Eu tenho pressa

16:23


verbo ser/ver você – Enquanto você não vem - Larissa Adur



Leia ouvindo: A Palo Seco - Belchior

Existem coisas que já fazem parte de mim há tanto tempo que eu nem tento resignifica-las. Na maioria das vezes, apenas as troco de lugar na esperança de se sentirem mais confortáveis sendo sentimentos invasivos e desesperadores que nunca foram bem-vindos, mas existem e me bagunçam. Faz uns anos que vivo na correria - não na correria do sistema, mas sim, na correria de ser eu mesma, o que é muito pior. Como se a vida fosse acabar antes dos 30 e eu tenho que sair de casa o mais rápido possível pois não quero ser ruim, não quero perder tempo. O complexo é profundo o suficiente para me fazer pensar que não vivemos tempo o bastante para passar por todos os processos da biologia - nascer, crescer e morrer. E ao longo da vida, quantas vezes nós morremos e nos reinventamos em um corpo com células diferentes? Não dá tempo. Não dá tempo de ser tantos tecidos divergentes e tantas personas em um só amontoado de pele.

Daqui algumas semanas eu faço 19 anos. Aos 19, Adele lançava seu primeiro álbum que levava o nome da sua idade. Quando ela lançou isso ainda era muito distante para mim. E hoje, que eu finalmente tenho 19, me pergunto o que eu fiz de grande para levar minha idade como nome. Na minha idade, Taylor Swifit namorava John Mayer, na época, com 32 anos - isso, de certa forma, explicou minha estranha atração por pessoas que nunca vou conseguir alcançar. Sei que não posso transformar em regras as exceções, porém, não consigo deixar de pensar quanto tempo eu dormi para me considerar um peso morto num mundo onde, convenhamos, existe Bolsonaro como presidente do Brasil. Eu sou tão melhor que ele assim?

A resposta é óbvia e negativa. Mas ao invés de me sentir deprimida e preocupada, eu reescrevi minha história e coloquei num caderno novo os sonhos que eu tinha medo até de escrever. Coisas como publicar um outro livro (um que mude algo na história), receber um prêmio, comprar um apartamento. Sonhos que, há algum tempo, não mereciam sequer serem ditos em voz alta por serem audaciosos demais. "Sonhar" é um daqueles verbos que perdem o sentido quando são falados muitas vezes, mas eu até que gosto diss0. Significa que já faz parte da gente e daqui um tempo o sonho não será mais sonho - apesar de nunca, repito, nunca ser do jeito que a gente espera. Isso não é incrível? Uma surpresa nova a cada piscada!

Continuo me sentindo insignificante. E sim, escolhi voltar a morar com minha mãe depois de 2 meses morando em uma república que meu corpo repudiava. Tento não ver isso como um retrocesso, mas sim, como um progresso interno que simboliza a priorização da saúde mental ao invés das conquistas que sempre quis ter e que nunca serão aproveitadas se eu não estiver saudável o bastante para respirar ar puro. Foi legal, obviamente, mas eu não conseguiria viver mais um segundo naquele lugar que não tinha sentido nenhum para o meu corpo e, muito menos, para o meu coração. E daqui um tempo, quando eu estiver curada o suficiente e minimamente certa da minha grandeza, vou repor esse passo que dei para trás e dar um puta salto enorme para frente pois, apesar de ter 19 anos e não ter gravado nenhum álbum vencedor de todos os prêmios possíveis nem namorar um cara incrível de 30 e poucos, tenho bons anos pela frente. E se eu não tiver, digo, se eu morrer, também é um presente tão bom quanto a vida.

My inner moonlight ✨ Insta@mirenalos

Tento não me sentir tão péssima igual me sentia uns meses atrás. Sabe, o ócio me fez um bem que provavelmente eu só vou entender quando estiver entupida de sonhos - eles de novo - que almejei mas não medi as consequências. Quando eu perceber que meu corpo não é de lata e eu deveria ter dado mais valor ao vazio quando ele existia porque eu não vivo no meio termo. Eu sou demais, tudo demais, isso inclui existir tanto que tudo o que acontece no mundo, de alguma forma, é meu. Mas agora, nesse momento, eu sinto falta de me sentir sufocada pelo problemas do universo e pelos caminhos que quero traçar - e não pelo meu próprio quarto que, apesar das zombarias da minha mãe que me chama de mimada, parece me engolir por não ter um mísero espelho.

Outro dia minha mãe, esta que mencionei acima, me xingou quando eu me referi a meu sofrimento como "minha síndrome do pânico". A energia é a mesma da minha médica quando chamei a doença que nasceu comigo de "meu tumor". Não entendi a revolta. Sempre tive pra mim que aceitar certas coisas as tornam, inevitavelmente, menos doloridas. Isso significa que nem tudo que é meu é lindo e isso inclui as faltas de respostas que tenho ainda pela vida e vou ter enquanto respirar. Eu estou doente, de todas as formas, e não tenho vergonha nem medo das palavras visto que elas só têm o poder que você dá a elas. Para mim, a palavra "desgraça" tem o mesmo poder que a palavra "buceta" ou qualquer coisa do gênero. Não me sinto menos ou mais por viver em hospitais que não existem de verdade, nem me sinto pior por falar meticulosamente o que foi feito para ser falado. Palavras.

Apesar da pressa, que acabei percebendo, é bastante comum em alguns dos meus amigos também, eu vou caminhando já que o tempo é um tempo bem diferente do meu. Não tenho muito o que fazer e, visto que já escrevi muita a palavra "esperar", vou fingir que ela não existe e viver como em Jumanji - apenas procurando a sobrevivência e rezando para tudo isso acabar logo. O que é triste e pessimista, mas enquanto eu não encontrar minha linha de chegada, meu Everest, meu grande propósito e clichês e tal, vou apenas abrir os olhos todos os dias me agradecendo por estar viva. "Consegui", eu digo, não me olhando no espelho pois não tenho um.

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