Quem nunca se foi

07:39

girodentado:  “-  ”



Leia ouvindo: Cananéia, Iguape e Ilha Comprida - Emicida

Fiquei alguns dias dizendo para mim mesma que eu não tenho nada para te falar. De certa forma, eu realmente não tenho - sempre quando começo a escrever, paro no meio pois sou tomada por uma certa insuficiência vocabular que não se aproxima ao que eu sinto, muito menos ao que eu quero sentir. É estranho assistir sua vida de fora e perceber que esse cenário é distante do que eu vivo. Frequentemente, fecho os olhos e me recordo de um presente-passado com uma cama que a gente compartilhava, com as doloridas caminhadas de domingo, com a delícia do anti-alérgico que me permitia dormir um pouco mais. Com você, do lado. Me sentia infinita.
Mas, acredite ou não, não é disso que eu sinto falta. Não sei se é a falta que eu sinto de verdade ou se é apenas o desacostume de viver a vida liberta. Sei que sempre fui uma pessoa muito livre - comigo mesma e até mesmo com os demônios que me habitam -, entretanto, a liberdade que descobri é nova. Como é estranho não estar presa e não estar doendo. É isso que mais me deixa boquiaberta: nada dói. Se doesse, talvez, seria mais fácil denominar todo esse fluxo de consciência e eu poderia falar: "você me machucou..." mas não. Sua ausência foi a luz branca que me abraçou durante todas as noites penumbradas e saber que você me vigia - e te vigiar - me faz querer te tocar apenas para ter certeza que você ainda existe.
Talvez, se você for embora e a gente se tratar apenas como um marca-páginas bonito, talvez, a gente se esqueça e não é isso que eu quero - quero a memória da diáspora e quero a esperança do futuro enquanto eu não conseguir te encaixar nos dois extremos do meu corpo. Meu corpo chora sempre que pensa em você. Admitir isso assim é fraco e eu cheguei muito longe para restabelecer as ladainhas que tanto ignorei todos esses meses. Mas isso fica de lição: não dá para ignorar o que é verdade. E a verdade é que me enfiei no labor de martelar coisas que inevitavelmente vieram a tona. Eu não quero ter que lidar com isso. Quem sabe a Bárbara do futuro encontre as maneiras de sair desse labirinto bem desenhado e enfrente, de uma forma que eu, hoje, não consigo enfrentar, os conflitos entre o céu e o mar que, inevitavelmente, são meus.
Quantos advérbios, meu Deus!
             A brincadeira da melhor perspectiva

Mas eu tenho muita coisa para te contar e, ao mesmo tempo, não quero desenvolver nada. Não quero colocar as palavras em uma ordem, não quero escrever nada que faça sentido. Eu gostaria de encarar a sua presença no ressinto e poder dançar a noite inteira te olhando e sabendo que você me olha também. Quero poder encontrar o sentido da chuva fora do seu quarto e quero apenas pegar na sua mão e me despedir temporariamente pois uma parte minha quer muito te reencontrar - enquanto a outra, revira os olhos sempre que você aparece.
É como se a calma tivesse encontrado um som . Finalmente posso deitar e ter a beatitude de quem vive e vive plenamente em prol da própria vida. Não busco pois cansei de buscar. Entretanto, é revelada a hora de acordar e percebo que ainda é noite, por volta das três. Muito tarde pra voltar a dormir e muito cedo para me levantar. O meio termo é o som do grilo que esqueceu o cobertor do lado de fora - deitada, propriamente acompanhada de mim, ouvindo aquelas vozes-sonoramente-nulas que ditam e ditam e ditam e eu sequer sei de onde vem isso tudo. Enfim, a paz não é a não existência do caos. A paz é o caos sendo resolvido mecanicamente e da forma mais calorosa possível.
Meus conflitos internos, que viraram cartas de amor, hoje, perseguem toda a pele e todo pêlo que tenho mas finalmente encontrei uma gota de resposta. É incrível ser átona. É perfeitamente belo viver em cima da corda bamba que balança para lá e para cá mas o peso nos meus pés e o peso do mundo são excelentemente paralelos e então: fico.
É saudade. É a combinação perfeita entre saudade (boa) e saudade (ruim). É a mensagem que digitei e não enviei (ou pensei e não digitei (ou nem cheguei a pensar)). É a surpresa que me faz sair pulando da aula de literatura. É o "sei lá" que faz, curiosamente, tudo fazer mais sentido. Encontrei, em mim, veja bem, tudo o que precisava para não me sentir afetada com o mundo em si: é o som. O tic tac. A leitura em voz alta que compõe o ritmo das batidas do meu seio cheio e repleto - quando eu achava que eu não seria mais capaz de amar, penso o contrário. Ao contrário, me aparece a fome e a cena de quem está crescendo como um camaleão ou um polvo que fica se adaptando de ambiente em ambiente mas em casa, descanso. Nunca dei tanto valor aos meus olhos fechados - mas como eu gosto de me abrir pro mundo! Seja bem vindo: apesar das mudanças, continuo a mesma.

You Might Also Like

0 comentários