Dezenove

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Leia ouvindo: Socorro - Arnaldo Antunes

Há algum tempo sinto uma angústia - que em alguns corações chamamos de dor - que não consigo explicar. É explicável, de fato, mas de alguma forma, não existe linguagem que se aproxime da mistura homogênea e catastrófica entre beatitude e agonia rasgante. O pão de queijo assa na cozinha e eu o deixo queimar. Deixo-o queimar pois esta é a frase que mais se aproxima do que sinto - o bairrismo, o caos e o cheiro de fogo que é familiar e não parece incomodar. A fome. E mesmo assim, o deixo queimar pois me parece a única coisa que sou capaz de fazer no momento.

Associo, portanto, a falta à falta de sentimentos concretos e conhecidos que, anteriormente, nomeava. Hoje, portanto, me contento com as vírgulas e os espaços em branco quando falo: "ah sei lá, é como se fosse... sabe, assim?". E o interlocutor entende. Mexe com a cabeça positivamente pois é unanime: todo mundo sente. A cara feia, o sorriso indiscreto, a queimação na pele que não é física pois não é na pele - mas como ignoramos a alma achamos que o corpo é o método mais eficaz de explicar aquilo que não dói, mas se sente. A língua portuguesa é falha; a arte é vazia; o olhar é raso demais. Só nos resta ser e existir pois existindo se revoluciona.

Me perguntam com frequência como é ser eu. Ninguém de fora me pergunta, explico: na verdade, as vozes que me habitam tentam reafirmar os pés no chão me perguntando como é ser eu. E eu não sei responder pois eu não existo - me inventei a vida inteira e todos ao meu redor acreditam nessa mentira que no tribunal eu dou o nome de "eu". "Eu" nada mais sou que a materialização celular de sentimentos que existem em alguma camada do universo e que precisava passar a existir num mundo material demais. Sou isso - pois sou. Nós. Sois. Sóis.

            maria fernanda

O pão de queijo continua queimando. E queima minha pele, o Sol. Até hoje não sei se Sol se escreve com letra maiúscula ou não. Me imagino o Sol, com toda sua maestria, explicando-nos que não existe forma para explica-lo. Imagino-no cacheado, de bochechas coradas - afinal, ele é o Sol - rindo de formigas tão pequenas que se acham enormes e quanta prepotência a minha me chamar de formiga! Eu nem sequer existo... Reiterando, então, o Sol me chama não para dançar, mas sim, para uma guerra fria: quem chorar primeiro, perde. Perdi pois a lua facilmente me faz as lágrimas caírem e como a lua é reflexo do Sol...

Em algum momento da minha vida monótona mas que, admito, bastante divertida, eu me prometi acentuar cada vírgula do sangue que corre nas minhas veias. A poesia é capaz de fazer isso. A poesia é capaz de criar o poço de féu cercado de arame do Drummond. O fogo que arde sem se ver de Camões. É isto: sou obra da poesia. Sou um poema que anda, que faz, que atua, que vaga. Eu odeio poesia - gosto das prosas. Gosto da desenvoltura de articular as palavras sintaticamente e ter o poder de atribuir sentidos infinitos que não necessariamente significam alguma coisa. Mas também, gosto dos romances. Gosto de ser Deus por algumas páginas e me sentir no domínio. Me sinto, porém, refém de algo maior. De algo que tem orelha de porco, rabo de porco, pé de porco, mas não é porco.

Como o pão de queijo - sendo mineira, gosto do que faço. Minha obra final é, portanto, única no mundo mas manipulável. Sou uma linha do tempo - um dia, deixo de ser. Um dia termino por contar a vida por meio de palavras. Um dia abandonarei os travessões explicativos que tanto gosto, as vírgulas que aprendi tão arduamente a usar. Um dia, abandonarei a poesia que sou pois não me aguento. Implodirei. Voltarei a ser, vejamos, a bola de fogo no inicio dos tempos que você é. Não o bastante, retorno com sentimentos novos a serem expelidos pela glote em forma de fonemas. Sou o eterno vai-e-vem da divindade e em cada retorno de saturno sou uma artista diferente - vim, nesse, com o azar de ser escritora.

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