A vidente

17:43

Foto com tule sobre o rosto


Leia ouvindo: Te vi - Tagua Tagua 

Há tempos não dou as caras às palavras. Faz dois meses, talvez três - quase três - que as palavras se tornaram meu objeto de estudo, distanciando ainda mais do que já era um refúgio penumbrado, esquecido, apagado. Mas às vezes me lembro de quem sou. E me lembrando de quem sou, acesso diversos botões que ficam inacessíveis na maior parte do tempo, mas que se envermelhidam quando abro o dicionário e me deparo com uma palavra nova na qual nunca ouvi falar. Minha matéria favorita na faculdade é a sintaxe porque a literatura me destrói - de escritor para me tornar miserável já basta eu.

Mas não irei falar de palavras. Estou cansada - realmente cansada, o que talvez seja o principal motivo para me fazer ter preguiça de escrever - desse pleonasmo, dessa metalinguagem constante que por mais prazerosa que seja, é óbvia. Palavras por palavras e a arte pela arte, mas e eu? Falarei, portanto, da dor constante que me assola e que andei escondendo por trás de pilhas e pilhas de teorias da narrativa e redações para corrigir (se em cada nota que eu dou acompanhasse meu mecanismo temporal e remoto, seria diretora daquela escola pois todos sabem que o que vale é a sua rapidez para falar a verdade). Contarei, por fim, do dia que fui em uma vidente em homenagem à minha personagem favorita da literatura, Macabea, responsável por todos os desastres e desencantos que tenho com a língua. 

Fui numa vidente pois estava infeliz. Essa dor já mencionada, que assola o peito e que costura automaticamente as maneiras de viver com essa dor, estava medicinalmente impossível de ser curada e freudianamente explicável mas sem resoluções concretas. O misticismo me pareceu autêntico, me pareceu certo. Não foi sequer físico. A psique, as onomatopeias, as formas de pensar e até mesmo a densidade do ar era a resposta que eu precisava para a dor que assolava o peito - um nome! um nome, um rosto, um endereço (se quiser eu lhe passo mas você precisa me prometer nunca aparecer lá).

Um dia eu escrevi tanto sobre isso que acabei solucionando o problema do trauma. Já não sentia. Não me lembro das cores, veja bem, das cores das casas, do barulho da rua, não me lembro qual era seu nome completo ou qual linha se pega para chegar naquele endereço (mentira. disso eu me lembro bem). Subi em tantos prédios e não consegui ver nada além de serras. Me senti na catapulta da corrente de convecção que não tem exatamente para onde ir, mas continua e continua e continua numa recursividade infinita sem ponto final. Que agonia! Dor é verbo? Doer é verbo, é sabido. Mas será que não existe um jeito de classificar essas coisas que se fingem de estado mas na verdade são parasitas que se disfarçam de lágrima para atacar de madrugada junto com aquele tesão inexplicável e a mensagem que você não deveria ter mandado?

                    - Grécia antiga -   #   - Milch - #antiga #Grécia #Milch

Eu poderia te classificar como algo recorrente e sólido, mas tenho medo que te padrozinar lhe dê mais importância do que você realmente tem. Você sabe que você é você, não sabe? O jeito como eu sinto e como eu vivo tem mudado tanto que eu não sei nem se eu sou eu mesma, espero que isso não lhe ocorra. Passei anos sendo alguém que não reconheço e talvez o que tenha ficado na escada da sua casa seja uma versão minha que não existe mais. E por mais que essa tatuagem nova grita para ser mostrada (olha pra mim, eu preciso ser amada, sou tão pós-moderna-quebradora-de-padrões!), por mais que cada âmago do meu ser pede por sua aclamação e um certo cheiro no ouvido, eu não sei ao certo quem você é também. Isso deveria me angustiar; mas me conforta - quer dizer que nenhum de nós existiu, então. Quer dizer que as noites que acordei com sede nada mais eram que a falta desesperada que eu sentia de mim mesma. Posso, finalmente, acordar

Não é como se essa descoberta fosse a eureka de minha vida - eu sempre soube que tinha algo errado com você quando eu tentava te tocar e minhas mãos atravessavam os seus braços e você parecia não responder. É mais complexo do que a inexistência - se fosse apenas isso, seria mais fácil, mas sabemos que existe muito mais. Algo não existiu, mas algo foi real e foi avassalador a ponto de fazer todo o resto, que era inexistente, passar a existir. Percebe como éramos fantásticos? Demos vida aos mortos. Fizemos nascer flor onde era puro sereno terroso. Um sufixo não nos limitou e tudo passou a existir. Eu só queria que você tivesse me avisado como é perigoso brincar de Deus, visto que eu sou apenas uma alma penada no seu cemitério de passados sem saber exatamente onde fui enterrada. 

Guimarães Rosa diz que narrar é resistir. E eu narro seus passos diariamente como uma forma de impedir que sua face se apague eternamente do meu subconsciente que assimila pequenas coisas à você (posso citá-las, mas posso deixa-las em branco). Já está se apagando. Sei disso porque outro dia, forçosamente, me induzi um pensamento nostálgico e saudoso e não consigo, juro por deus, não consigo lembrar de nada. A cena era nítida. Entretanto, nada mais que a narração me tocou. Eu sei e resisto, enquanto eu peço pra ir embora, enquanto tu pede para ir embora, enquanto todo o resto do universo espera que eu mande o Guimarães Rosa ir se foder para que, assim, a roda da fortuna passe a se movimentar e eu deixe de ser quem eu sempre achei que fui: e hoje eu estou presa demais nos meus corres para me preocupar em ter 16, 17 anos novamente. 

Escrevo mesmo sabendo que semana que vem voltarei naquela vidente por não ter gostado dos resultados e espero que um carro amarelo me bata com força mas, ao invés de matar, transforme a minha vida como Macabea não teve a chance - seria idiota dizer que eu devo uma boa vida à Maca? Seria inútil assumir que agredi minha própria autonomia em prol de uma realidade que não é minha mas que eu queria tão desesperadamente que fosse para que, assim, pelo menos, fosse escrita? Perdão, Maca, não posso te salvar mais. Daqui pra frente sou eu com meus demônios.

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