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Leia ouvindo: Bitches Broken Heart - Billie Eilish

Está aqui. A página em branco. O tracinho insistente do computador que me avisa que nada está sendo escrito, quase que como uma afronta à minha criatividade que perdeu espaço para meus sentimentos que evoluíram ao estado de putrefação das palavras. Me tornei indescritível - eu não, meus sentimentos - e tentei justificar isso de várias formas possíveis mas a verdade é que eu tenho apenas vergonha e preguiça. Vergonha de enfrentar o oceano extenso de coisas que eu não quero acessar - e durante um tempo eu me culpabilizei por isso mas hoje eu entendo que quando a gente cresce a gente fica mais feio (e mais complexo) mesmo - e preguiça de ter que raciocinar demais coisas que, na minha cabeça, seriam resolvidas prontamente. Mas nunca foram. Eu deixei tudo se acumular e eu nunca resolvi nada e a torre que habitava em mim, que era rebocada com açúcar e gesso, desmoronou de um dia pro outro. Isso, por sua vez, me fez perceber que Aristóteles era fatal quanto sua fala sobre a essência: não importa o quão destruído você esteja, alguma parte sua continua a mesma.

Eu tinha perdido a minha vontade de morrer. Eu tinha me convencido de que a vida é isso e que pra sempre vai ser isso. Eu repeti pra mim mesma que nem tudo precisa de um sentido e que o sentido das coisas não era o motivo que me faria feliz. Fiquei uns meses assim, trabalhando mais pra fora do que pra dentro, e deu certo. Sobrevivi ao ano. Mas o que eu não contava era que, mais cedo ou mais tarde, meu coração ia pedir arrego e sentir falta de todo o drama, de toda a paixão, de toda a entrega - enfim, de quem eu realmente sou. A minha essência é bem escondida e eu demoraria umas duas, três vidas de terapia para que eu conseguisse acessar e não me confortar com as mudanças climáticas do meu humor. Mas eu não tenho duas vidas e tenho só dezenove anos. Eu tenho só um coração cheio de vontades e confusões demais para serem resolvidas em tão pouco tempo. Espero que Deus, se estiver lendo isso - tendo em vista que ele é um leitor ativo desse blog (talvez o único) - me dê bons anos de vida para que eu possa morrer grata. Em contrapartida, espero não viver muito pois eu estou cansadíssima.

De parágrafo em parágrafo, meu olho coça. Começo a entender que na verdade meu problema com a escrita é o começo. O que eu, francamente, acho estranho, pois eu sempre tenho a música perfeita para cada começo e, consequentemente, cada fim que se inicia na minha vida que mais se parece uma série da Netflix. Daquelas que todo mundo fala "eu gostei das primeiras temporadas, mas acho que se perdeu a partir da terceira". E é verdade, espectador; ninguém te julgaria pois eu realmente me perdi em algum momento desse mês que está durando um ano inteiro. Talvez seja o fato de eu não me lembrar muito bem do fim de semana. Talvez sejam as promessas de reencontros. Talvez sejam as mil e uma "bárbaras" que estão conflitando dentro de mim por um espacinho de atenção da minha essência. E talvez seja tudo isso junto atrelado ao fato de que eu não consigo parar de chorar um minuto desde que eu me sentei num ônibus, sem fone de ouvido, obrigada a ouvir minha própria mente. De repente, cheguei em casa e tudo o que eu consegui fazer era dormi - e eu dormi até hoje, quando acordei minimamente ciente de pequenas partes de coisas que eu sinto e decidi que está na hora de ficar mais confusa ainda.

           eva*

Esse ano, se Deus quiser, será um ano indiferente porém intenso. Será um ano sem muitas mudanças mas com mudanças o suficientemente comprometedoras para que eu tenha repertório na solidão. Desde que eu aprendi a falar sozinha, nunca mais fiquei sozinha, e é até meio que divertido minha relação com o espelho. A construção da própria vida é algo que ninguém te fala quando se está na escola e que nem você pensa nisso quando passa no vestibular - e em certo ponto, me sinto falhando como professora por estar no automatismo inerente da redação e por não deixar um post-it em cada nota 1000 que corrijo: "Muito bom! E o que você vai fazer depois?" Pois, afinal de contas, crescer é sobre se perguntar o tempo todo: e agora?

E agora eu espero uma resposta que só vem com o tempo, mas felizmente eu me encontro muito bem aqui nas palavras sempre que escrevo. Por algum motivo, elas são carregadas de futuro e de vez em quando eu gosto de olhar pra elas e pensar que muito do que sou hoje é por conta das linhas tortas que escrevi quando era pequena. Tudo o que faço aponta pra isso: ler e escrever e ensinar a ler e escrever. Não te parece poético? A poesia pra mim é outra coisa que eu gostaria que fosse menos presente, mas é muito. Brinquei outro dia com um amigo que no final da vida eu serei uma coletânea de "Melhores Artistas" de tantas frases que estarão tatuadas em meu corpo. Gosto daquela do Manoel de Barros, e gosto de tantas do Drummond. Mas veja bem, ainda não achei nenhuma da Clarice.

Acredito que, em breve, aparecerei aqui escrevendo sobre amor de novo e sobre todos os sintomas da paixão. Não quero que seja tão em breve assim pois eu estou com muitíssima coisa pra resolver e não sei se tenho tanta paciência assim para coisa-novíssimas. Mas eu não controlo nada e isso é sabido. É sabido também que as melhores respostas vêm quando nenhuma pergunta foi feita e olha só pra mim, o próprio Google Forms. Eu tenho esperança de que cedo ou tarde eu serei obrigada a me colocar no eixo e, enquanto isso não acontece, voltarei a chorar inconsistentemente, na frente do espelho, pelada, na esperança de que Deus (tenho questionado tanto isso, ultimamente) possa preencher esses vazios que reaparecem em todo ano par. Me esqueci que parei de contar em que ano estamos em 2017. Depois disso, tudo tem o nome de "hoje". Mas e agora?

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