei que á te convidei algumas vezes mas, sinceramente, não me vejo dividindo essa vida caótica com mais ninguém além de mim. O que estou querendo dizer é que me esqueci por uns dias e não pensei no que eu realmente queria. Acessar esse "realmente" é meio chato e dolorido e eu ainda não tenho a resposta certa, mas olha só a vida que vivemos. Extremos opostos e eu não posso viver a mercê desse jeito.

Aprendi comigo mesma que eu sou um paradoxo: preciso de segurança mas não quero estar presa. É como um seguro de viagem. A segurança que eu sentia em você era única e especial, mas em algum momento isso passou a ser minha corda bamba. Você pulou fora antes que eu percebesse a dor que eu sentia no peito. Voltou antes que eu pudesse me costurar. Depois foi embora, de novo, antes que eu pudesse me lembrar de  como era seu rosto. Você iniciou um ciclo que eu, quase um ano depois de ter quebrado um anel de coco de péssima qualidade, não consegui encerrar. Me coloquei em risco confiando que você sabia o que estava fazendo. E não sabia. Ainda não sabe porque tenho certeza que quando você sentir miserável de novo, é a mim que você vai mandar mensagem pedindo aquela massagem no ego que eu me recuso a te dar.

De certa forma, eu sinto que você me deve algo. Você me deve submissão. Amor eterno. Gratidão profunda. Todas as suas histórias de bar. Você me deve ser sua dor mais horrorosa e terrível porque é exatamente o que você é pra mim: uma decepção típica de um relacionamento adolescente demais para sequer dividir uma cama visto que a gente não tem responsabilidade para cuidar do coração um do outro - se fosse só sexo, estava fácil. Você me deve um pedido de desculpas por ter entrado na minha vida e bagunçado o que havia de mais certo em mim. Talvez seja por sua causa, por medo de te encontrar no metrô ou qualquer coisa do tipo, que eu ainda estou presa nesse passado que não me parece certo. Desculpa se te carreguei de culpa, mas agradeço por ter estrago tudo pois eu precisava muito de um tempo pra pensar.



Hoje eu me livro, ou no minimo aceito que você foi mais um erro maravilhoso que cometi, para buscar um propósito que não envolva eu e você tendo uma filha no final. Eu quero que você seja feliz, eu juro que quero. Mas do mesmo jeito que te falei naquele quarto de hotel, não quero estar perto para ver isso. Provavelmente porque eu queria ser parte da sua felicidade, mas não suportaria a sua inconstância. Te juro que estarei sendo feliz daqui, de Belo Horizonte ou talvez de outro lugar, mas não sei como ainda. Sozinha é tudo mais difícil, mas também é muito mais emocionante.

Perdi as contas de quantas vezes eu me despedi e acabei voltando para pedir algo. Eu sei que isso pode ser egoísta - e de fato é -, mas eu não estou questionando meus defeitos aqui, nunca disse que seria fácil ir embora ou que isso fosse uma vontade certa. Eu tenho muito medo do que a vida tem preparado para mim e você fazia tudo parecer leve. Mas agora é hora de eu mesma me fazer leve e levar leveza para onde eu for. Parto em alguns dias para um lugar que nunca fui e sozinha porque eu posso. Porque eu trabalho, porque eu tenho minha casa e tenho meu dinheiro. Tenho tempo - coisa que, convenhamos, você não tem nem para você mesmo. Isso significa que não vai ter mais espaço para você daqui pra frete porque preciso dos vagões vazios para a viagem não pesar e eu precisar parar ao longo do caminho para descarregar. E se eu chega sem nada, bom, pelo menos eu cheguei.

Peço, ritualisticamente, que você suma. Que você pegue todas as dores que me causou e leve com você como exemplo - essa sua namorada nova é incrível, por favor, não erre com ele de novo. Peço que você seja representante do meu passado e, em troca, eu prometo não te procurar para resolver qualquer assunto pendente. Algumas vezes, é preciso lidar com a dor não lidando com ela. E eu quero a leveza de poder deixar você ir embora, da mesma forma que você me assistiu saindo do metrô - foi tão bom, eu me senti tão bem sem sua energia no meu corpo (apesar de me sentir suja).

Esse não foi um bom texto pois estou guardando os melhores para o livro que publicarei em breve. Você não merece uma boa crônica, ou um bom poema, mas você merece respeito. E em respeito aos 2 curtos anos que compartilhamos a vida, encerro com todos os pontos que você quiser(!!!!!). Anuncio minha partida e anuncio a sua volta para ti mesmo. E apesar de sentir que você me deve todo o seu império, eu também só espero que você me respeite e reconheça o meu cansaço. Estou cansada de ser a amante, a estrangeira, o caos, seu ponto fraco. A partir de agora, eu sou problema meu. Me deixe comigo.

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