Liberdade mesmo que tardia

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Leia ouvindo: listen before i go - Billie Eilish

Há um dia eu parti. Comprei uma mochila maior que meu corpo nada saudável, coloquei umas blusas e umas calcinhas lá dentro, comprei as passagens, na hora mesmo, só de ida, e fui, rumo ao que, até hoje, eu não sei. Fiz as contas e vi que não vai sobrar uma moeda para o fim do mês - tive que abrir mão de saborear um bolinho de abóbora porque esqueci que preciso voltar pra casa. Isso me obriga a ficar na estrada até que eu encontre uma outra casa ou, pelo menos, até eu conseguir arrumar uma forma de comer.

No momento, escrevo em um caderno que está em minha vida desde que fiz minha viagem internacional mais simbólica. Visto que isso faz tanto tempo, meu caderno ameaça acabar, mas eu sinto que preciso registrar o que essas 30 e poucas horas longe de casa já fizeram comigo. É pouco tempo, comparado com os dias que ainda ficarei de ônibus em ônibus que partem uma vez ao dia procurando um lugar pra dormir. "Ei, tem quarto vago?", eu pergunto. "Não menina, tá lotado!". E lá fui eu caçar a cama quente que desejei durantes as cinco horas de viagem. Cheguei com febre e dormi a tarde toda pois estava doente de saudade de casa - desejei voltar, como desejei! Mas eu já tinha chegado longe demais para voltar atrás. Acho que, cedo ou tarde, talvez quando eu tiver uns 50 anos, vou entender um pouco melhor o que essa viagem pra dentro de mim fez comigo.

Sou de Minas. Minas Gerais é minha casa há 18 anos, mas eu só conheço, digamos, o meu quarto. E hoje, conheci a sala. Daqui uns dias, vou pra cozinha. Depois, quem sabe, vou conhecer as entranhas do estado que foi tão gentil comigo, mas que, por ignorância e comparação, eu não sabia que ver montanhas todo dia era um privilégio. Eu tenho adorado sentir o cheiro da história, passar pelas ruas e me sentir em outro século. Pra quem só via carros e asfalto, um bequinho de paralelipípedos soa tão poético quando está meio chuvoso.

Não viajei para Minas para me convencer de que gosto daqui - talvez até seja um pouco disso, mas acredito que posso escolher transformar essa informação em algo mais dramático. Disse o filósofo: "conheça-te a ti mesmo". Era isso mesmo? Então assim fiz. Inconscientemente, comprei as passagens para meu próprio estômago. Acontece que amar o que vem de fora é fácil porque é desconhecido, é novo e óbvio. Mas desde que me joguei nessa de desbravar as vísceras de tudo o que é meu, percebi que existem coisas sobre mim que, além de eu não conhecer, estavam cobertas por camadas nojentas de orgulho.

Acho que não sei escrever mais. Passei tanto tempo sentindo e apenas isso que agora todas as palavras me parecem um diário horrível e mal escrito ou um desabafo vomitado. Se vocês querem um vômito que eu não consigo tirar da barriga, lá vai: não suporto criar paranoias que não fazem sentido. Meu corpo fala e eu sou uma boa ouvinte. Ele falaria se eu não estivesse sozinha. Mas alguma parte minha não quer que o passado vá embora tão prontamente ou acha que o universo se preocupa demais comigo para me dar algo especial, digo, diferente.

Negativo;
afirmativo;
positivo.

Viajei, então, sem sair de casa pois, citando o óbvio, casa é onde nosso corpo está. Quem sabe minha relação com as cidades não se projete nas artérias e correntes que habitam minha pele? Se libertar de cicatrizes é algo dolorido e eu sempre falei sobre isso, até enquanto dormia. Eu tenho muitos medos e traumas que me perseguem mas que, por motivos claros, eu fujo. Mas agora estou me construindo, tijolo por tijolo, para aguentar o que estiver lá fora. Ó céus, eu pareço uma adolescente clichê aprendendo a viver! - alguém me avisa que é exatamente isso o que sou?

Fique inteira. Se esforce para viver. Tem alguém te dizendo algo. Escute..

Escuto.



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