O Buraco

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𝓟𝓲𝓷𝓽𝓮𝓻𝓮𝓼𝓽 | Ludic Life



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Me olhei no espelho durante bons minutos, até perceber que eu não me reconheço mais. Não reconheço os cabelos curtos que eu sempre gostei, não reconheço meu rosto, diferente do que me parecia e, olha, é a única coisa que está comigo desde o início. Minha inconstância se baseia em me sentir exatamente onde deveria estar e ficar desesperada para sair daqui logo - saudade de quando o futuro era só uma ideia e tudo me parecia tão delicioso só de imaginar. Mas hoje não tenho muito o que fazer a não ser esperar pois quanto mais fundo eu cavo, mais coisas vou descobrindo e, consequentemente, visto que nenhum ser humano é isento de desgraças, pior vou ficando.

Há anos escrevo sobre crescer e mudar - não é atoa que tenho essas duas palavras tatuados nos pulsos porque não é fácil mesmo - e eu sempre acho que já aprendi de tudo. Obviamente, estando errada, abro mais uma porta que me leva à imperfeição de ser humana e angústia de nunca chegar a lugar algum. Ano passado, um hora dessas, eu estaria, talvez, me declarando para o que eu acreditava ser o amor da minha vida e hoje não estou muito melhor que isso. Imaginar é mais divertido do que viver porque não existem obstáculos na nossa imaginação. Nós nunca vamos prever que existem outras inúmeras possibilidades para tudo ser diferente. Quando fiz meus mil e quinhentos planos para me mudar para São Paulo, não estava no roteiro que, no final, eu ia simplesmente não querer e me apaixonar pelo meu próprio estado. Minas Gerais é minha casa, mas o mundo ainda é meu destino.

As coisas mudaram, isso é fato e inevitável. Eu mudei, o clima mudou, meu corpo mudou e eu continuo mudando todos os dias já que enfrento uma batalha singular sempre que pisco. E dói, continua doendo mesmo depois de todas as anestesias que tomei para tentar atravessar esse processo menos dolorosamente. Acabei mexendo demais no cabelo e exagerando um pouco no que chamamos de 'self care' e, no final, deu nisso: perdição total e choros no banheiro da academia. Me pergunto, agora que não tenho mais espelho no quarto, como eu vou sobreviver sem conseguir olhar para mim mesma num reflexo que não é nem perto da realidade mas serve para me distrair? Talvez seja por isso que eu goste tanto do dadaísmo. "Ceci n'est pas une Bárbara Morais" porque a Bárbara Morais é muito mais do que o espelho mostra - é muito pior.

Eu ainda tenho a sorte de conseguir encontrar palavras para o que eu sinto e o privilégio de saber o que eu faço muito bem. Minha falta de auto estima ultrapassa a minha própria alma e chega num ponto de acreditar que até Deus está decepcionado comigo porque eu durmo demais e como demais. Mas o que eu deveria fazer? Não é sobre estar parada, é sobre não ter para onde ir porque as portas estão fechadas - eu as fechei e perdi as chaves lá em São Paulo, naquele quarto de hotel, nas lágrimas que derramei no avião pois, por Deus, amo aquele lugar mas não consigo me imaginar vivendo cercada por restaurantes e museus. Eu preciso de espíritos. Eu preciso de literatura viva. Eu preciso das pessoas que eu amo me fazendo acreditar que eu vou chegar onde eu quiser, mas quando for a hora certa. Não, nem eu acredito nisso.

â—€@naturalheartsâ–¶

A questão é parar de culpar o destino por estar infeliz visto que a decisão de desistir foi minha. E, modestamente, eu desisti de uma forma muito glamourosa e sensata tendo em vista que minha saúde mental está melhor do que estaria se eu estivesse longe ou até mesmo nem tão longe assim, mas ainda, longe. A vida é dar um passo para trás para, posteriormente, dar dois pra frente. São aqueles clichês que você lê quando ganha seu primeiro livro 12+ mas que quando você faz 18 fazem um sentido absurdo. Eu ainda tenho a perigosidade de estar presa num corpo que não é meu, mas fazer bom uso dele. Ainda tenho algumas coisas que eu amo e algumas outras coisas que me amam de volta, mas para ser bem sincera, no fundo, eu acho que isso não importa muito.

Escrevo e escrevendo vou entendendo que tenho uma função nesse mundo - sem querer ser chata, mas não aprendi isso escrevendo, mas sim, bêbada, na casa de uma amiga, em que minha professora de Teoria da Poesia estava presente e disse que leria um livro meu, mas talvez eu não gostaria do que ela falasse. Não me importando, Aline, minha artista favorita, me convenceu que meu destino mesmo é ser escritora, e não professora. "Como eu vou fazer isso?", perguntei, obviamente, sem querer saber a resposta. "Eu não sei, mas pelo menos agora você sabe o que quer fazer", ela respondeu, sendo tão sincera que me fez chorar no dia seguinte, no banho, enquanto lembrava que bebi vinho demais e não devia ter dormido tão cedo. Isso me fez refletir: quando eu posso me considerar escritora?

Não sou o tipo de pessoa que é apaixonada pela vida e nem me sinto obrigada a isso, apesar de acreditar que tudo seria tão mais fácil se houvesse um sentido. Sou o tipo de pessoa que não acredita em nada, mas ama Jesus Cristo incondicionalmente porque, em algum momento, ele disse que é isso aí mesmo. Isso o que? Não sei. E é isso. Sou o tipo de pessoa que, sem nenhum tipo de auto destruição, preferia não estar viva, mas também eu não sou niilista o suficiente para acreditar que a morte é a solução da vida. Complexos demais para caber em 1,56 de altura, dor o suficiente para me assombrar durante meus 18 anos de vida.

Ode ao verme que primeiro comeu meus ossos para depois engolir o que restou do meu peito. Ainda bem que eu faço Letras porque se eu estivesse escolhido Psicologia eu teria desistido da arte e a arte ainda é minha salvação.

Meu recado final para mim mesma, que talvez seja a única pessoa que lê esse blog, - sem desmerecer meus 10k de leitores mensais, sinto muito por isso - é: arrume seu quarto, organize as coisas, se apresse um pouco mais, mas o suficiente para você não se perder dentro da sua própria vida. Equilíbrio é tudo e, como diriam nossos mestres, é só usar um pouco de droga e depois comer salada. Desculpem pela comédia sem graça, mas eu tenho visto muito Friends e me identificado mais do que eu deveria. Agora sim, meu recado final é:

continue não fazendo nada.

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