de novo

07:27



EEDN // Our idea of HEAVEN!! Saturdays are for reconnecting with nature - a nice walk barefoot and a cup of green tea will do miracles! #barefoot #eedntea #eednisreal

Leia ouvindo: Mr. Blue Sky - Eletric Light Orchestra 

Hoje eu olhei pra lua e senti o que sentia quando eu era um feto invertebrado. Hoje eu entrei no mar e senti a fúria que sinto sempre quando preciso reivindicar meu tempo, pois eu sou isso: a luz, a velocidade, a vida. Foi bom sentir pertencimento depois de tanto tempo achando que a solidão é e não é minha aliada. E ela é e não é mesmo, mas depende do ano e depende da época e depende do clima tropical que habita a casa inóspita do meu sangue. Hoje, eu acho (ou achava) que essa pontada nervosa de "ai, ui!" que dá sempre que eu luto contra meus instintos naturais de "ser-quem-sou" se dá devido os longos meses de tentativa de obstruir o que sou. Lutei contra o sofrimento. Lutei contra a diferença. Hoje eu quero todos meus conflitos de volta, do jeitinho que eles são. E é aí que entra a lua: a lua sempre foi a porta de entrada para sentimentos inacessivelmente sóbrios, mas agora que é noite eu percebo o que eu sempre soube: que na verdade eu sou nada e faço aqui o suficiente não para me tornar alguém, mas para alguém se tornar alguém. 

Sou a catalisação e isso me faz pensar: pra onde vai o catalisador? A reação acontece e todo mundo se sente mais substrato, mas, por algum motivo, eu me sinto sempre... estática. A inércia não funciona comigo. Por mais que a lua, o céu, o mar e todos aqueles elementos citados em músicas do Natiruts me empurrem, eu não consigo me sentir mais funcional para o meu próprio propósito. Sou tão passageira quanto o vento (outro elemento), que destrói ou organiza o que toca (se é que toca) e depois, quando eu deixo a luta para aqueles terceirizados da própria vida, eu retorno ao que sempre fui: onda. Bebi um gole de cachaça da minha terra, pinguei duas gotas de colírio e roí todas as unhas que me restavam para eu poder perceber que, vai ano e volta ano, mas eu sempre vou continuar sendo a mesma extensão da natureza que grita, que arde, machuca, mas, acima de tudo, sente. 

Mas esses sentimentos são mais difíceis de serem acessados do que parece. Eu entro em uma roda-viva tão imersa que, quando vou ver, estou acelerada e constante e nada me para. E aí eu paro. E quando eu paro, olho ao redor e percebo que não estou sendo-quem-sou e aí recomeço tudo. Esses sentimentos, por sua vez, enfrentam uma corda bamba de linha de costura, finíssima, frágil, que a qualquer suspiro pode se tornar... dor. E se eu for dor? E se eu for feita para sentir continuamente o braço quebrado, o coração partido, a insistência do amor que nunca-fica? Eu sou feita de mundo, de restos de Terra, e os restos da Terra são feitos de mim mesma. Isso se tornou meu quase inferno, mas o "quase" entrega que existe um suspiro de vida e ah! tem mesmo. Gosto de viver. Viver é amarelo e amarelo lembra a pamonha da minha avó. 

                               midnight-charm: “  “Moonage Daydream” Rianne Van Rompaey photographed by Colin Dodgson for Vogue UK May 2016 Stylist: Francesca…

Esse ano faço 20 anos, redondo, junto com a década. Esse ano eu preciso voltar a ter 15 anos pois sinto uma saudade absurda de quem eu era nessa época - eu era apaixonada pelas formigas, você acredita? - e sinto saudade da delícia que é não saber o que fazer da vida. A dúvida não era amarga, o calor não significava indisposição e eu sentia fome. De manhã eu acordo e estou disfarçada de adulta, quando na verdade eu só sei ser adolescente mesmo. Quando foi que as palavras envelheceram? Não consigo ler Hamlet, não sinto mais tanto gosto pela Bruna Vieira, tudo o que eu queria era uma rede velha e um livro de suspense. Quando foi, Xango, que perdi meu coração pra lentidão? Quando foi que a preguiça de ser tomou conta da vontade de ser arte?

Demoro dias para escrever um texto. Demoro mais oito dias para achar que o escrevi presta minimamente para estar no mundo - tolice a minha pensar, e eu sei disso, que o que escrevo um dia foi meu. Tudo precisa ser tão teorizado e cientifico que me esqueci que o rosto de Deus é um conceito inalcançável. Estou me culpando de tantos poemas diferentes que, no final da vida, minha obra póstuma será meus erros em uma coletânea de capa azul sem título, apenas um carimbo dourado que simboliza a feitura manual de cada desarrependimento que fez de mim a ontologia mais paradoxal da filosofia: tão quente mas tão quente que congela. Fiquei congelada uns anos e agora gasto meu dinheiro com música. Com comida. Com alma. Falta tanta coisa que não coloquei na lista, mas ainda sim, gosto do calor que sobe do cóccix até a medula e sussurra, quando chega ali pertin do trapézio: "moça, tem um tempo ainda, viu?"

Viu. Tem jeito, não. Estou ocupada demais precisando de mim mesma pra aumentar a fila com mais e mais hifens e himens e eu estou tão corrompida de areia que sai água do mar pelo nariz (que delícia), mas eu vou te dizer: não tem, e não tem mesmo, espaço para vazios. Pretendo viver tão intensamente que a língua portuguesa terá vergonha de ser fascista. Vou voltar a ter sede e sentido e vou ser aquela que chora com o eclipse, acredita em todas as entidades possíveis e ama todas as pessoas que cruzam o caminho curto e pedregoso. Aquela criança boba que ninguém suporta pois é agitada ao extremo (mas que, quando para, todos acham que está doente). Estive doente durante esse período de despaixão e doeu, merda, como doeu. Mas agora eu aprendi mais ou menos como esconder isso  e pelo menos posso reconhecer a pequena tentativa de escolher alguma coisa: escolhi, enfim, ser feliz. 

Não tem, e não tem mesmo, espaço para orgulho. 


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