Tema

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Falar, ultimamente, tem sido mais fácil que escrever. Comecei a gostar da volatilidade que um som, um simples som, tem a descapacidade da permanência. Gosto da leveza dos barquinhos de papel e do poder que eles tem de tornar qualquer abismo mei calmo demais, até como se fosse uma maresia com brisa e tudo mais. Desenvolvo mais. Sou mais fluída e até mais lógica - a ironia, seria se, agora, você percebesse que estou escrevendo igual escrevo normalmente e não me assusta ser tão obstruínte no meu próprio padrão. A cabeça dói de lágrima - que não exigem de mim mais do que um olho aberto e o outro fechado -, estou suada como quem sua quando fala em público e veja, falo muito. Grito em público pois minha voz é alta por natureza e isso me causa uma rouquidão natural que, num passado antigo, resultou no salto de sopranno para contralto mas que agora é meu charme, um charme que quase ninguém percebe mas que eu gosto pois é meio misterioso, meio anasalado, eu falo em segredo o que eu falo em voz alta mas nada sempre é tão claro a ponto de ser óbvio. Eu não sou óbvia. Tanto não sou óbvia que até agora você não sabe do que é essa crônica - ou conto, ou poema-prosa, ou poesia-concreta. Tanto não sou óbvia que minhas indagações não possuem nem trilha sonora, não possuem tema, não possuem letras sequer. É inexistente. É tudo uma interrogação imensa de quem apenas curte a companhia da ladainha que rasteja e planta larvas e nascem insetos que brotam e falam e falam e falam. Possuo grilos de estimação atrás das orelhas quando, na verdade, eu deveria ter as borboletas que cultivei. Cultivei não: mantive em cativeiro pelo medo obscuro de ser o maior pesadelo da vida delas. As asas tão azuis, os brilhos tão ofuscantes, a estática tão emancipada que no fim... morreram de desgosto, assim como eu hei de morrer um dia. De desgosto. Mas continuo meu mistério sem falar de insetos pois minha relação com a biologia é dual pois me casei com ela (sou ser humano) e tenho um caso contínuo com o imaterial porque, como é sabido, eu gosto do que não existe. O inventado é divertido porque é mais correto. O imaginário corrompe a luta mas isso não impede que o estômago crie suas próprias borboletas. Isso não impede que esse texto seja sobre... bom, deixa pra lá.
Hoje, no almoço, comi batata baroa e farofa de couve enquanto conversava com uma amiga sobre Jesus. Depois tomei milk-shake de chocolate. Assisti uma palestra. Tomei uma cerveja gelada. Fui à terapia. Estou aqui. A solução está entre os pontos e conjunções que usei para descrever uma tarde simples e que, veja, me resultou em dores de cabeça, suor e um odor de gente quase desumano. Sinto nojo de mim mesma quando fico em Belo Horizonte até tarde da noite - as pessoas de lá são quase que desesperadas pelo descanso, o que é bom, ao contrário de outra-cidade-que-não-deve-ser-mencionada, onde as pessoas se desidratam pela não-paratitude. Estou esperando uma mensagem de alguém sendo que não há ninguém e, Deus, eu preciso de um banho. Preciso de uma praia. Preciso de querer algo que esteja ao meu alcance pois chega, chega de querer sempre mais e mais coisas que eu não controeo. Ai, cansada! Veja bem, a escoliose da mulher de 19 anos por carregar os próximos 80 anos nas costas é maior que a saudade que eu sinto de conseguir ser linear e mostrar um ponto que é tão simples mas talvez eu sinta tanta vergonha de admitir que prefiro não me comprometer com uma certa interpretação.
Esse texto é sobre parnasianismo? Sim, claro.
É uma crítica contemporânea à necessidade de estabelecimento de uma nova ordem mundial? Pode ser, com certeza. 
É sobre um monstro que habita os alvéolos do seu pulmão? Não garanto. Mas não fumo.
Percebe? É tudo muito misturado. Ao mesmo tempo que me emociono com a criança profundidade de Fernando Sabino, sinto labaredas estranhas e uma solidão repentina e irreal toma conta de todos os pelos de meu corpo. Escolhi pelo agramatical e pelo amatemático. São duas coisas opostas e igualmente erradas. Gosto muito do Arnaldo Antunes e sinto medo de morrer. Meu maior sonho é morrer de morte morrida e abrir o olho e sentir nada. 
Preciso descansar. As borboletas estão agitadas. 

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